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ARTIGO
Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010, 19h:40

LORENZO FALCÃO

A morte de Coquinho

Gatos são animais majestosos. Parecem saber de sua prodigiosa natureza e vivem a ‘brincar de esfinge’. Meus parentes felinos são como uma extensão familiar. A perda desses bichos de estimação é dolorosa. Coquinho, por exemplo, entrou em minha casa há alguns anos. Já velho. Surgiu no portão e veio se chegando com a docilidade dos siameses e seus olhos azuis. Não sei de onde veio. Apareceu e foi entrando. Ficando. Bicho de boa índole sem radicalizar na questão da territorialidade. Impôs uma convivência pacífica com os outros felinos que já habitavam minha casa. “Será que é macho ou fêmea?”, indaguei-me quando chegou. Olhei para suas partes recreativas e vi dois coquinhos. Ficou-lhe o nome na hora. Ficava em locais estratégicos da casa como se fosse um bicho empalhado. Andava meio surdo e quando dormia parecia treinar para morrer. Às vezes se deitava próximo e de frente para a parede, como as crianças ficavam de castigo antigamente. Tenho dois bichinhos bakairi de madeira em casa que de vez em quando colocava perto de Coquinho, só pra ele ter companhia. Coquinho parecia se aproximar mais e mais do seu encontro marcado com a indesejada. Num sábado a ressaca me obrigou a ir até a farmácia. Era um dia de neosaldina. Cheguei ao portão e, na calçada em frente de casa, está um belo siamês endurecendo a mercê das moscas. Coquinho tinha que morrer justamente num sábado de dor de cabeça. Respeito os bichos de estimação e ritualizo a partida deles. Voltei até a cozinha e peguei um saco de lixo preto. Fúnebre. Acomodei Coquinho nele e torei para as cercanias do cerrado próximas ao meu periférico bairro. Numa quebrada, com o coração, além da cabeça, me doendo, deposito Coquinho e cubro-o com pedras. Nenhuma lágrima me sobrou. Só tristeza cinza. Cinza é também um pouco a cor dos siameses. Onze e trinta da manhã, finalizo a breve e solitária cerimônia da viagem de Coquinho. Passo na farmácia, compro minha neosaldina e tomo com coca-cola. A dor de cabeça já vai passar, mas Coquinho continuará doendo na sua ausência. Aviso a mulher da morte de Coquinho e ela emite uma interjeição muda de sofrimento. O filho acorda e deita-se na rede da varanda dos fundos. Também é informado que Coquinho já não está mais entre nós. Há um silêncio vazio na casa. “Êeee pai,... mentiroso!, olha o Coquinho aqui”, diz o filho. E revejo Coquinho pescando pedacitos de ração no prato dos gatos. Coquinho continuou andando furtivamente pela casa, que nem um fantasma esquálido. Por mais um mês, ‘pepé’ toda vida. Aí Coquinho morreu. (Texto escrito originalmente em 2007, para agoraquando.blogspot.com. Se quiser, vá lá e veja a foto de Coquinho no link http://agoraquando.blogspot.com/2007/12/morte-de-coquinho_15.html *LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras

Edição EDIÇÃO 16962




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