ARTIGO
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009, 23h:05
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ENOCK CAVALCANTI
2002, o ano que não terminou
Meus amigos, meus inimigos: Zuenir Ventura, jornalista que integrou a geração de ouro do Jornal do Brasil (depois virou mais um, na equipe de O Globo), teve uma bela sacada quando lançou seu livro emblemático 1968: O ano que não terminou. A obra dá destaque aos acontecimentos que marcaram o agitado ano, tanto no Brasil, quanto no mundo. Claro, sempre houve rebeldia, sempre houve contestação, os acontecimentos que marcam a história da humanidade sempre se imbricam uns nos outros, mas Zuenir soube vender seu peixe. Afinal de contas, em 68, aconteceram as passeatas comandadas por Vladimir Palmeira, as greves operárias contra a ditadura militar, que culminaram com a imposição do Ato Inconstitucional nº 5 pelo general-ditador Costa e Silva, com muitos assassinatos de opositores do regime e com grande debandada de lideranças brasileiras para o exterior. E tivemos, também, as manifestações do Maio de 68, na França, a Primavera de Praga e mais, muito mais. Bem, Zuenir Ventura foi esperto, fez seu comercial e o Brasil continua por aí, com diversos anos que não terminaram. Não terminou o ano de 1984, com a frustração das Diretas Já. Não terminou 2005, com o PT virando um zumbi de si mesmo à medida que não teve autonomia para punir os erros de quem, no comando do governo federal, igualou o partido sem patrão aos demais partidos, na tragédia do mensalão. Aqui, em Mato Grosso, diria que o ano que não terminou foi 2002, quando aconteceu a Operação Arca de Noé. Foi em 2002 que o poder do bicheiro João Arcanjo Ribeiro, cuja figura sombria pairava sobre os destinos de todos mato-grossenses, começou a ruir. Arcanjo foi preso mas sobrevivem por aí os braços políticos do crime organizado. Sim, foi exatamente no dia 5 de dezembro de 2002, que a Policia Federal - cumprindo determinação do juiz Julier Sebastião, que legitimou investigações comandadas pelo procurador da Republica José Pedro Taques e pelos promotores de Justiça Mauro Zaque e Domingos Sávio de Arruda - deflagrou a Arca de Noé. Em ação fulminante, policiais e promotores invadiram o bunker do Arcanjo, na Boa Esperança, em Cuiabá e iniciaram importante mudança nos rumos de nossa história. A Operação Arca de Noé resultou, até agora, na condenação do Comendador e de outras 9 pessoas. Arcanjo é um ex-integrante da Policia Civil que se tornou dono de jogo do bicho, sucedendo o radialista Edivaldo Ribeiro; dono de empresas de factoring; de uma rede de hotéis e de outros negócios, no Brasil e no exterior. A força que este homem conseguiu ter dentro da política e da sociedade de Mato Grosso só poderá ser inteiramente conhecida quando historiadores como Alfredo Menezes e Louremberg Alves se dispuserem a fazer os estudos, as monografias que os historiadores estão nos devendo. Sim, a força de Arcanjo vazou para além do jogo do bicho, da agiotagem e invadiu a política, tendo sido abertos uma série de processos que relacionavam as atividades do Comendador com diversas figuras da política, notadamente durante o governo do PSDB (1994-2002). Consulto meus alfarrábios e vejo que a invasão da fortaleza do Arcanjo, naquele 5 de dezembro, mobilizou 160 policiais federais, 30 policiais rodoviários federais, 3 procuradores da República, 20 promotores de justiça e 6 fiscais federais. Dentre os bens apreendidos, estavam 2.303 imóveis, sendo 1.384 apartamentos em construção e outros 710 já prontos; uma fazenda de piscicultura com 3.768 hectares e outra de soja, com 8.260 hectares; um shopping center em Rondonópolis; três hotéis no país e um nos EUA. E mais: uma aeronave Cessna Citation, de US$ 6 milhões; 30 outros veículos, 105 bens móveis, dentre jóias e barras de ouro; e ativos financeiros que totalizaram mais de R$ 38 milhões. Foram indisponibilizados cerca de R$ 8,6 milhões em contas bancárias. Arcanjo, com a esposa, Silvia Chirata, era também dono de duas empresas offshore no Uruguai, a Lyman e a Aveyron SA. Essas empresas recebiam dinheiro de atividades ilícitas e utilizavam esses valores para garantir empréstimos feitos por bancos no Uruguai às empresas de Arcanjo em Cuiabá. Paro por aqui. E deixo no ar a certeza de que este texto e esta minha abordagem também não terminaram. Enquanto houver fôlego, precisamos falar destes fatos. * ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é titular, em Mato Grosso, do blog www.paginadoe.com.br