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ARTIGO
Quinta-feira, 07 de Agosto de 2014, 20h:42

VICENTE VUOLO

Amor ao sertão

No momento em que o Brasil apresenta pouco interesse pela leitura, poucas bibliotecas por habitantes e baixo índice de qualidade de ensino comparado aos países desenvolvidos, vale a pena rememorar a importância do professor, dramaturgo, romancista, roteirista, poeta e homem-espetáculo Ariano Suassuna (1927/2014) na vida brasileira. Desde os tempos de criança, quando acompanhava os circos mambembes no sertão paraibano, ele queria ser palhaço. Não subiu ao picadeiro, mas transformou os auditórios de palestras em palcos iluminados por sua facúndia. A capacidade de comunicar e hipnotizar o público era sempre surpreendente. Só o Auto da Compadecida ganhou quatro versões para a televisão. A primeira foi em 1969, com Regina Duarte no papel da Compadecida. A segunda, em 1987, na versão com Os Trapalhões no Auto da Compadecida. Em 1999, a minissérie feita pela Rede Globo foi considerada pelos críticos, a adaptação mais marcante da obra. Como o sucesso da minissérie foi tão grande, no ano seguinte, a história de Chicó e João Grilo chegou aos cinemas como um dos filmes brasileiros de maior bilheteria do início do século XXI, visto por mais de dois milhões de pessoas. Ariano desenvolveu a base do Movimento Armorial, idealizado a partir dos anos 1970. Ele conceituou a palavra "armorial" como a coleção de insígnias de um povo. Como professor da Universidade Federal de Pernambuco e diretor do Departamento de Extensão Cultural do centro acadêmico, nos corredores e nas salas de aula da faculdade, solidificaram-se as bases conceituais e estéticas do movimento artístico. O concerto "Três séculos de música nordestina: do barroco ao armorial" e uma exposição de gravura, pintura e escultura, na imponente Igreja de São Pedro dos Clérigos, em 18 de outubro de 1970, marcou o lançamento oficial. Tão idealista quanto o personagem Quaderna, do "Romance d'A Pedra do Reino", Suassuna sonhou com uma ideologia múltipla, na qual a linguagem armorial se entrelaçava com música, dança, literatura, arquitetura, artes plásticas, teatro, cinema e artesanato. Para um dos maiores nomes da literatura contemporânea, mesmo com as mudanças de comportamento do sertanejo, frutos da modernidade, o homem do sertão ainda era o mesmo para ele e, em seus romances, veste-se de herói em terreno de obstáculos. Ariano, carinhosamente chamado de "Dom Quixote Brasileiro", afirmou que o Dom Quixote só poderia ser escrito na Espanha de Cervantes: "Mas a Espanha de Cervantes não é a de hoje mais não. Dom Quixote, pelo menos, ficou e fixou a Espanha do tempo dele". Com relação à desvalorização cultural, Ariano sempre acreditou que não existe progresso tecnológico ou econômico em arte, existe mudança. "Nada modificou nem vai modificar a essência do ser humano no sertão ou na cidade". Da mesma forma, que as secas e os êxodos rurais sempre foram um flagelo do nordestino, mesmo assim, o Nordeste ainda é o grande celeiro cultural do Brasil - como Minas - porque corre um eixo que, não por acaso segue o curso do Rio São Francisco, o rio da unidade nacional. Mas, o que dizer então, grande Suassuna, sobre a falta de um Prêmio Nobel de literatura para o Brasil? A resposta foi de quem está acima do Prêmio Nobel: "Acho que é o Prêmio Nobel que deve estar sentindo falta de um brasileiro. Parece-me um prêmio político". Suassuna passou a ser um patrimônio cultural, cumpriu seu ciclo de vida. Mais do que isso, especialmente porque é um exemplo que nos empurra para frente, com ética e inteligência. O espetáculo do brilhantismo de Suassuna estava em sua sagacidade e cultura, estava também em seu humanismo arraigado, na sua capacidade de amar o próximo, em seu desejo de ver o ser humano tratado com respeito. Enfim, Suassuna é um exemplo para todos nós, especialmente aos políticos, que aparecem, pelo menos em sua maioria, distanciar-se todos os dias desses ideais. *VICENTE VUOLO é cientista político e analista legislativo do Senado Federal. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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