Primeira Página
Sábado, 05 de Julho de 2008, 15h:33
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ENTREVISTA
Equilíbrio entre receita e despesa
Aumento de receita e de repasse aos municípios. Isto não é alquimia, é o cenário que reflete a política da Sefaz conduzida por Éder Moraes.
EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Campeão do agronegócio. Praça cobiçada pelo mercado nacional por seu poder aquisitivo. Cidades em formação. Taxa de crescimento acima da média nacional. Estado que exige prontas e rápidas respostas do Poder Público. Assim é Mato Grosso. O dia é pequeno para o titular da Secretaria de Fazenda (Sefaz), Éder Moraes, que conduz a política tributária. Mesmo assim, ele abriu um curto espaço em sua agenda para esta entrevista em seu gabinete. Com a naturalidade de quem tira coelhos da cartola para cada demanda, falou do aumento real da receita, o que reflete positivamente nos repasses aos municípios. Demonstrou a possibilidade de incrementar ainda mais a arrecadação com a ampliação da base tributária do Fundo Estadual Transporte e Habitação (Fethab) e revelou a existência de acordo com os poderes sobre o duodécimo até 2011. Enfim, mostrou que há equilíbrio entre receita e despesa. Diário de Cuiabá A Sefaz definiu o Índice de Participação dos Municípios (IPM) para 2009, mas ele ainda pode ser mudado... Éder Moraes Sim! Foi definido o IPM para o próximo ano, em caráter provisório, porque cabem os municípios, entre os dias primeiro e 30 deste mês, a proposição de ajustes que julgarem necessário, a exemplo de cruzamento de GIAs, confirmar lançamentos e verificar se a forma como o cálculo foi feito contempla todos os índices a que o FPM se propõe. Após esse período, o IPM se torna definitivo. Diário Prefeitos se mostram descontentes com o IPM de seus municípios para 2009... Éder - O que ocorre é que alguns municípios perdem e outros ganham, mas o perder ou ganhar está muito focado na capacidade que cada município teve de agregar investimentos. Ao invés de reclamar que perdeu, o prefeito precisa ver se sua gestão está correta, se seu cofre está correto. Aqueles que buscaram investimentos e conseguiram levar investimentos para seus municípios, que se levantaram de suas cadeiras e foram atrás de investidores para gerar empregos em seus municípios, a exemplo de Rondonópolis, Lucas do Rio Verde, Campo Verde, Primavera do Leste e vários outros que fizeram essa política, tiveram seu IPM aumentado. O aumento do IPM é mérito do prefeito. Agora, os prefeitos que se estagnaram e não se mexeram para correr atrás de investimentos tiveram seu IPM um pouco diminuído. Diário A Sefaz compensa o município que tem o IPM reduzido? Éder Ela faz isso! O esforço fiscal da Sefaz resulta em aumento de arrecadação, que se reverte para os municípios e acaba corrigindo financeiramente as possíveis perdas que aconteceriam com a redução do IPM. Ou seja, ainda que o percentual do município sofra redução, ele ganha no absoluto. Diário Na prática, como isso funciona? Éder Simples! No primeiro semestre deste ano o governo repassou aos municípios mais de R$ 51 milhões acima do que estava programado. Ou seja, aqueles que no passado reclamaram que estavam sendo prejudicados pelo IPM acabaram sendo contemplados com recursos financeiros a mais. Todos ganharam mais! Diário Cuiabá botou a boca no trombone... Éder É verdade! No passado Cuiabá reclamou, muito porque teve o IPM um pouco diminuído, mas a Prefeitura de Cuiabá recebeu R$ 6,2 milhões a mais e Rondonópolis recebeu R$ 2,2 milhões a mais, porque houve aumento de arrecadação e esses municípios, com sua produção, fizeram jus a esse repasse financeiro a maior. Diário Como o prefeito aumentaria o IPM de seu município? A Sefaz sugere aos prefeitos que contratem em seus municípios pessoas capacitadas para buscar investidores interessados em instalar indústrias que possam funcionar com matéria-prima existente na área, como é o caso do algodão na região sul, que está agregando grandes indústrias têxteis. Lucas do Rio Verde está recebendo um grande