Embora a idade não confira o direito da sabedoria, da decência, da honestidade e outros atributos de moralidade ou moralismo ético, pelo menos ela serve como documento de prova de alguns instantes históricos ou não, do passado, da vida vivida. Não quero ser professor de Deus, muito menos aluno do diabo, mas me acho no direito de poder dizer, com todo respeito, não o que me vem à cabeça, mas o que determina a razão, sem emoção. Tudo por conta da vida vivida. E em assim sendo, não posso negar minhas incertezas diante do que vivo, sinto e vejo, diariamente, acontecer neste Brasil. Aqui em Mato Grosso. Ao meu lado, Cuiabá!. Diria minha devota vovozinha; são coisas do arco da véia. Para ela as transformações do homem e do viver eram prenúncios do fim do mundo. Dizia-me ela: meu fio, o mundo está perto de acabar. Nunca vi coisa assim. Cruz credo! Não quer destilar as minhas amarguras e revoltas, melhor dizendo, meu descontentamento social frente às injustiças diárias que vejo e sinto na pele. O coração e a consciência ficam fora da conceituação da própria justiça. Aliás, já nem sei mais o que é justiça, como se faz justiça, com que produto ela se movimenta ou decide. E ai eu volto a lembrar da minha vovozinha: se a justiça da terra falhar a do céu não falha. Mas, aí vem outra dúvida: aquele filósofo. Parece que foi Thomas Malthus. Não tenho certeza. Dizendo: aonde o homem chega Deus sai. E o homem já chegou ao céu que nós imaginamos nunca chegar. Deixa isso pra lá. Esquentar cabeça na minha idade é provocar uma síncope cardíaca. Termo velho, esse aí... Prefiro falar das minhas tias Carolina, Gaudência e as primas Jandira e marquesa Durvalina que estão em Cuiabá para uma reunião de família que vai decidir partilha da herança. Elas são espetaculares. Como as ricas e despreocupadas, só vivem rindo e gozando a vida. Outro dia foram tomar banho nu numa cachoeira de Chapada dos Guimarães. Minhas tias dizem que banho de cachoeira abaixo de dez metros de queda é bom para seios caídos e câimbra na língua. Já as primas preferem perfume de Gardênia comprado de sacoleira do Paraguai e trocar fofocas com madames tomando chá de camomila. Elas são lindas e maravilhosas. Ou então falar de campanha política. Certa feita eu acompanhava um candidato, em Várzea Grande, visitando eleitores. Entramos em determinada casa, na Capela do Pissarão. E lá tinha uma rede com uma criança recém nascida. O político para agradar os pais tentou pegar a criança nos braços, mas nem sequer tirou-a da rede. E sai dizendo que a criança era linda... Deixamos a casa, entramos no carro e seguimos para outra visita. E aí o candidato me disse: fui pegar a criança e era só merda no fundo da rede. Pára no primeiro córrego para eu lavar as mãos. E têm outras. Eu conto depois... Jê Fernandes é jornalista, radialista, poeta, cronista, conversador fiado e colabora com o DC Ilustrado (
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