Primeira Página
Sábado, 15 de Março de 2014, 13h:18
A
A
MT MUITO MAIS
Composição com PR pode afastar partidos
Presidente do PSDB, Nilson Leitão é dos que acreditam que o PR traria mais prejuízos que benefícios à candidatura de Pedro Taques ao governo
KAMILA ARRUDA
Da Reportagem
A possível adesão do PR ao grupo de oposição, que tem o senador Pedro Taques (PDT) como pré-candidato ao governo do Estado, pode afastar alguns partidos. O presidente da Executiva regional do PSDB, deputado federal Nilson Leitão, é um dos que não concordam com esta aliança. O tucano afirma que a única forma de os republicanos aderirem ao grupo sem causar mais prejuízo do que benefícios seria, antes, rompendo totalmente as ligações que possuem com a atual administração estadual, ou seja, entregando o comando de todas as secretarias que possui no Palácio Paiaguás. Sem uma medida neste sentido, Leitão avalia que esta eventual aliança seria uma tentativa de enganar o eleitor, tendo em vista que o grupo liderado por Taques tem como principal bandeira as críticas ao governo Silval Barbosa (PMDB). Em entrevista ao Diário, o deputado tucano ainda falou sobre sua atuação na Câmara Federal, os projetos que tem apresentado e as causas que vem defendendo. DIÁRIO - Gostaria que o senhor começasse fazendo um balanço do seu mandato até o momento. NILSON LEITÃO - Acredito que assumi a Câmara Federal em um momento muito delicado, que foi justamente no período em que seis ministros estavam sob suspeita de corrupção. Nesta situação, também assumi a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, virei presidente desta Comissão e acabei presidente daquilo que derrubou os ministros, o que, de fato, fez com que cada um fosse exonerado. Poder participar, com quatro meses de mandato, daquilo me deu uma abertura dentro da Câmara Federal. Depois disso, aconteceram tantas coisas... Tornei-me vice-presidente da Comissão de Agricultura, uma das comissões mais disputadas dentro do Legislativo. Logo em seguida, também me tornei o líder da oposição, com apenas um ano e dois meses de mandato. Ter ocupado essas posições me deu, sem dúvida nenhuma, visibilidade dentro da Câmara. Além disso, me deu a oportunidade de debater os temas relacionados ao meu Estado com um pouco mais de força e conhecimento, sempre combatendo o governo com o qual nós não concordamos, que é o governo do PT. Do ponto de vista de oportunidade, este meu mandato foi fantástico. Mas, é claro, hoje ser deputado federal, com o modelo que o governo do PT instalou no país, é muito ruim. Você não consegue ver, de fato, as coisas acontecerem como deveriam. Não consegue ver os avanços. É um governo que usa muito da publicidade e pouco das ações. Virou uma coisa combativa para oposição. Acho que eu me encaixei ali. Eu nunca tinha sido oposição, mas me enquadrei neste contexto, porque não acreditava e continuo não acreditando no atual governo. Acho um governo falho, incapaz, prepotente, que governa pelo poder. Então, acredito que minha trajetória até agora tenha sido muito positiva. Sou vice-líder do PSDB; deixei a liderança da minoria; presido duas comissões muito importantes de assuntos nacionais, sendo uma delas a de Demarcação de Terras Indígenas; sou vice-presidente da PEC 2015; estou discutindo o etanol no Brasil, que é um assunto muito importante; e acabo de ser indicado para a Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. Isso tudo me colocou como uma das lideranças. DIÁRIO - Dentro dos projetos apresentados pelo senhor, qual acredita que tenha mais relevância para Mato Grosso? LEITÃO - O projeto do agente comunitário da terra é um que atendem o pequeno e o médio produtores, o assentamento e a agricultura familiar. Leva o extensionista como se fosse um similar do agente comunitário da saúde. Cada assentamento teria um morando lá, ensinando o produtor a romper os 12 meses de produção. Hoje, Mato Grosso importa quase meio bilhão de reais de hortifrutigranjeiro. Hoje, nós temos um dos maiores assentamentos do país, mas 90% do que a gente come vem de outros estados. Nós somos campeões de produção de soja, algodão, carne e milho e somos um dos piores naquilo que consumimos. Este projeto está muito avançado e vai trazer um efeito comercial e econômico muito forte para Mato Grosso, uma vez que o governo federal é obrigado a bancar este extensionista. DIÁRIO E como estão as articulações para a