complexo industrial da Sadia, porque produz a base da alimentação das aves e suínos que ali serão abatidos. Diário O aumento de receita cria a corrida por duodécimos maiores? Éder Não! Mantemos o melhor relacionamento institucional possível com os poderes. Tanto assim, que por determinação do governador Blairo Maggi, juntamente com o chefe da Casa Civil, Eumar Novacki, fizemos um acordo com todos os poderes e estamos com todos os desembolsos programados até 2011 para esses poderes. O Estado está planejado. Estamos com os duodécimos pré-definidos para os próximos três anos. Diário Em que pé está a renegociação da dívida de Mato Grosso? Éder A reestruturação da dívida foi aprovada pela Assembléia. Estamos no momento de concluir com o Banco do Brasil a finalização da proposta para encaminhá-la à Secretaria do Tesouro Nacional. Diário Qual o grande objetivo da Sefaz no momento? Éder O objetivo da Secretaria de Fazenda é socializar a tributação. O que isso quer dizer? Quer dizer ocupar os vagos de receita que vários setores da economia mato-grossense apresentam por baixa eficiência fiscal do próprio governo em cobrar. Aliado a isso existe um sério componente, que é a sonegação praticada por alguns que estão continuadamente tentando burlar o Fisco estadual. Nesse sentido a Sefaz toma várias medidas, algumas impopulares, que acabam fechando o cerco de uma maneira geral contra a sonegação e a evasão. Diário Quais seriam esses vagos de receita? Éder - Por exemplo: cartões de crédito. A Sefaz cruzará as bases de dados de compra com os cartões de crédito, com a base da administradora de cartões de crédito e com a base de contribuintes da Sefaz e da Receita Federal. Esse cruzamento nos permitirá saber o que está sendo declarado no faturamento sobre as vendas com cartões de crédito e o que efetivamente foi realizado por estabelecimento. Isso nos permitirá notificar e intimar o contribuinte que deixou de recolher o imposto devido. Vale ressaltar que quando me refiro a contribuinte, em 99% dos casos me refiro a pessoa jurídica. Diário Existem outros vagos? Éder Existem! Solicitamos aos fabricantes de caminhões e de máquinas pesadas as fitas magnéticas de todas as vendas realizadas nos últimos cinco anos em Mato Grosso, porque historicamente a cultura tem sido a de faturar direto do fabricante para o contribuinte usando a concessionária local apenas como intermediária. A manobra com esse tipo de operação deixa de recolher o diferencial de alíquota (do ICMS), na maioria das vezes em torno de 5%. Vamos notificar os fabricantes e aqueles que adquiriram esses caminhões para que recolham ao Fisco estadual aquilo que devem. Também estamos com problema com a entrada de medicamentos no Estado. Por isso, tomamos todas as medidas possíveis nas barreiras fiscais para corrigir as perdas nesse setor. Adotamos o mesmo procedimento em relação ao setor de peças automotivas, que teve uma relativa queda. Quando a Sefaz dispara uma ação, sabemos onde queremos chegar e o que buscamos, graças aos informes do nosso serviço de inteligência e o cruzamento de dados que nos apontam que tal setor está com eficiência fiscal baixa e que merece um tratamento mais apurado da Sefaz. Diário Algum vago foi ocupado com ação da Sefaz? Éder A nossa eficiência tributária em veículos usados estava abaixo de 35%. Atuamos nessa área, elevamos a eficiência para próximo de 45% e nossa meta é alcançarmos 70%. Diário Empresários reclamam de concorrência predadora de produtos de fora... Éder - Estamos fechando o cerco também com relação ao cruzamento de dados das vendas através da substituição tributária. Quando o contribuinte faz compra para revender em Mato Grosso, o fornecedor já recolhe e credita os impostos que são devidos ao estado de Mato Grosso. Estamos nas barreiras fiscais zerando os benefícios fiscais predatórios, que são aqueles benefícios concedidos a muitos produtos que entram para concorrer de forma predatória com os empresários estabelecidos em Mato Grosso. Ou seja, esses produtos chegam com alíquotas reduzidas de imposto, utilizam-se