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ARTIGO
Sexta-feira, 17 de Julho de 2009, 20h:48

PAULO ZAVIASKY

Arte cuiabana em apelidar

Nós cuiabanos sempre cultivamos aquele sabor gostoso de apelidar todo mundo. Nascemos críticos e caricaturistas e quase nem notamos isso. Há muitos anos, descobrimos o poder da sátira, do desconcertante humor que derruba até os grandes líderes da história. E o mais importante nos apelidos cuiabanos são seus misteriosos significados, tudo codificado naturalmente. Todo mundo sabe o significado, menos o aquinhoado com o troféu dos apelidos daqui. Tive apelidos que quase me mataram. Emolduro esta coluna de hoje com a tentativa de resumo didático de uma história verdadeira, exaustivamente conhecida de todo mundo daqui, sobre esse encanto nosso de cada dia em apelidar o mundo. E a nós mesmos. Um viajante que sabia de nossa fama desafiou colegas numa aposta que aqui chegaria, ficaria uns dias e retornaria sem que fosse brindado com apelido algum. Chegou, desceu da lancha que sempre chamávamos de “navio” ali no porto e notou os olhares dos cuiabanos em cima dele, o único estranho que descia em nosso solo em muito tempo das idas e vindas desse transporte. Pegou uma charrete/lotação perigosíssima que a câmara municipal daqui tinha aprovado para o transporte de passageiros por causa dos dois cavalos que foram autorizados para maior velocidade, bem melhor que os caminhões-táxis, e rumou direto para uma pensão com uma janela para a rua. Durante o mês inteiro que aqui ficou não saiu de seu quarto e apenas abria a janela de quando em vez, fechando-a quase imediatamente. Ao completar o tempo da aposta, foi embora. Seus colegas que perderam a aposta o estavam esperando no porto em frente à lancha. Mas, ele se desencontrou de seus colegas que estavam meio cabisbaixos pela aposta perdida, pois o amigo conseguira, afinal, “sair incólume” da aventura combinada de que ele não teria apelido algum dos cuiabanos durante o mês inteiro que aqui ficara. Seus amigos e colegas saíram à sua procura e perguntaram para alguns cuiabanos que adoravam assistir àquela movimentação dos “navios” no entra/sai de mercadorias e gente que se despedia para a longa viagem pelo encantamento do Rio Cuiabá até Corumbá (MS). Dois cuiabanos retrucaram quase juntos: “-Vocês estão perguntando sobre o “Cuco”, aquele moço que sempre só abria e fechava a janela bem depressa”?... “Cuco”, dos relógios com o passarinho que anuncia as horas, abrindo e fechando as janelinhas, já era o apelido do forasteiro desde o primeiro dia. A mesma coisa que o famoso “pau-rodado” que apenas alguns não gostam desse velho costume idolatrado e cultivado pelo nosso povo e pelo símbolo de nossa História cuiabana de verdade que é o eterno Arcebispo Dom Aquino Corrêa que tanto o usava em suas crônicas antigas e premiadas internacionalmente. Inventam cada coisa para esse termo que dá gosto. Numa reunião em certo importante clube de tradições de outras plagas irmãs, seus membros resolveram impor um novo apelido para confrontar com o tradicional “pau-rodado” que, segundo alguns médicos especializados em psiquiatria, faz um mal danado a quem realmente não é bem-intencionado, igual àqueles que evocam Deus aos trancos e barrancos, a todo o momento, por qualquer coisinha... Não confie neles! Idêntico a alguns analfabetos espalhados por aí que falam “baixada” para o Vale do Cuiabá, por isso carregam apelidos fantásticos, inteligentes e alguns impublicáveis. Enfim, bolaram um tal de “pau-fincado”... E falaram o porquê. Significaria uma pornografia acentuada, como “pau enterrado na bunda dos cuiabanos”. Com a façanha de ser um apelido ambíguo, podendo ser utilizado com outros sentidos. Apenas o jornal “Equipe” publicou essa reportagem e o cronista social Jejé que o exorcizou na época. Os Nostradamus foram aplaudidos pela Bíblia inteira presente naquele evento. Mas, como não eram cuiabanos, a coisa não deu muito certo. Suas próprias mulheres protestaram por não poderem usá-lo. * PAULO ZAVIASKY é “coró branco”, de goiaba estragada [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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