Correr. Malhar. Liberar os hormônios que produzem a sensação de felicidade. É o que dizem. Sei do conforto psicológico que me dá uma sessão de atividade física, mas, confesso, não tenho sentido prazer nem felicidade nenhuma. Quando estou caminhando numa esteira que não gostaria que virasse cabide, o que me vem à cabeça é que amanhã ou depois de amanhã estarei ali novamente. Brincando de hamster, como bem definiu um amigo outro dia. Por que eu? Por que logo eu que já tanto pratiquei esportes e até me formei em educação física haveria de sentir esse desprezo, essa quase que revolta contra a atividade física? Não sei. Só sei que tenho que fazer e sigo a minha luta pra baixar o nível do canalha do meu triglicérides. Pelo menos meia hora de esteira, quatro ou cinco vezes por semana. Lá se vão dois meses que ando nessa malhação e espero que ela seja compensada. Antes de ser praticamente obrigado a malhar, em que frequentei academias. Nelas, meu terror eram os abdominais. E ainda o são. Não os faço mesmo. Nadar na hora do almoço foi outra tentativa de vida saudável que fez parte do meu histórico. O problema é que eu saía da piscina urrando de fome e almoçava que nem trabalhador braçal. É, parece que depois que parei de praticar esportes, essa história de atividade física virou um drama na minha vida. De vez em quando, abandono a esteira e saio caminhando pelo bairro sossegado. É mais divertido. Encontro as pessoas e vou observando pássaros, árvores e toda aquela paisagem bucólica comum a um bairro periférico. Têm coisas tristes, como um pobre sinimbu esmagado no asfalto. Mas essa de sair de casa me remete a preguiça, então, veio a esteira. Ela fica ali como se estivesse a me olhar, me provocar. Está posicionada em frente à televisão, porque diante da telinha tenho opções que ajudam o tempo a passar mais rápido. Meu pai, que já passou dos 80 e também foi desportista como eu, largou dessa história de atividade física há várias décadas. Costuma dizer que já fez muita atividade física. Tem crédito. Mas eu também era pra ter. Tenho inveja do meu pai. Ele não tem problemas com triglicérides e colesterol. Que pena que não herdei dele essa saúde sanguínea. Uma alongada, ah... Isso ainda me dá prazer, acho gostoso. Quando acordo naturalmente, aos finais de semana com nenhum compromisso à vista, nada como uma boa espreguiçada. É mais ou menos por aí. Sou daquelas pessoas adeptas a uma vida completamente sem esforço. Nem estresse, nem preocupações. Uma vez, numa poesia, versejei que meu signo no horóscopo chinês deve ser o bicho preguiça. E... cansei-me, por hoje... LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras
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