eleição de outubro deste ano? LEITÃO - O PSDB se reúne nos últimos dois anos e se manteve, realmente, em uma posição muito forte de oposição, principalmente nestas três últimas eleições em que saímos derrotados. Fomos derrotados, mas não sucumbimos, não nos entregamos e também não fizemos acordo para resolver a vida de um ou outro filiado. Mantemos-nos na oposição. Somos contra o atual modelo implantado pelo governo e queremos mudança. Para isso, acabamos nos juntando com outros partidos que também querem a mudança. Coincidentemente, dois partidos foram derrotados nessa eleição de 2010. São seis partidos que estão caminhando e discutindo um novo projeto para Mato Groso. Um Estado que nós desejamos, que não é aquele da peça publicitária e sim um Estado real. Então, esses partidos vêm se reunindo, conversando, e o PSDB tem um papel importante dentro deste processo, pois somos oposição aqui e em nível nacional, já que temos um pré-candidato a presidente da República, que é o senador Aécio Neves, e por ter o maior tempo de televisão de todos os partidos que estão se unindo. Então, temos um papel importante, além de ter militantes e filiados importantíssimos espalhados por todo o Estado, apesar de não sermos o maior partido base. DIÁRIO - No final do ano passado, o ex-secretário de Estado Maurício Magalhães colocou seu nome à disposição do PSDB para encabeçar uma eventual disputa ao governo do Estado. O partido ainda trabalha a possibilidade de candidatura própria? LEITÃO Existe! Até junho pode haver de tudo. Hoje o que existe encaminhado pela Executiva estadual é esta questão da união de todos os partidos da oposição que estão discutindo uma candidatura. Dentro deste grupo, quem se destaca nas pesquisas é o senador Pedro Taques (PDT). Então, naturalmente, ele acaba sendo o mais provável candidato do grupo, mas isso não distancia nem elimina uma outra alternativa. Até junho pode ocorrer muita coisa. Só se consagra o casamento quando o padre dá a bênção, mas até junho tem muito namoro, muita conversa. A construção de tudo isso é o espaço que o PSDB deseja e tem como exigência: um palanque para o nosso candidato à Presidência. O Maurício Magalhães é um filiado ilustre do partido. É respeitado, pois foi um grande secretário da Casa Civil durante o governo de Dante de Oliveira. Ele apresentou sua vontade de ser candidato já no encerramento de 2013, quando estávamos todos partindo para o descanso. Fizemos a primeira reunião este ano, ouvimos a proposta dele. Ele explanou por mais de uma hora seu desejo e argumentou as razões pela qual deseja ser candidato. A Executiva vai analisar e levar para o diretório, porque daí ficam duas propostas: uma de caminhar com um grupo ampliado de oposição ao atual governo e a outra, de ter candidatura própria e ter que conquistar os outros partidos, porque ninguém pode caminhar sozinho. Não vamos deixar de discutir nenhuma alternativa. Até, junho discutiremos tudo! DIÁRIO - Fala-se muito na possibilidade de o senhor ser candidato ao Senado ou até mesmo a vice-governador na chapa do senador Pedro Taques. O que há de verdade nisso? Já houve conversas neste sentido? LEITÃO - Tudo que se conversa hoje é especulação. Entre as possibilidades discutidas dentro de um grupo de sete partidos é natural lembrar o nome de um ou de outro exatamente porque, dentro do PSDB, sou o presidente do partido, sou o único deputado federal e acabo tendo algum destaque. Mas nunca nos sentamos para discutir este assunto, nunca houve reuniões para debater estas possibilidades. Ao contrário disso, nós estamos discutindo projetos, o que nós queremos fazer para Mato Grosso. Com relação às discussões em torno da eleição para o Senado, nós temos um candidato ao Senado natural que é o senador Jayme Campos (DEM). Respeitamos muito o seu espaço. Ele é o senador atuante hoje e terá o direito de colocar seu nome à disposição. Mas, repito: tudo isso será discutido durante todo este período. Quanto à posição de vice-governador, é uma conjuntura que vai se fechar somente lá nas convenções. Somos em sete partidos. Cada um vai colocar o que deseja e nós vamos colocar o que desejamos no momento certo, após discutirmos com nosso grupo. Por enquanto, nosso foco é construir um projeto, uma proposta para Mato Grosso. DIÁRIO - Lideranças deste grupo tentam cooptar o apoio do PR e do PP, que também têm nomes de expressão. O PR, por