de alíquotas cheias para pagar apenas o diferencial, brincam com o preço em Mato Grosso, porque têm uma margem entre 5% e 10% para praticarem preço a menos. Essa prática levava comerciantes locais à falência, mas nós atuamos fortemente nessa área e obrigamos esses contribuintes de outros estados a recolherem a diferença do imposto na barreira fiscal. Diário A Sefaz planeja aumentar a base tributária do Fethab? Éder Sim! Vamos enviar um projeto de lei à Assembléia Legislativa estendendo o Fethab ao milho, ao caule da cana e aos minerais nobres. Diário Com o milho... Éder O milho era uma cultura que estava desprezada anteriormente, mas que agora passa a ser uma cultura importante e tem que receber tratamento igualitário, como recebem a soja e o algodão. Nós sabemos que houve quebra de 30% na safra do milho americano, há aumento de consumo interno no Brasil, há demanda mundial por combustíveis naturais e há demanda maior para o milho. Mato Grosso tem uma grande área cultivada com esse cereal, de modo que haverá uma boa arrecadação. Além disso, com o Fethab do milho estaremos praticando a justiça tributária com todos os produtores rurais. Diário A cana também será tributada... Éder A questão do caule da cana colhida para as usinas tem sido discutida há algum tempo. Entendemos que é correta a cobrança que pretendemos. Avaliamos também a perspectiva de futuramente diminuirmos a estimativa do setor, como forma de compensação, mas efetivamente queremos cobrar o Fethab do caule da cana. Diário Por que Fethab na mineração? Éder Na questão da mineração acho muito importante o Fethab, porque para Mato Grosso fica apenas o passivo ambiental dessa atividade. Temos que consertar isso e cobrar aquilo é de merecimento do Estado. Diário Cobrar Fethab sobre materiais básicos da construção civil... Éder Não haverá Fethab para os insumos da construção, nem para água mineral e o calcário. Não vamos cobrar sobre esses insumos para não aumentar o preço do cimento e, enfim, dos materiais básicos da construção. Pela mesma razão também excluímos a água mineral e o calcário. Cobraremos sobre o diamante, ouro, zinco e o cobre extraídos do solo e subsolo, porque em sua grande maioria são destinados à exportação com alíquota zero de imposto, e as operações desse comércio exterior são registradas em São Paulo. O mecanismo pelo estado de São Paulo nos impede de receber o retorno da Lei Kandir, que desonera as commodities para exportação. Por isso decidimos cobrar o Fethab, que será dimensionado pela capacidade da jazida, pela remoção de terra para a extração do mineral e pelo movimento financeiro registrado no CNPJ das mineradoras instaladas em Mato Grosso. Não podemos ficar indiferentes ao ouro que sai de Mato Grosso deixando passivo ambiental e vai servir de lastro financeiro de bancos internacionais, de reforço financeiro para países europeus, vai para a jóia da coroa, como diz o ditado popular. O ouro bruto que sai de Mato Grosso tem valores agregados incomensuráveis de 10 mil por cento, 11 mil por cento. Ou seja, o Estado está fomentando o desenvolvimento de outros países e outros estados, mas não recebe um centavo por isso. Diário Há estimativa de receita do Fethab com a tributação dos minerais? Éder Temos um estudo apontando que haveria um aumento de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões na nossa arrecadação. Essa proposta é tão coerente, que alguns estados como Pará e Minas Gerais estão procurando esse modelo de tributação para adotá-lo, porque ele terá capacidade de corrigir de modo geral os danos ambientais com a mineração na medida em que o Estado destina parte dessa receita para investimentos na área ambiental. Diário O setor mineral é poderoso. Pode haver resistência... Éder Se o empresariado entender que tem que retirar suas atividade de Mato Grosso porque o Fethab poderá prejudicá-lo, não tem problema. Que tirem suas atividades daqui, porque já que não estamos ganhando nada e fica apenas o passivo ambiental, com a saída dele pelo menos a gente estanca a questão do passivo ambiental.