ILUSTRADO
Terça-feira, 10 de Março de 2009, 19h:37
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DVDs
Um esplêndido e marcante filme autoral
Medos Privados de Lugares Públicos, de Alain Resnais; o filme brasileiro Falsa Loura, de Reichenbach; e o suspense O Traidor são os títulos na berlinda nesta edição
Juarez Compertino
Especial para o Diário de Cuiabá
Dos mais experientes e talentosos, o francês Alain Resnais (Hiroshima, Meu Amor, Meu Tio da América, Amores Parisienses), que acaba de completar 60 anos de carreira, faz parte daquela casta privilegiada de cineastas que parecem realizar sempre o mesmo filme, com atores já afinados com suas necessidades, e surpreende a cada produção com originalidade e brilhantismo assim como o americano Woody Allen, por exemplo. Em Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs/Private Fears in Public Places, França, 2007/Imagem), que lhe rendeu o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza, Resnais, mais uma vez, explora um tema caro à sua filmografia: a solidão. O título inspiradíssimo vem da peça teatral homônima do inglês Alan Ayckbourn e sintetiza a vocação de pessoas com uma coisa em comum: o desejo de encontrarem uma alma gêmea. De tom um tanto burlesco, o roteiro acompanha a vida de seis personagens solitários em busca do amor numa Paris permanentemente sob a neve. Charlotte (Sabine Azéma) divide-se entre uma forte crença religiosa e um uso nada católico para sua lingerie. Seu companheiro de trabalho, Thierry (André Dussolier) encanta-se por ela, mas tem no encalço a irmã mais nova, Gäelle (Isabelle Carré) uma moralista de fachada. O casal Nicole e Dan (Laura Morante e Lambert Wilson), ele, militar desempregado, vive uma crise conjugal. E há o melancólico barman Lionel (Pierre Arditi), atado a um pai doente e grosseirão, separados fisicamente, mas não em pensamento, todos revelarão seus medos e frustrações de uma forma particular mas que pouco diferenciam dos demais com quem eles se relacionam. Muitas vezes, as pessoas podem ser realmente bem parecidas e isso, talvez, possa aproximá-las fisicamente. Talvez! Os personagens não poderiam ser mais reais neste cenário pouco realista (uma Paris sem referencial de cartão-postal), não deixando dúvida que a solidão existe em qualquer outra grande metrópole de qualquer outro lugar do mundo. Com a sua forma poética e nem sempre de fácil digestão, o diretor conta a historia com a sua habitual elegância, de movimentos de câmera fluídos e montagem suave. Detalhe: o lançamento em disco digital não tirou Medo Privado em Lugares Públicos de cartaz dos cinemas de arte de São Paulo onde está em exibição há mais de um ano.