exemplo, tem o deputado federal Wellington Fagundes como pré-candidato ao Senado. O senhor acredita que há espaço para mais legendas no grupo com todos esses nomes apresentados? LEITÃO - Tenho colocado de forma muito clara minha posição a respeito do PR. Este grupo se uniu porque somos todos partidos de oposição ao atual governo. Sendo de oposição ao atual governo, nós temos uma opinião muito clara. Não podemos enganar o eleitor. O PR tem pessoas valorosas dentro dele, só que faz parte do atual governo, faz parte do modelo que nós não queremos. Não quero o modelo que está aí. Então, o que eu disse lá atrás e repito é que o PR precisa desembarcar do governo 100%. Se ele quer mudar, se ele quer estar, de fato, com a oposição, ele não pode concordar com o que está posto atualmente. Estando no governo, acredito que esta aliança com o PR seria uma fraude ao eleitor. Nós estamos fazendo um discurso de mudança radical, dizendo que o governo que está posto não serve e aí nos unimos a um partido que tem cinco secretarias?! Isso não é nada saudável, na minha opinião, a não ser que ele rompa. Se fizer isso, com certeza será bem-vindo. DIÁRIO Para o senhor, a possível adesão do PR ao grupo de oposição pode afastar algum partido como o próprio PSDB, por exemplo? LEITÃO - Depende da forma. Se o PR vier apoiar simplesmente, vejo problema. Mas não, se tiver rompido totalmente com o atual governo. Vou colocar esta posição para o grupo, caso isso, de fato, aconteça. O PSDB não quer participar do atual governo. Se quiséssemos, teríamos aderido a ele em outros momentos. DIÁRIO - Em entrevista ao Diário, o senador Jayme Campos (DEM) disse que o Solidariedade (SDD) chegou a procurá-lo para trabalhar uma pré-candidatura ao governo de terceira via no atual cenário. O PSDB também recebeu propostas semelhantes? LEITÃO - Isso foi especulado por várias vezes. Durante esta caminhada é normal juntarem grupos e segmentos, ou até mesmo prefeitos descontentes. Todo mundo que tem uma liderança está propenso a isso, por isso que a construção do projeto é muito importante. Eu não posso conquistar você como eleitora apenas porque sou diferente ou contrário ao que está posto atualmente. Tenho que conquistar você como eleitora pela proposta que vou fazer para meu Estado. Temos que ser diferentes e apresentar esta diferença. DIÁRIO E qual é a meta do PSDB no pleito deste ano? LEITÃO - É priorizar a construção proporcional. Temos uma boa chapa para ser bastante independente na eleição proporcional. A grande meta é tirar o governo que está aí e fazer a mudança de que Mato Grosso precisa. Nosso Estado não pode ser rico nos números apresentados no PIB e na arrecadação e tão pobre para sua população no atendimento à saúde, educação... É muita miséria diante de tanta riqueza. DIÁRIO Voltando à sua atuação na Câmara Federal, o senhor tem se empenhado bastante quanto às discussões de demarcações de áreas indígenas, chegando a propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra a Funai. Em que pé está esta situação? LEITÃO - Nós instalamos a PEC 2015, que muda o modelo das demarcações de áreas indígenas. O atual modelo é unilateral, não escuta a outra parte, expropria do produtor, principalmente do pequeno produtor, suas terras e ele fica ao relento, sem nenhum tipo de apoio. Nós avançamos bastante. A Funai hoje, que até há certo tempo era tida como intocável, está sendo denunciada. Ninguém tinha coragem de citar o nome da Funai e agora já começou a mudar isso, tanto que na semana passada foram cassados oito contratos da Funasa. Então, começou a virar verdade aquilo que a gente falava e ninguém ouvia. Quando se tratava desta questão, ninguém queria tocar neste assunto. Nós somos favoráveis às nações indígenas e chegamos a uma conclusão muito serena: existem duas vítimas neste processo, o índio e o produtor. A parte covarde está sendo o governo. DIÁRIO E o que o senhor achou da indicação de Neri Geller (PMDB) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento? LEITÃO - Excelente! Acredito que Mato Grosso tem muito a ganhar com isso. Somos oposição ao governo do Estado, mas não somos oposição ao Brasil e a Mato Grosso. O Neri vai mostrar sua capacidade. Ele é um cara simples do interior. Conheço ele em Lucas [do Rio Verde]. Com certeza absoluta, dará muitas alegrias. Pena que ele será ministro de um governo medíocre, mas com certeza fará a diferença.