No conto A ilha desconhecida, de Saramago, um homem simples pede ao rei uma caravela para ir à procura da ilha desconhecida. Como? Se todas as terras já estavam nos mapas? Menos a não sabida, a negada, a ignorada, a impensada... Façamos de conta que Mato Grosso é uma ilha, aliás, nem é preciso fazermos de conta: por muito tempo estivemos isolados do resto do Brasil. Chegar aqui, apenas navegando. A verdade é que ficamos isolados e desconhecidos por mais de dois séculos. Do fim dos tempos áureos até o fluxo migratório dos anos 70. A ilha dos Paiaguás, Guaicurus, Bororos, Cinta-largas, Xavantes, Parecis e tantos outros deixou de ser mítica para se transformar em ilha de prosperidade... Saramago parte do Absurdo, do nonsense para construir sua obra. Como se pode pensar em uma ilha desconhecida se tudo já esta mapeado, esquadrinhado pelos Google Earth? Como disse a personagem do mestre da literatura contemporânea portuguesa ao rei que afirmara que todas as ilhas já estavam nos mapas: - Nos mapas só estão as ilhas conhecidas.... Aqui, a metáfora da ilha tem por objetivo iniciar um debate sobre utopia e o nosso estado dentro da perspectiva que um outro Mato Grosso é possível. Ernest Bloch, em Le principe espérance, afirma que o principio da esperança age sobre todo ser humano que não foi contaminado pelo embrutecimento, pelo cinismo ou pelas decepções. Este homem, provido de uma consciência antecipadora, é capaz de buscar ativamente o ainda não experimentado, a utopia, a materialização de um novo modelo que transforme ideologias, desde concepções artísticas até econômicas. Mato Grosso é campeão de tudo: de soja, de arroz, de milho, de algodão, de bovinos etc. Campeão de crescimento econômico: na última década, o estado cresceu, em média, dez por cento ao ano. O quê? Como? É isso... dez por cento ao ano, uma ilha de prosperidade. Mato Grosso cresceu e muito. Quase poderíamos afirmar que é um outro Mato Grosso, se não fosse a brutal desigualdade que impera na terra de Rondon. Por isso não podemos ficar mostrando esse fantástico crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma de tudo que produzimos. É a soma do arroz produzido pelo pequeno produtor e do arroz produzido pelo grande) como se fosse algo extraordinário; pois, se o é, é apenas do ponto de vista econômico e não social. Crescimento econômico e totalmente diferente de desenvolvimento econômico. Ser campeão disso ou daquilo não é suficiente para dizermos que a vida das pessoas que vivem em Mato Grosso tenha melhorado. Não basta termos o maior rebanho bovino do Brasil para afirmarmos que nossa gente come carne todos os dias. O fato do estado ter ficado dezenas de vezes mais rico, não pressupõe que a totalidade da população tenha melhorado sensivelmente de vida. O que precisamos aferir é se nossa gente acredita que a saúde melhorou dezenas de vezes; se a segurança pública é, de fato, uma sensação presente na sociedade ou não; se educação de qualidade chegou a todos, independentemente da classe social; se, diante de tantas riquezas, a capacidade de poupar das pessoas aumentou. Há tantas e tantas perguntas que colocariam em cheque os que nos governam e os que pretendem nos governar. Este é o momento de, dialeticamente, abrirmos a discussão sobre o temos e o que queremos. Será que, minimamente, o governo do estado promoveu ações para referendar as palavras do saudoso Dom Helder Câmara: Não quero os ricos menos ricos, mas os pobres menos pobres. Será que esse modelo econômico voltado para exportação de produtos primários agrícolas e sabidamente agressivos ao meio ambiente é o melhor caminho para o futuro de nosso povo? Óbvio que as candidaturas postas ao governo do estado carregam muito mais que nomes. Trazem consigo um jeito de administrar e promover crescimento ou desenvolvimento econômico. Para o nosso bem, teremos que, forçosamente, analisar com o mínimo de profundidade o passado, o presente e o viés economicista de cada candidato para que tenhamos o inicio da vida e do estado que sonhamos. Infelizmente, para a maioria o jogo é tão duro que só ter piedade de nós não vale à pena e ficamos sem saber se a insensibilidade é maior dos governantes ou dos governados. Porém, sabemo-la vinda do espelho. Todavia, é preciso mais utopias e mais utópicos para que os limites do poder-ser possam se transformar em realidade num futuro próximo. *SÉRGIO CINTRA é professor e está vereador pelo PDT de Cuiabá.
[email protected]