Quando jovem havia um rapaz filho do vizinho que mantinha uma academia de boxe. Parece que foi do exército e quando deixou a farda não conseguiu se libertar do vício ao corpo. Na casa dele todos eram troncudos igual pilão de socar sebo. Esse menino era muito lá da casa onde eu morava. Logo afiançou amizade a minha pessoa. Curtia ele. Tinha a cabeça grande parecendo chapéu de sobrado. Falava com forte sotaque nordestino. Muito engraçado. Mas super maldoso. Cultuava uma habilidade incrível para judiar da galera. Como era muito forte. O pai deve tê-lo criado na safadeza do rela bucho. Não perdia tempo para aloitar com o povo. Chamava o povo para a briga mesmo. Era difícil encontrar alguém ali das imediações da bacia Rodrigo de Freitas. Até onde atualmente é o calçadão que não tinha abraçado com ele no meio daquele areial. Com tempo percebi que não se sentia mais satisfeito em briquitar com o povo da mesma idade. Estava tentando ampliar os horizontes. Passou a provocar os adultos. Quando a pessoa era centrada. Ignorava totalmente as provocações e seguia adiante. Extremamente teimoso. Adorava se exibir e demonstrar a força. Os músculos eram a sua maior âncora. Vivia se metendo em cada situação ridícula devido a isso. Certa vez entendeu de erguer a traseira do Jeep. A coisa não funcionou legal e se machucou geral. Todos aproveitaram para sorrir da cara dele. Todo esculhambado ainda tentou entrar numa com a galera. O povo que vivia demasiadamente até na tampa com ele. Decidiu aproveitar a situação e lhe dar um corretivo coletivo. Tive que utilizar a influência da paz e intervir. Levei o ferido embora ainda tendo que ouvi-lo lamentar da interferência. Segundo ele, não deveria interferir. Aquela seria a oportunidade dele dar um cacete movido a querosene na galera. Ia surrar o povo no atacado. Naquele dia percebi que o excesso de confiança não é boa coisa. O rapaz estava mais quebrado que arroz de terceira. O pulso todo retorcido. Inchado igual mocotó de boi de carro. O povo irado para enchê-lo de felicidade. Havia um daqueles mais desnutridos. Que morria de medo dele. Mas, quando o viu naquela situação. Todo contundido e fora de forma. O caboclo sapateava e esperneava igual cabrito tarado. A verdade que só consegui realmente retirá-lo em pedaços dali. Devido a minha influência que sempre foi grande junto a galera. O fato de não fazer coisa que não deve. Era tranquilo. Acomodado. Todos se davam muito bem comigo. Também curtia eles. Para cada ação há uma reação. Pois, esse menino quando levantou da enfermaria. Aliás, ainda estava com o braço na tipóia. Já vivia dando pontapé na rapaziada. Daquele povo que estava presente na embolada não sobrou um. Isso me envergonhou num tanto que afastei. Tanto de um como do outro. A maioria das vezes os muros servem apenas para encerrar as teorias torpes. Por ignorar o tamanho da verdade. É possível alimentar erros gravíssimos com boas ações. Após esse episódio percebi o tamanho da estupidez que vinha daquele menino. A truculência expandiu. Atraindo outros ritmos de vida. Começou a andar juntos com outros meninos nervosos. Formando um cartel de brigas. Que ao final vieram a se culminar em dois assassinatos. Sendo ele uma das vítimas. Viveu apenas dezessete anos. A vida possui uma fragilidade imensa. Causam espanto pequenas alterações que se transformam em absurdos. Pior é que não há um remendo confiável. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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