ARTIGO
Sábado, 28 de Agosto de 2010, 12h:39
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SELVINO HECK
Apenas três anos atrás
Apenas três anos atrás era impensável um Foro Social das Américas no Paraguai. Este país ausente começa a se fazer presente. O Paraguai renasce, disse o cantor Hugo Ferreira no ato de abertura do IV Foro em Assunção. Apenas 11 anos atrás, na noite de 24 de março de 1999, 7 manifestantes foram mortos na praça frente ao El Cabildo por franco-atiradores do alto dos edifícios, na luta por democracia e por um Paraguai livre, no Massacre do Março Paraguaio. Apenas alguns anos atrás os indígenas bolivianos não se apresentavam num Foro com altivez, pregando o Bem Viver da harmonia entre as pessoas e a harmonia das pessoas com a natureza, e são reconhecidos como povos na Bolívia plurinacional. Apenas poucos anos atrás a maia e guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz/1992, não pôde visitar o Paraguai, porque não lhe garantiam segurança, o que pôde fazer em 2010 sob as asas da liberdade e da democracia. Apenas pouco tempo para cá indígenas brasileiros, peruanos, equatorianos, guatemaltecos e de todos os países latino-americanos tornaram a anunciar com orgulho suas raízes, sua forma de produzir, sua cultura e reverenciar os ancestrais e seus valores. Apenas há pouco tempo era impossível reunir na mesma mesa num foro latino-americano um presidente boliviano indígena, um presidente paraguaio bispo da Teologia da Libertação, um presidente uruguaio ex-guerrilheiro tupamaro. Apenas há muito, muito poucos anos dos mais de quinhentos desde sua colonização não são generais os presidentes eleitos, ou mandaletes dos poderosos de plantão, ou lacaios do poder econômico dependente ou ditadores de plantão. Apenas faz pouco é eleito um presidente brasileiro metalúrgico e sindicalista, um presidente equatoriano das Comunidades Eclesiais de Base, um presidente venezuelano dissidente das forças militares conservadoras, um presidente salvadorenho aliado de históricas forças guerrilheiras. Apenas há poucos anos o povo começou a votar livre e soberanamente seus governantes sem o poder das armas e o tacão do fuzil nas costas. Apenas há poucos anos FMI e Banco Mundial eram os únicos interlocutores da política econômica e social dos países latino-americano e seus governos. Apenas poucos anos atrás as ordens vinham de fora, do estrangeiro, e os governantes batiam continência para o poder econômico externo. Apenas quatro ou cinco atrás não havia UNASUL, ALBA, Banco do Sul e a integração latino-americana. Apenas há poucos anos sem terras, catadores e recicladores, moradores de rua, pescadores, pequenos agricultores, negros e quilombolas, indígenas eram escorraçados dos corredores do poder, aos quais jamais tinham acesso, muito menos participação. Apenas há pouco tempo os pobres latino-americanos não tinham voz nem vez, sendo apenas bucha de canhão para servir a pátria ou dar seu voto na eleição. Como diz a canção Guaranis de Gildásio Mendes: Ah! Quanta luta na fronteira,/ tanta dor na cordilheira,/ que o Condor não voou./ Ah! Dança e terra guaranis,/ de uma raça tão feliz que o homem dizimou./ Ah! Vou nos passos de um menino,/ no meu coração latino a esperança tem lugar./ Ah! Quando bate a saudade,/ abre as asas liberdade, que não para de cantar. Ou o cantador Zé Vicente, em Pelos Caminhos da América: Pelos caminhos da América, bandeiras de um novo tempo,/ vão semeando, ao vento, frases teimosas de paz./ Lá na mais alta montanha, há um pau darco florido,/ um guerrilheiro querido, que foi buscar o amanhã. /Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta,/ recusando a velha pauta que o sistema lhe impôs./ No violão um menino e um negro tocam tambores,/ há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois. É, o tempo da unidade latino-americana sonhada por Che chegou. *SELVINO HECK - Assessor Especial do Gabinete do Presidente da República