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ARTIGO
Segunda-feira, 31 de Maio de 2010, 21h:02

LORENZO FALCÃO

A bola é sobrenatural

Juro por Deus que tentei outros assuntos, mas não deu. Parece que na minha cabeça a Copa já começou e não consigo pensar por mais de três minutos em outro assunto que não seja futebol. Passei o final de semana largado no sofá da sala, com os olhos pregados na telinha. Me faltaram forças até mesmo para ir até a cozinha e abrir mais uma cerveja. Me lembro do Jorge Moreno, jornalista cuiabano hoje um cabra poderoso na Globo, que era meu vizinho e tentava me dissuadir do gosto pelos esportes, em meados dos anos 70. Jorge sugeria que eles, os esportes, atrapalhariam minha evolução cultural. “Pé de atleta a gente cura, mas cabeça de atleta não tem cura”, costumava dizer o Moreno. Sei não, mas tenho certeza de que minha vida seria muito chata sem a presença dos esportes. Primeiro, praticando-os, até os trinta e pouco... E depois, apenas assistindo pela televisão, porque é muito mais seguro. Pelas minhas retinas passaram várias partidas de futebol e programas esportivos de análises, comentários etc e tal. Gols de tudo quanto é jeito. Mas o que mais me deixou perplexo de tudo que vi em relação ao futebol foi o comentário do nosso centro avante, Luís Fabiano que, espero, faça muitos gols na África do Sul: “A bola é sobrenatural”. Vários jogadores criticaram a bola, mas Fabiano foi o mais original. Me fez lembrar até do grande dramaturgo e também cronista esportivo, Nelson Rodrigues, segundo o qual, o futebol é ‘a pátria de chuteiras’. Eu sequer sabia que a bola desta Copa seria diferente. Mais leve, devo acreditar. Foi o que deduzi dos comentários dos nossos craques. Disseram que quando batem na bola esperando obter um tipo de efeito, que a fará fazer uma curva ao longo de sua trajetória, a pelota oscila na direção várias vezes. Imagino que o novo balão de couro tenha lá a sua semelhança àquelas antigas bolas de borracha, denominadas ‘dente de leite’, que ‘vareiam’ até não poder mais. ‘Vareiam’, do verbo ‘vareiar’, a grande contribuição do Didi Mocó Colesterol Zacarias Mussum, para a língua portuguesa. Fico com pena dos goleiros. Uma profissão onde não se pode falhar. E me bate aquele saudosismo de um tempo que não cheguei a viver. Aqui na redação do DC tem gente que diz que eu assessorei Moisés, aquele personagem bíblico, mas é mentira. Eu falo é dos tempos do Didi, o inventor da folha seca, aquele chute que faz curva, e entra bem no ‘ângalo’ (como diriam cuiabaníssimos), ou onde a coruja dorme, como frisam alguns narradores futebolísticos. E que venha a Copa. LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras

Edição EDIÇÃO 16966




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