ROBERTO B. DA S. SÁ
O último final de semana, com ênfase no domingo, foi um dos mais agitados no país, neste ano já em agonia. Torcedores de alguns times de futebol, vestidos a caráter, movimentavam-se desde cedo para assistir a partidas decisivas de um determinado campeonato que parecia não ter mais fim. Concomitantemente a isso, submetendo-se às longas e cansativas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), alguns milhões de jovens competiram entre si por alguma vaga no ensino superior. Sem pretender avaliar a completude do conjunto daquelas provas, trato neste artigo apenas de alguns pontos que me chamaram a atenção, partindo da proposta de redação. Para isso, antes de tudo, transcrevo o enunciado da referida proposta. Ei-lo: Com base na leitura dos textos motivadores seguintes e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo, em norma culta da língua portuguesa sobre o tema O indivíduo frente à ética nacional, apresentando proposta de ação social, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione coerentemente argumentos e fatos para defesa do seu ponto de vista. Na sequência, foi inserida uma charge de Millôr Fernandes e dois excertos de textos: o primeiro de Lya Luft; o segundo de C. Calligaris. Na charge, um ser humano em pleno deserto diz para si mesmo: Só lidar com gente honesta, meu Deus, que solidão!. No primeiro fragmento, é demonstrada a inquietude da autora com a acomodação geral de nosso povo, que já passa a ver como se fosse errada a postura de indignar-se com a ignorância eloquente, com o cinismo bem vestido, com o banditismo arrojado... O outro excerto centra-se sobre o efeito que nos causa, coletivamente, a seguinte frase, já transformada em lugar-comum: Eles são todos corruptos. Na conclusão, Calligaris afirma que o dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro. No geral, a proposição dessa redação é pertinente e didática, excetuando a obrigação de o candidato apresentar ...proposta de ação social, que respeite os direitos humanos. A meu ver, não causaria prejuízo algum se esse complemento não tivesse existido. A atitude política do propositivo não deve ser uma imposição, mesmo que em plano hipotético, como foi o caso; por isso, bastava ao candidato a devida compreensão dos três textos que consolidavam a completude da proposição; mas, menos mal! Muito pertinente também é a opção pelo texto dissertativo-argumentativo. Sem inventar moda, essa é, sem dúvida, a melhor forma textual a qualquer exame de seleção. A dissertação permite, por si, visualizar a coerência e a coesão num texto. Aliado a isso, outro ponto positivo foi marcar a necessidade da escritura se dar em norma culta da língua portuguesa. No mais, o tema é absolutamente relevante. Tratar da ética ou da conduta nacional passa a ser um desafio ao nosso povo, principalmente, aos jovens. Agora, eis alguns problemas. Em nome das variações linguísticas, quase já se aboliu o ensino da norma culta na escola. Por isso, os alunos têm dificuldade de ler qualquer tipo de texto; logo, dissertar/argumentar coerente e coesamente é algo quase intransponível à maioria, principalmente, aos oriundos da escola pública. Isso é deslealdade no final de um percurso escolar. Solução: voltar ao ensino rigoroso da norma culta da língua portuguesa; talvez, o ensino do latim tenha de voltar também. No tocante ao tema, penso que tenha sido a oportunidade de catarse, mas não mais à maioria dos jovens. Isso porque, em que pese ainda haver quem se indigne com corrupções, trapaças, mau caratismos...., os exemplos de má conduta social, por parte dos mais experientes, e a impunidade são tantas que, suponho, muitos dos candidatos escreveram apenas o que o corretor queria ler. Infelizmente, grande parte da juventude já absorveu as más lições ensinadas pelos adultos! Isso, aliás, será um dos maiores problemas de nossa Pátria, mãe gentil em brevíssimo tempo. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT
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