ILUSTRADO
Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015, 19h:44
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TELEVISÃO
Sobral Pinto, agora no Netflix
JOÃO BOSQUO*
Da Reportagem
A primeira vez que vi o filme Sobral O Homem que Não Tinha Preço foi ano final de 2013, numa sessão em uma das salas do Cinemais Pantanal, promoção de uma turma de advogados da OAB, agora pela segunda vez, na tela do computador, pelo Netflix (está enterrando a TV aberta). O filme, uma produção familiar, mas - ou por isso mesmo - uma obra belíssima falando de um homem extraordinário que foi Heráclito Fontoura Sobral Pinto. O filme chegou em vários momentos me emocionar. As pessoas, acredito, à medida que o tempo passa ficam mais emotivas, até com filmes que documentam a vida de outras pessoas que - sem dúvida nenhuma - servem de exemplo para as nossas vidas: profissional, cidadã e familiar. No campo profissional, ético-profissional, que falem os profissionais, não apenas do campo do Direito, mas também os médicos, pela área médica, assim como os professores (ou educadores, como preferem ser chamados, hoje), e a longa classe dos jornalistas, que muitos - como tantos dessas áreas citadas-, vêm promovendo um desserviço contra a cidadania, a ética, honradez e o amor pela pátria. Sobral Pinto ficou conhecido nacionalmente, até fora do país, como o defensor de presos políticos, durante os períodos mais duros, de trevas das ditaduras de Vargas e do movimento de 1º de Abril de 1964, como vem sendo providencialmente registrado pela nova história - esse é o foco do filme, muito bem conduzido pela neta-diretora, Paula Fiuza. O filme, mais que um documentário, é uma homenagem à memória do avô-mítico, Sobral Pinto. Sente-se a ausência de uma porção de coisa: nome da escola, da faculdade, o primeiro emprego, o que se vê no filme é Sobral Pinto, das Diretas-Já retrocedo até o Estado Novo. Faltou um pouco mais do Heráclito, como a esposa o chamava em casa. Essa parte do filme, que fala de nossas fraquezas, enquanto seres humanos, é que - como me vejo hoje - foi a parte mais importante do filme. Enquanto reveladora da luta do ser humano, para não cair perante seus princípios internos. Sobral Pinto foi exemplar. Ele teve um caso ou, como diríamos hoje, "ficou" com uma mulher um dia, uma noite, e isso despertou quase de forma instantânea o arrependimento, pois como católico estava traindo um dos mais sagrados sacramentos da igreja ao qual pertencia. Por conta dessa traição pediu exoneração ao cargo que ocupava no governo equivalente ao de promotor público, pois se achava desqualificado para apontar os erros de outras pessoas. Hoje o que ouvimos é "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa", e por conta dessas regalias morais vemos o público se misturar com o privado e vice-versa e hipocritamente ficamos escandalizados porque não somos nós os protagonistas, mas ELES. Esse debate, acredito, precisamos fazer: devemos ser honestos público e privado?, ou não tem nada a ver. Posso ser um honesto líder comunitário, vereador, deputado que luta pelo povo e desonesto com minha esposa, mas essa desonestidade não interfere na minha ação pública. Ou, como profissional na área de comunicação, posso ser usuário de entorpecentes - no privado - e de público escrever colunas atacando este ou aquele político porque toma umas cachacinhas à mais do socialmente aceitável. Vamos voltar ao filme: Sobral Pinto, o homem, confessou que a consciência o acusava, por isso não avançava além das barreiras que a doutrina cristã impunha. Essa parte do filme, achei interessante e fiquei comovido com o depoimento da filha, que diante dessa fraqueza do pai, revelada pelas páginas do jornal, ela pode vê-lo mais como ser humano, não como mito. Agora temos o exemplo de Eduardo Cunha, entre outros, que são acusados na cara de receber propina, no entanto recusam se afastar do cargo, para atacar, revidar os supostos inimigos que deixaram vir a público suas mazelas de corrupto e corruptor. Não vou aqui debater as qualidades cinematográficas, deixou para outros. Mas não posso deixar de registrar, o que muito me espantou. Foi descobrir que Guilherme Fiuza é neto de Sobral Pinto. Já sabia, mas está comprovado, que inteligência e sobriedade intelectual, não são hereditários. Para saber o que estou dizendo leia um dos artigos desse jovem na revista Época. Sem querer julgar, mas julgando. Desculpe. * João Bosquo, poeta e jornalista, autor de Abaixo-Assinado (1977), em parceria com Luiz Edson Fachin, e Sonho de Menino é Piraputanga no Anzol (2006). Mantém blogue poético www.joaobosquo.blogspot.com.br