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ARTIGO
Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010, 19h:24

KLEBER LIMA

A OAB não é mais aquela

Os bastidores da OAB de Mato Grosso andam agitados ultimamente. O motivo não é nenhuma nova mobilização em torno de temas de interesse público, tais como bandeiras já empunhadas pela entidade em glorioso passado, como a campanha do Petróleo é Nosso, pela educação pública gratuita e de qualidade, tampouco a luta pela redemocratização do país, que eclodiu com as Diretas Já. Nada mais se fala no interesse corporativo da categoria dos advogados, como defesa das prerrogativas, formação e qualificação profissional, acesso ao mercado de trabalho aos jovens advogados. E muito menos algo a ver com as questões atinentes ao direito propriamente dito. Ao que tudo indica, discussões sobre os recentes escândalos envolvendo o Poder Judiciário e uma grande parte dos nossos magistrados já caíram no esquecimento do atual Conselho Estadual da OAB. A pauta principal da entidade, agora, sob a nova direção, data maxima venia e salvo melhor juízo, é perseguir opositores e adversários na política classista, negando-lhes até mesmo acesso às dependências da sede da seccional, quando não impedindo-os de se manifestar nas reuniões do conselho. Mesmo quando são parte diretamente interessada na pauta. Ao menos é o que me informam alguns amigos advogados, especialmente alguns dos que participaram de uma reunião havida na semana passada, na qual o Conselho se reuniu para negar a cessão de uso do auditório da seccional para a Associação dos Advogados Trabalhistas sob a alegação, pasme, de que sua respectiva presidente faz críticas ao atual conselho. Lê-se isso textualmente num libelo mal-traçado pelo relator do caso. Amigos do próprio conselho, embora tentem explicar que há outras questões envolvidas, acabaram confirmando o caso. Na verdade, a OAB parece ter perdido a referência de política classista e também sua capacidade de perceber os tão decantados anseios da sociedade civil organizada. Torna-se incapaz de intervir nos processos políticos reais da sociedade, amesquinha-se, despolitiza-se, e perde até sua dimensão corporativa, quando, movida ou pelo ódio ou pelo revanchismo, passa a tratar advogados militantes e em pleno gozo de suas prerrogativas profissionais como inimigos a serem combatidos até a morte. Chega a ser uma violência e extrema covardia o que fazem membros majoritários da seccional contra uma advogada, mulher, representante de um segmento importante da categoria, com alegações que parecem absurdas e extrapolam os limites da institucionalidade. Na verdade, o conselho dá péssimo exemplo à categoria dos advogados e, por extensão, à sociedade, quando não consegue exercer a democracia interna. Essa metamorfose da OAB em igrejinha de poucos adeptos deixa a sociedade órfã de uma das suas principais guardiãs das liberdades democráticas, da cidadania e do Estado Democrático de Direito. Ad Argumentandum Tandum Que autoridade moral ou legitimidade terá a OAB para intervir nos assuntos da cidadania se mal consegue tratar suas próprias diferenças internas sem transformá-las em mazelas autoritárias? Há tempo, senhores e senhoras, todavia, para recuperarem o bom senso e a sensatez, e deixarem que questões de ordem pessoal e íntima de membros da categoria sejam resolvidas no âmbito privado das relações pessoais. Há tempo, sobretudo, para que a OAB recupere sua dignidade de entidade fundamental demais à sociedade para deixar-se perder na mediocridade das picuinhas pessoais. Basta se lembrarem que estão fazendo história, e se fazerem uma pergunta básica: como querem ser lembrados? * KLEBER LIMA é jornalista e consultor de marketing em Mato Grosso e-mail: [email protected].

Edição EDIÇÃO 16962




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