Bem alojado na rede e lambendo o silêncio da paz, nem vi o tempo velho burrifar as horas vagas das curvas do dia. Entretido na risada da rede que prenchia o recorte da sinfonia preguiçosa. Já era noite e o sertão pulava em festa. Pelotas de vento soprava um cheiro de mato molhado fustigando o mormaço. A chuva fina lubrinava as folhas numa preguiça de dar pena. A noite pantaneira tem a cor do pecado. Dá uma coceira danada no sangue do vivente que chega latejar os sentidos. Destampa o peito numa coragem febril e oferece o castigo da sedução. Nem as estrelas me merecem numa noite que só respira prazer. Até o céu se esconde numa vergonha danada. É a noite perfeita para o pecado da carne. A noite do acasalamento. Apenas breves sombras se movimentam em direção ao norte. Um apelo dos sentidos. Parece que o tempo é o ouvido e a escuridão a visão. Tudo perambula num tesão estonteante. Uma sensação pulsante que espreita os sentimentos e provoca uma nostalgia de fatos inéditos. As paixões se misturam e uma vontade de presença de mulher cresce gradativamente. Uma ansiedade de viver um momento inesquecível. O vento passa rasante e deixa a mata sorrindo. Uma gargalhada que encoa em versos pela planície. Dando eco a toda emoção. Bolinando o cio da solidão. A noite faz do peito angustiado o seu brinquedo. Desanda a imaginação. Me leva a bailar contigo embaixo da frondosa mangueira do quintal pelado de intenções. Apenas coberto com a carapuça de palhaço sedutor. Na vida bandida que escolhi as sensações se consagram cada vez mais forte. É noite de homem parido em paixão. A coruja rumina os agouros numa infelicidade sem fim no pilar da porteira. Parafraseando os tormentos. Sucubindo os momentos numa eternidade centrífuga. A mangueira deixa cair no telhado as lágrimas acumuladas durante a poeira da chuva de molhar bobo. O barulho acalenta a alma e refresca o juízo. A noite pantaneira tem lá seus métodos de brincar com alguns sentimentos enganchados na solapa do peito. Detalhe que arranca suspiro de defunto de três dias. É uma noite de pêlos no ar. Uma pista sombria de busca inquieta. Uma corrida frenética atrás da fêmea em cio. Uma noite para cheirar o cangote de uma dona provocante. Enquanto a rede gemia me lembrei que a noite é uma criança. Num pinote do juízo levantei e parti! Fui perseguir o cheiro de fêmea fugida e não me lembro de ter regressado. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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