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ARTIGO
Terça-feira, 06 de Abril de 2010, 20h:59

GABRIEL NOVIS NEVES

A propósito

Fui informado que um parlamentar protocolou no Congresso Nacional, em regime de urgência urgentíssima, um projeto de lei instituindo 31 de Março como o Dia Nacional do Choro. Apoio essa importante iniciativa, pois o que assisti ontem pelos canais de televisão foi choro de norte a sul, leste a oeste deste país. Não entendi tanta choradeira para comemorar um simples ato administrativo, quando temos tantos motivos justos para chorar, e não choramos. Como explicar ou entender a choradeira nacional? Fui aos livros populares, ricos da mais pura sabedoria. Procurei atualizar o sentimento do hoje centenário Noel Rosa: “Quando eu partir, não quero CHORO nem vela, quero a faixa azulada, gravada com o nome dela (Poder)...” Seria a partida o “Adeus” do Silvino Neto? “Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram... Quem parte, tem os olhos rasos d’água... quem fica também fica chorando...” O que dizer das lágrimas de crocodilo? Esta expressão popular é usada para dizer que alguém chora sem razão ou por fingimento. Surgiu de um fato real que acontece com os crocodilos. Quando o animal come uma presa, ele a engole sem mastigar. Para isso abre a mandíbula de tal forma que ela comprime a glândula lacrimal, localizada na base da órbita, o que faz com que os répteis lacrimejem. Discuti com o cuidador do meu irmão sobre o choro nacional. Ele - homem rural e pouco habituado às vergonhas nacionais - em certa altura da conversa me saiu com esta: - Doutor, bezerro quando é desmamado fora de tempo não chora, mas fica jururu, emagrece. Aí ele sai procurando uma vaca qualquer que lhe forneça o leite vital para a sua saúde e fica tudo bem. Vai ver que com os homens acontece a mesma coisa né? - É, acho que você tem razão – eu respondi. Quando uma mãe nega o peito ao seu filhinho, com a justificativa de não querer “estragar” a sua anatomia mamária, acontece o mesmo que acontece com o bezerro. - Claro doutor! – o rapaz exclamou. E completou: capim e mamadeira não substituem as tetas. Será que esse pessoal que está sendo desmamado fora do tempo, não tá chorando por falta das tetas do poder? - Pode ser, pode ser, respondi. E porque os que entram também choram? - Ora doutor, estômago vazio dói! As lágrimas devem ser de gratidão e satisfação - por usar a faixa. Essa colocada no peito de quem detém o poder, é parecida com a usada pelo Rei Momo. Nossa! Dá até chilique! A única faixa que não presta para nada é aquela amarelinha, que só serve para complicar a nossa vida no trânsito, e além do que, é mais um imposto. Acho que aprendi alguma coisa de choradeira, coisa pouco habitual lá na roça. - E o que você ach.... – tentei falar, mas fui interrompido pelo empolgado rapaz. - Doutor, o senhor viu aquela fileira de gente? Alguns chorando de alegria e outros de tristeza, hein? Pode me explicar isto? - Não sei como te explicar – respondi. E não sabia mesmo. Mas acho que ele já tinha a resposta na ponta da língua e desabafa: - Aquilo mais parece o cordão dos puxa-saco. Lembra-se daquela marchinha de carnaval do Roberto Martins e Frazão? A letra era mais ou menos esta: Lá vem o cordão dos puxa-saco, dando vivas aos seus maiorais, quem está na frente é passado para trás - e o cordão dos puxa-saco, cada vez aumenta mais. Mas se o ”Doutor” cai do galho e vai pro chão, a turma logo evolui de opinião. Vamos aguardar o próximo 31 de Março - para curtir mais um feriado. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16963




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