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ARTIGO
Segunda-feira, 10 de Maio de 2010, 20h:52

LORENZO FALCÃO

Bebedeira e memória

O ônibus desce tranquilo pela estrada do Moinho. É de manhã, mas não tão cedo. O horário de pico já ficou pra trás e encontrei lugar sentado no ‘maravilhoso’ transporte coletivo cuiabano. Na parada do bairro Santa Cruz, paraíso para ladrões e toda a sorte de malfeitores, entra um sujeito daqueles que a gente olha e sabe logo de cara que já viu o focinho dele antes. Ele tem um esparadrapo mal ajambrado na testa, que é meio de rampa. É ali mais ou menos na altura da sobrancelha esquerda. Fosse nos tempos de antigamente, qual esparadrapo que nada, seria emplastro de sabiá mesmo. Umas manchas vermelhas nas imediações do machucado entregam que mertiolate ou mercúrio cromo, pelo menos um dos dois, foi usado. Me ponho a pensar de onde é que conheço o sujeito. Meu cérebro está numa ginástica feroz, tentando resgatar imagens, acontecimentos e outros penduricalhos. Desde que fiquei sabendo que o Mal de Alzheimer invade nossas vidas acompanhado por uma série de esquecimentos, tenho feito o possível para não me esquecer de mais nada. Comemoro com gosto quando me recordo do nome de um filme antigo, de um ator ou diretor que atuou neste ou naquele filme. Só que quanto mais velho fico, mais e mais filmes vou assistindo e fica mais difícil gravar tudo na memória. É que a minha memória, tem vezes, penso que vai se tornando um queijo suíço, daqueles parecidos com a lua, de tantas crateras que acumula. O camarada, que estava sentado na parte da frente do ônibus se levanta em vem para a parte de trás. Tenho a chance de vê-lo melhor e sinto como se fosse lembrar de onde o conheço a qualquer momento. Distraio-me e olho pela janela. Lá fora, num bolicho de quinta categoria, dois sujeitos já tomam uma cerveja. São pouco mais de nove horas da manhã. Olho pra eles com um misto de reprovação e inveja. Fico pensando nos males do álcool, no seu vício indesejado. E... E... Eureka... Bingo. Me lembro de onde conheço o sujeito. No dia anterior, quando voltava pra casa de ônibus, naquele mesmo ponto onde ele subiu, ele desceu. E estava num estado deplorável. Sequer conseguiu passar a roleta. Não sei se pela falta de coordenação ou se por causa da mijada que estampava em sua calça. Lembro-me de sua descida colossal do ônibus, um cai-cai daqueles de fazer inveja, mas aprumou-se e tocou pra casa. Pra casa, eu acho. Lembro-me de ter dito ao motorista que o cabra, provavelmente, iria apanhar da esposa. E agora vejo-o com um curativo na face, talvez um arranhão de uma unha desenfreada de raiva. Ôooo língua... Acho que apanhou mesmo da patroa. LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras

Edição EDIÇÃO 16967




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