Ainda que a mídia nacional proclame a morte do CD na forma tradicional. Ainda que o mercado fonográfico mundial dê sinais de uma possível regressão comercial. Tem gente que está igual o finado Cazuza: nadando contra a corrente só pra exercitar todo músculo que sente. Esse é o caso de Marcelo Birck que lançou o álbum cujo título figura como cabeçalho de nossa resenha de hoje. O carinha é ex-integrante da banda Graforréia Xilarmônica que se apresentou no Festival Calango do ano passado. Agora, o inquieto gaúcho de 42 anos, está curtindo umas de carreira solo. Até foi fazer um mestrado na Federal de Goiás sobre o tema do algoritmo musical. Uma viagem do tipo: especulações sobre o aspecto psicológico da percepção de tempo e suas relações com o timbre, isto segundo o próprio Birck. O CD tem 46 minutos de muito experimentalismo musical. Não estou pejorando nada. O fato é que o registro apresenta-se como um imenso laboratório de sensações musicais empíricas. É um trabalho que não deve ser ouvido uma única vez. Pelo contrário, precisa-se de tempo para assimilar toda a criatividade stravinskyana do garoto. Lógico que o mote principal de inspiração é a Jovem Guarda. Se bem que esse rótulo, o Marcelo já rejeitou, pois afirma que não trabalha com estilos específicos. Em suas 15 faixas está indisfarçável a presença da bateria roqueira anos 60. As melodias vão rolando com sabor iê, iê, iê. Aliás, esse é o título da terceira faixa. De repente! Baixa a pomba-gira e a canção descamba como se estivéssemos procurando sintonizar uma estação de rádio. Sem conseguir, fica-se brincando com o dial. É a denominada Programação de Bases, isto é, ajustes de sintetizadores contendo múltiplas adequações, efeitos rítmicos, ruídos eletrônicos, fragmentos de outras melodias. O computador parece um co-autor. Tudo bem, nada contra. Caramba! Tomei um susto quando comecei ouvir. Achei que meu aparelho de som tava loco. O comecinho do CD é bem convencional assim, tipo baladinha. Canção de festival universitário. A coisa vai pirando no decorrer do percurso. Tem piano percurtido nas cordas com baqueta de tímpano no contra-tempo da obra. Os temas melódicos numa fração de segundo desdobram-se como música dodecafônica, alá o compositor Schoemberg. A 4.ª música, Em Amplitude Modulada, esta sim, me lembrou Frank Zappa. Não é plágio. Nada a ver. A idéia é como se fosse um quebra-cabeças que o Birck pegou 3 ou 4 peças na forma de compassos do original e ficou se divertindo com seus brothers. Alexandre Birck na guitarra, Pedro Porto no baixo, Bruno Alcalde na guitarra base. Bicho, tem tanta gente nesse CD que a música Fluidez Borbulhante vem com direito a duas baterias. Rola fagote super-eloqüente, sax, loucuragem geral. Marcelo Birck canta faixas em inglês, português e até francês. Numa dessas, ele poetisa desafiando: Desafinarei o que houver pra desafinar. É forte isso! Essas coisas de liberdades poéticas que, afinal são praticadas. O CD tá meio na linha Música Nova do roquenrou e teve realização da Grenal Records. Neo-Psicodelismos à parte, o trabalho é recomendável para quem, uma hora dessas, quer sair de si mesmo. SERVIÇO: O QUE É: CD Timbres não mentem jamais AUTOR: Marcelo Birck ONDE: http://marcelobirck.blogspot.com/ *Ney Arruda é professor universitário, doutorando pela Universidad de Burgos (Espanha), advogado e violinista cuiabano, (
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