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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 05 de Dezembro de 2009, 15h:43

LIVRO

Um registro do circo-teatro de Newton Moreno

Beth Néspoli
Agência Estado
"Acho lindo esse povo que tem nome estrangeiro. Parece filme, eles fala o nome e o ocê olha para baixo para ver a palavra vestida de português." Esse trecho, de surpreendente poesia, faz parte do diálogo da virgem solteirona Maria Caritó com sua amiga durante uma discussão sobre colocar ou não letras como y e w numa simpatia para Santo Antônio, que supostamente revelaria a primeira letra do futuro marido. É também um recorte significativo da dramaturgia de Newton Moreno, autor e diretor pernambucano, radicado em São Paulo, profundo conhecedor da cultura popular rural, de raízes fincadas no medievo. Sua maestria está em beber nessa fonte para criar peças que alcançam intensa comunicação com o público urbano e contemporâneo. Foi assim com "As Centenárias", escrita especialmente para Marieta Severo e Andréa Beltrão, que na direção de Aderbal Freire-Filho fez temporadas de imenso sucesso no Rio e em São Paulo. E tem tudo para repetir a façanha a peça "Maria do Caritó", a pedido da atriz Lilia Cabral e ainda inédita. Essas duas peças estão agora publicadas em livro, pela Editora Terceiro Nome, que foi lançado ontem, em São Paulo, no Espaço dos Fofos, sede da companhia teatral fundada por Moreno. Mais um tento desse autor, suas peças podem ser lidas como a fluência de literatura não dramática. Impossível não dar boas risadas com as desventuras de Maria Caritó, a solteirona que o pai acredita que seja santa, pois fez promessa de deixá-la casta, durante seu difícil parto, no qual teria morrido a mãe. Desesperada, hormônios em polvorosa, ela vai fazer de tudo para ‘descumprir’ a promessa, nem que para isso tenha de desagradar uma cidade inteira, a sua, que confia nos milagres advindos da pureza virginal da santinha. Caritó, explica Moreno, é um nicho onde se guarda, longe do alcance das crianças, coisas como fumo e cachimbo, entre miudezas como linha e carretel. Também designa moça sem uso, intacta. Narrativas populares sobre gente que ludibriou a morte inspiraram a criação das centenárias Socorro e Zaninha, carpideiras por função e esperteza, pois decidiram estar onde a dita cuja já passou. Vale encontrá-las pelas palavras, mesmo para quem as viu no palco.

Edição EDIÇÃO 16966




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