ILUSTRADO
Terça-feira, 07 de Outubro de 2014, 19h:54
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AUDIOVISUAL BRASILEIRO
Um herói partido ao meio
Dos mais comentados filmes nacionais mundo afora, Praia do Futuro acaba de ser lançado em DVD/Blu-Ray
Juarez Compertino
Especial para o DC Ilustrado
Um dos cartões postais mais famosos de Fortaleza, a Praia do Futuro (Brasil, 2013) dá título e é o ponto de partida do mais recente filme do cineasta cearense Karim Aïnouz (Madame Satã, O Céu de Suely, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, O Abismo Prateado), que termina na Alemanha. No trajeto, a história sobre dois mundos, dois homens e dois relacionamentos (um amoroso, outro fraternal). Se tem uma coisa que Aïnouz não faz é um filme de meias palavras. Praia do Futuro não é diferente. Realizador marcado por distintas ascendências e migrações pessoais, o cineasta trabalha para dimensionar fatos naturais às relações como grandes etapas de transformação da vida. O salva-vidas Donato (Wagner Moura, em mais uma arrasante interpretação) não poderia imaginar que aquele salvamento iria mudar a vida dele. Eram dois rapazes que tentavam mergulhar nas águas traiçoeiras da Praia do Futuro. O afogamento era inevitável. Donato chega a tempo para ajudar, mas um deles se perde nas águas. Decepcionado com o acontecimento, Donato se considera culpado pela morte do jovem. Tentando reparar o erro, ele procura o rapaz que sobreviveu para explicar os procedimentos e comunicar a morte do amigo. Sem imaginar o que iria acontecer, ele encontra o alemão Konrad (Clemens Schick), um ex-combatente no Afeganistão em férias no Brasil. No mesmo instante, se envolvem sexualmente. Do ímpeto sexual surge a paixão. Konrad vai ficando para tentar encontrar o corpo do amigo. Não demora muito para que os dois decidam partir para Berlim. Donato deixa para trás a família, o irmão pequeno que o tem como herói e a profissão. Já na Alemanha, vivendo junto com Konrad, o brasileiro tenta adaptar-se àquele país tão diferente, cinzento e de temperaturas baixas. Para Donato pesa a distância da terra solar, do mar, da família, danos que não consegue reverter sem abdicar do companheiro. Os dois estão mudados. Se no início do relacionamento era Konrad que dominava sexualmente, agora é ele que é dominado. Nas cenas de sexo entre os dois, não se nota amor. A poesia aqui é de outra ordem os atores se desnudam com coragem e se vestem da espontaneidade necessária para tornar o filme uma rara evocação do amor. Oito anos se passam e Ayrton (Jesuita Barbosa), um dia admirador e agora adulto e revoltado, vai até a Alemanha para cobrar do irmão explicações pela súbita decisão de tê-lo abandonado no Brasil. No embate entre irmãos há muito a ser dito com rispidez e mais a ser subentendido, num esforço de contenção neste encontro se dará uma das mais belas e única cena de confronto, porque física, acima do tom de sutileza e melancolia que comanda a trajetória dos protagonistas. É nesse momento que começa um novo conflito para Donato, que se depara com a realidade de que se afastou há tanto tempo. Não há mulheres no filme. Por meio desses três homens, Aïnouz discute a masculinidade nos dias de hoje, utilizando-se de signos bastantes masculinos, como motocicletas e super-heróis, para questionar o papel do homem, ou o lugar que o homem ocupa culturalmente, que é o da invulnerabilidade, de força, de presença, de ocupação, mostrando a vulnerabilidade de super-heróis que tem medo e é covarde. E também de questões relevantes como a questão do abandono e a possibilidade de começar de novo, que a relação amorosa entre dois homens é uma relação amorosa entre dois seres humanos, cheia de problemas. O corpo ganha destaque com força total. Não é exatamente um filme de ação porque é um drama. Mas, nada de psicológico, é um filme físico. Cada cena tem uma sensação dominante. Dividido em três capítulos, a narrativa usa elipses e silêncios, promovendo grandes saltos no tempo, e deixa lacunas que devem ser preenchidas pelo espectador. Muitas vezes a trilha sonora é usada no lugar das palavras, como na grande, emocionante e derradeira sequência final embalada pela canção Heroes, de David Bowie. Belo e vigoroso, Praia do Futuro é o destaque nos lançamentos do mês no mercado do home-vídeo. Assista.