Ao colocar o pé na estrada, o caminhante solitário não imagina que é o artista de uma obra inacabada. Que a discreta obra irá figurar numa galeria excêntrica de admiradores. Alguns ganharão atenção e destaque. Os passos apenas seguem semeando rastros por onde passam. Alguns se transformam em marcas e permanecem impermeáveis a espera da eternidade. Nunca se sabe até onde um simples rastro pode ir. Alguns além dos passos. Um retrato que escapou do pé calejado e alojou na vitrine da fama. Rastros mais marcantes que os pés. O caminhante e as ideias passam. Mas os rastros ficam. Permanecem como ídolos para os admiradores. O caminhante segue. Há muito para caminhar. A vida não dá trégua e a cada minuto surgem estradas a descobrir. Caminhos a seguir. Os rastros ficam. Destinos são lugares que necessitam serem fecundados pelos rastros. Semeando passos lá se vai o caminhante. Deixando a marca de quem segue adiante. Plantando lentamente um passo de cada vez. Em meio as tempestades enfrentando as poças escorregadias. Escrevendo os percalços naturalmente. Mesmo diante das intempéries os passos demonstram interesse em seguir firme. Porque caminhos são para caminhar. Transportam sonhos e esperança. Quanto mais longo melhor a caminhada. A distância é um pequeno detalhe. O charme é os obstáculos a serem vencidos. Caminhos levam à liberdade. Um paraíso que se destampa em novidades. A distância permite que mais passos possam ser semeados e mais rastros eternizados. A vida se esconde em um balaio de passos bem sucedidos e rastros admirados. Quanto mais lágrimas são debulhadas nos rastros, mais limpos estarão os pés. Ninguém chora em cima de rastros ruins. Os rastros que não marcam a passagem do caminhante são varridos pela rajada de vento da calada da manhã. Dando a oportunidade para que outros rastros preencham o lugar vazio. Os rastros são as marcas de quem passou e fez o que deveria ser feito: caminhar. Mas o tempo e o espaço decidem acreditar que esses passos devem permanecer inesquecível. São como as distâncias, que trazem e levam um sonho de cada vez. Elas existem para dar trégua ao tédio e ânimo ao viajor. Para viver é preciso apenas uma vida. Para sorrir é preciso muitos passos e distâncias. Desafios que levam o caminhante rumo aos sonhos onde é possível encontrar a liberdade. Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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