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ARTIGO
Sábado, 05 de Novembro de 2011, 13h:06

GUSTAVO OLIVEIRA

Arca de Noé

Em 1804, um ano após o inglês Thomas Robert Malthus ter publicado seu segundo ensaio, que elevaria o tema do crescimento populacional a um novo patamar e passaria a influenciar vários campos do pensamento moderno, estava sendo contado o habitante de número um bilhão no planeta Terra. Na última segunda-feira passamos a ser sete bilhões de moradores neste frágil pontinho azul que vaga pela imensidão do universo e Malthus voltou a ser lembrado em várias reportagens sobre o aumento populacional. Meu primeiro contato com Malthus e suas ideias conhecidas como malthusianismo foi na década de 1980, quando cursei Economia, na UFMT. Em síntese, de acordo com sua teoria, a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, enquanto a população aumenta em progressão geométrica. Tal defasagem explicaria as guerras e as epidemias como recursos inevitáveis de redução da população. Para ele, qualquer melhoria no padrão de vida de grande massa é temporária, pois ela ocasiona um inevitável aumento da população, que acaba impedindo qualquer possibilidade de melhoria. Malthus propõe o controle da natalidade e a restrição total da assistência social e médica à população, para restaurar o equilíbrio. A tese é elaborada na Inglaterra, no começo do século XIX, início da Revolução Industrial, período em que os camponeses abandonam o campo para se transformar em operários na cidade, reduzindo a mão-de-obra do setor agrícola e afetando a oferta de alimentos nos mercados urbanos. As previsões pessimistas de Malthus felizmente não se concretizaram graças a homens como Norman Borlaug e Alexander Fleming, que permitiram avanços da agricultura e da medicina. O norte-americano Norman Borlaug, no início da década de 1960, produziu no México cultivares de trigo de alta resistência e produtividade. Sua pesquisa foi levada para a Índia e o Paquistão, que conseguiram dobrar a produção de trigo e salvar de inanição quase 1 bilhão de pessoas. Estes aumentos na produtividade e produção agrícolas em meados do Século XX foram chamados de ‘Revolução Verde’ e em reconhecimento à sua contribuição para a paz mundial através do aumento do fornecimento de alimentos ele foi premiado com o Nobel da Paz em 1970. Já o escocês Alexander Fleming nos deu a penicilina no final da década de 1920. De todas as descobertas voltadas ao bem-estar humano, esta foi a que transformou mais profundamente a nossa história, ao livrar-nos da maioria das infecções bacterianas que provocavam grande mortalidade no passado, como a tuberculose, a pneumonia, a meningite, a sífilis, a gangrena e tantas outras. Fleming ganhou o Nobel de Medicina em 1945. Estes exemplos servem para contrapor o pessimismo de Malthus e garantir uma boa notícia para os novos habitantes do nosso planetinha: a Terra tem seus limites naturais, mas por acreditar que homens como Borlaug e Fleming vão continuar existindo, creio que é impossível mensurar o limite da capacidade que o ser humano tem em buscar novas soluções para os problemas que sempre se apresentam para ameaçar a nossa existência. Porém, não custa nada não abusarmos da generosidade desta Arca de Noé que habitamos. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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