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MUNDO
Quinta-feira, 06 de Março de 2008, 21h:36

DIPLOMACIA

Governo espanhol deporta 20 brasileiros

O Itamaraty adverte e estuda recorrer à "reciprocidade", que significa que poderá retaliar recusando a entrada de espanhóis no Brasil

LOURIVAL SANT'ANNA
Da Agência Estado - Madri
A Espanha ignorou os apelos do governo e deportou, ontem, 20 brasileiros. O chanceler Celso Amorim emitiu uma dura nota oficial, o secretário-geral de Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, convocou o embaixador espanhol em Brasília e o embaixador do Brasil em Madri, José Viegas Filho, apresentou uma queixa na Chancelaria da Espanha. Na nota, Amorim, que estava na República Dominicana, adverte que o Brasil estuda recorrer à "reciprocidade", o que, em linguagem diplomática, significa que poderá retaliar recusando a entrada de espanhóis no Brasil. A deportação de brasileiros no aeroporto de Barajas, em Madri, aumentou 20 vezes de 2006 para cá. Naquele ano, a média de deportações de brasileiros era de 20 por mês. No ano passado, foram deportados cerca de 2.800, ou 233 por mês. Em janeiro, o número saltou para 300 e em fevereiro, para mais de 400. Só hoje (6), foram 20. O aumento é resultado de pressões que o governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero vem sofrendo do ultradireitista Partido Popular, da oposição, e da União Européia para controlar a imigração. Ao longo da campanha para as eleições gerais de domingo próximo (9), o líder da oposição, Mariano Rajoy, do Partido Popular, acusou o governo de sobrecarregar os serviços sociais - saúde, educação, seguro-desemprego, refeições para os pobres - com os estrangeiros. "Como eles têm renda menor, acabam tomando o lugar dos espanhóis", disse Rajoy no último debate, na segunda-feira (3). Seu mote: "Não cabemos." O líder direitista propõe mudanças na lei, estabelecendo a expulsão imediata de estrangeiros envolvidos em crimes, antes mesmo de seu julgamento, e a obrigação de firmar um contrato comprometendo-se a respeitar os "valores e costumes" espanhóis. A piada na Espanha é que os imigrantes terão de assistir a touradas, gostar de tortilla e dançar flamenco. Zapatero reconheceu que é necessário controlar a imigração, mas ponderou que as contribuições previdenciárias pagas pelos estrangeiros cobrem o pagamento de aposentadorias de 1 milhão de espanhóis. Nesta década, estabeleceram-se na Espanha cerca de 5 milhões de estrangeiros, em sua maioria vindos da América Latina Ninguém sabe ao certo, mas calcula-se que haja 100 mil brasileiros no país, dos quais 60% "indocumentados", conforme o jargão. Com 43 vôos semanais, a proximidade da língua e a prosperidade econômica, a Espanha se tornou uma porta de entrada de brasileiros para a Europa. Com a economia crescendo em média mais de 4% ao ano nos últimos quatro anos, o mercado de trabalho assimilou boa parte desse fluxo. "Foi muito positivo para a economia: os imigrantes representaram maior oferta de mão-de-obra e maior demanda de serviços, produtos e residências", disse à reportagem Gregório Izquierdo, diretor de análise econômica do Instituto de Estudos Econômicos, de Madri. "Foi um fator de dinamização da economia espanhola. O problema é que a Espanha agora está fechando vagas e já não tem tanta capacidade para absorver os fluxos migratórios." A partir de meados do ano passado, a economia espanhola vem sofrendo uma desaceleração, ocasionada pelo aumento dos juros pelo Banco Central Europeu e por uma crise de insolvência no mercado imobiliário, semelhante à ocorrida nos Estados Unidos O desemprego está aumentando. Os mais atingidos são justamente os imigrantes, que se dedicam a trabalhos de mais baixa qualificação, como os da construção civil. Enquanto o desemprego entre os espanhóis é de 7,95%, entre os imigrantes atinge 12,37%.

Edição EDIÇÃO 16967




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