ILUSTRADO
Segunda-feira, 08 de Setembro de 2008, 19h:52
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LITERATURA
Obra de Oz conquista cineastas brasileiros
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
As primeiras páginas de "Rimas da Vida e da Morte", de Amós Oz, são talvez mais reveladoras do que talvez desejasse o autor israelense. Por vezes é possível imaginar o escritor descrito por ele com uma expressão emprestada do próprio rosto do autor israelense, perdido em busca de material para sua história. Quem o viu na Flip, no ano passado, lembra dos olhares furtivos dirigidos por Oz às moças bonitas de Paraty, da evidente alegria compartilhada com as crianças da cidade e do enfado com que encarou uma batelada de entrevistas. O livro, indiretamente, acaba fornecendo respostas definitivas às perguntas mais freqüentes que os jornalistas fazem a Oz: Por que você só descreve o lado negativo das coisas? Suas histórias são autobiográficas? Quem foram suas influências? Imagine-se no lugar do escritor, respondendo sobre o que pensa sua mulher a respeito da figuras femininas de seus livros. Só teria mesmo uma saída: escapar com respostas "espertas", "evasivas". Respostas simples e diretas não existem, diz Oz. Pronto: o leitor já foi alertado pelo próprio autor. "Rimas da Vida e da Morte" é um compêndio de respostas "evasivas" para questões existenciais como sexo sem amor e literatura como arma recurso contra a impotência diante da morte Como Oz é um romancista, não um ensaísta, deu respostas a questões triviais por meio de um original estratagema: fez seu personagem imaginar como seria a vida dos personagens presentes num sarau literário - e, antes, num café a poucos metros do centro comunitário onde começa a história. Desse modo, o narrador do livro não é Oz, mas um anônimo que passa por um processo mimético a cada personagem que descreve, seja a garçonete Riki apaixonada por um goleiro ou o dono um de um velho Buick azul que ganhou meio milhão na loto e está morrendo de câncer. A ironia de Oz já começa na descrição do gorducho "tarbutnik" (intraduzível, algo assim como animador cultural) apresentando com um chiste o escritor à platéia, ao citar o esquecido poeta (inventado por Oz) Tsefania Beit-Halachmi, autor do livro "Rimas da Vida e da Morte". Halachmi foi um mau poeta. Pode estar morto, pode estar vivo, mas isso não faz a menor diferença quando o "tarbutnik" cita um de seus poemas: "Ein kalá bli chatan, veein massá bli matan" ("Não há noiva sem seu par, e não há receber sem dar"). E escrever sobre sexo em hebraico pode ser algo muito complicado, particularmente para o autor de "A Caixa Preta", um livro polêmico que a cineasta brasileira Monique Gardenberg deve começar a filmar no próximo ano com elenco internacional. Nele, um casal separado troca farpas por meio de cartas cada vez mais agressivas. A caixa preta" que revela o desastre desse relacionamento faz vir à tona, entre outras coisas, os casos extraconjugais da mulher com o ex-motorista do marido no Exército. Além disso, há o filho do casal, o violento Boaz, com muito passado e pouco futuro. Sobram críticas ao fanatismo, tanto político como religioso, que atiça o ódio contra o antípoda, um dos motivos que levaram a diretora do sucesso "Ó Pai, Ó" a escolher o romance. "A gente vive um momento em que o fanatismo tem provocado tantas tragédias que talvez o que esteja faltando ao mundo não seja tanto o amor e a religião, mas o respeito ao próximo, como disse Saramago", diz Monique. Ainda sem nada definido sobre o futuro filme, o diretor Cao Hamburger ("O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias") confirma estar negociando os direitos para adaptar "De Repente nas Profundezas do Bosque", acima de tudo uma fábula moral sobre o outro lado de uma história mal contada. Aparentemente, trata-se de um livro para crianças, sobre uma aldeia onde não mais existe nenhum animal, que proíbe a simples menção dos nomes dos bichos extintos. Nele, duas crianças, um menino e uma menina, decidem confrontar as autoridades locais penetrando no bosque interdito, parábola que pode ou não ter uma interpretação política, considerando a decisão da ONU de criar há 61 anos dois territórios, um judeu e um palestino. Oz diz que tenta, desde então, criar personagens em que se veja refletido, não com intenção de reproduzir uma cultura, mas para entender o "outro". O protagonista, de fato, faz parte da histórias dos demais personagens. Na pele de Charlie, o goleiro que se torna empresário, passa a "sentir"a morte do moribundo Ovadia Hazam, após constatar, envergonhado, estar feliz por ser o "outro", e não ele, que logo irá embora deste mundo. Se o leitor perceber que Oz trata da urgência de reconhecer a alteridade, diz, ele já se dará por satisfeito. Quanto ao Nobel, se vier, ele não pretende recusar o prêmio. "Em todo o caso, não tenho ambição de ganhar, pois escrevo por compulsão, não para ser premiado".