POLÍCIA
Sábado, 27 de Agosto de 2011, 12h:27
A
A
RESSOCIALIZAÇÃO
Reconstruindo a vida com musicalidade
Cazuluz é a banda formada por detentos do antigo Carumbé. Intenção é formar as Borboletas, após deixarem os muros da prisão e alçar o recomeço
DAFNE SPOLTI
Da Reportagem
Agora não importa mais o crime que cometeram. Cumprirão a pena, buscando sair com equilíbrio dos muros da prisão. Os oito membros da banda Cazuluz, do Centro de Ressocialização de Cuiabá, antigo Carumbé, estão trabalhando isso com a música. O grupo cresce cada vez mais, fazendo apresentações em diversos eventos. Além disso, deve ter uma continuidade fora do Centro, quando criarem a banda Borboletas. O nome Cazuluz é inspirado na frase sobre a entrada das pessoas num presídio: Aqui quem entra minhoca sai cascavel. Ao contrário disso, os artistas querem se tornar borboletas. Estão em busca do voo, da liberdade. Outro motivo para criar a Borboletas é que existe uma dificuldade para que pessoas inexperientes consigam entrar em outro conjunto musical, o que é o caso de alguns membros da Cazuluz. A outra banda seria, então um espaço garantido e receptivo para quem tiver interesse na arte musical. A pessoa mais antiga da banda é o Ronivaldo Martins Teixeira, de 51 anos. Com um colega, que agora está livre, violão e o apoio da gerente de administração da unidade, Alvair Maria Barbosa, também idealizadora do projeto, a banda cresceu. Os instrumentos são próprios e bastante precários. Mesmo assim, o som de rock, o estilo musical preferido por eles, e outros ritmos mostram a competência do grupo. No início, a banda trabalhava apenas com músicas próprias. Porém, como toda banda em começo de carreira, os integrantes resolveram fazer cover, já que o público sempre pede para ouvir músicas mais conhecidas. Eles trabalham músicas de Legião Urbana, Blitz, Biquíni Cavadão, Cazuza, Beatles, Creedence Clearwater Revival, Rolling Stones e outros artistas. Já gravaram dois CDs, feitos artesanalmente, e também criaram camisetas com serigrafia. Mas continuam com as músicas autorais. Eles explicam que, tanto as que são compostas por eles, quanto as outras não têm uma mensagem específica, mas que muitas vezes trazem mensagens voltadas para a auto-estima e que sempre são animadas, de alto astral. O grupo não pode ser contratado para fazer apresentações, ou seja, não pode receber dinheiro para tocar. Normalmente os shows são em seminários e outros eventos públicos. Para se aprimorar cada vez mais, ensaiam (e conseguiram permissão para isso) quase todos os dias da semana. Apenas na quinta-feira, não podem treinar. Para Almir Fernando, 26, começou ali a ressocialização deles. Ele diz que um dia a família vai ver e as pessoas daqui também, se referindo à felicidade de ter o reconhecimento por um trabalho desenvolvido, ainda mais no caso das pessoas que ajudam tanto no processo, como a gerente administrativa da Unidade e outros funcionários do Centro de Ressocialização. O coordenador de Ensino Penitenciário, Valdir Roseno, conta que uma vez a banda se apresentou num curso voltado para agentes penitenciários e que isso foi muito importante, já que normalmente, as pessoas que entram nesse cargo ficam presos na visão de que devem controlar os detentos, já que sentem um certo bloqueio. Segundo ele, isso foi quebrado com a apresentação dos rapazes. Ele confessa também que ficou muito tempo sem entrar no antigo Carumbé por conta de uma situação difícil que passou no lugar, mas que agora ele vai lá com uma vontade tão boa. Para ele, o sistema mudou. Em relação a isso, a gerente Alvair diz que desde 2004 quando um novo diretor do Centro de Ressocialização implantou um sistema de trabalho, a vida lá é mais tranquila. Antes, tinha rebelião e confusão toda hora. Com as mudanças, nunca mais teve. Alvair acredita também que é muito importante o tripé trabalho/religião/estudo. Segundo Ronivaldo, a existência da banda mudou o sistema no Centro de Ressocialização e também a forma como as pessoas de fora enxergam os presidiários. Os funcionários enfatizam que lidar com a banda Cazuluz é muito bom. Eles se animam com o som e também podem ter total confiança nos integrantes. Garantem que nunca houve situação de tentativa de fuga ou algo parecido. Participam da banda atualmente, Josimar de Souza Cristóvão Pás, de 31 anos; José Ricardo dos Santos, 25; Mário Márcio de Barros Monteiro, 22; Jefferson Luiz Lima Medeiros, 26; Almir Fernando Pereira de Almeida, 26, e Fernando Bertoline, de 37 anos. A última apresentação da banda foi durante a programação da V Semana Estadual de Ressocialização realizada pela Secretaria Estadual de Direitos Humanos, entre 22 e 26 de agosto.