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ARTIGO
Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008, 21h:25

RENÊ DIÓZ

Acima do bem e do mal

Ali, seu argumento não serve, não funciona. Os seus compromissos e a falta de tempo não são maiores nem mais importantes que os dele. Naquele recinto imaculado, você – um reles mortal – não pode vacilar ou deixar de ter um sorriso pronto no rosto: ele é o médico e você é o paciente, cujo maior trabalho, realmente, é ter paciência. Muita paciência na sala de recepção, pois é proibido reclamar de atrasos. Haja cafezinho e revista de fofoca. Afinal, quem já marcou uma consulta e foi atendido no horário combinado? Eu não me lembro de algum episódio desses na minha vida. Talvez deva considerar que - tal como o cometa Halley - eles aconteçam apenas uma vez a cada 76 anos, e eu, que tenho apenas 20, ainda posso aguardar a minha vez. Ótimo. Pois, sob o discurso do "sacerdócio" e da "lida com vidas humanas" (quem não lida com elas?), essa categoria já me aperreou o bastante. Na última quarta-feira, tinha uma consulta marcada para as 9h da manhã. Não podia perder e, reles paciente que sou, faltei a uma aula importantíssima na faculdade e corri para o ponto de ônibus para não me atrasar, 20 minutos faltando para o horário, reservado um mês antes. O busão fez o favor de passar longe do ponto onde eu desceria. No ponto seguinte, desci e corri cerca de 200 metros, sol torrando, para conseguir comparecer ao consultório às 9h05. Tanto esforço pra nada. O médico ainda nem havia chegado. O resultado foi uma espera desnecessária de uma hora, para um tipo de consulta que, comigo, nunca demorou mais do que 10 minutos. Até aí, nada de novidade, mas o que ninguém contesta é essa condição acima do bem e do mal desta categoria. São os profissionais mais prestigiados do país, mas sua conduta para com os "pacientes" nunca é contestada. Por que seus atrasos são mais toleráveis que os meus? E porque eu posso deixar todos os meus compromissos e desperdiçar uma manhã inteira para ter 10 minutos de conversa – e ser encaminhado para outro profissional só porque o doutor de branco, do outro lado da mesa, não gostou da minha indignação? Falta enquadrar o trabalho desta categoria como uma prestação de serviço, pela qual se paga e que deve ser realizada dentro do que se determina. A saúde, logicamente, é um bem mais que precioso e, por ela, não há quem não se disponha a aturar algum eventual atraso, mas isso não é motivo para a arrogância de tratar “pacientes” como se o trabalho com eles fosse um favor. Talvez, o maior erro na conduta desses profissionais da saúde, seja esquecer que possuem clientes. Uns convenientemente pacientes, outros não. RENÊ DIÓZ é repórter

Edição EDIÇÃO 16964




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