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Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 30 de Junho de 2012, 15h:16

CRÔNICAS

O quarto do filho

Nesta edição, um conto de Juliana premiado em concurso literário de Ponta Grossa (PR), além das crônicas de Valéria Del Cueto e Luís Gonçalves

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Foram duas mil vezes em que ficou desesperada, achando que tudo não passaria. A dor no peito, sempre a dor no peito. O teto do quarto branco, ainda com estrelas fluorescentes, lembravam a adolescência perdida. Essa coisa de número exato das quantas mil vezes chorou, tremeu, sofreu e temeu morrer subitamente, não existia. Na verdade, chutava um número olhando o teto, deitada na cama. O quarto é grande. Muito grande só pra ela e pequeno pra tudo que nela está. Estuda mais do que pode, mais do que acredita. A única coisa que faz esquecer tudo é estudar. Passa a dor no peito, essa queimação. Estuda até saber que não vai acontecer nada. A casa é grande demais. Talvez, se mudassem, fossem para uma casa menor, com dois quartos apenas, um pra ela, outro para os pais. Assim, quem sabe, acabaria com os dias intermináveis em que a mãe arruma o quarto do filho que já morreu. Um dia também, quem sabe, isso há de acabar. Não dá pra não escutar o gemido do choro, o soluço, os gritos. Em sendo mulher, poderá ser mãe, um dia, e tentar entender essa coisa da metade desgarrada de dentro do peito. O irmão morreu jovem, muito jovem. Às vezes, dava medo de que iria esquecer a fisionomia dele. O sorriso, ou dava medo pensar que eles realmente não iriam mais se encontrar. Outras horas dava raiva, muita raiva. Ele nunca iria saber o que é escutar a mãe gritando, quando insiste em arrumar a cama, em arrumar o armário, em arrumar os livros, em ler os bilhetes dele, dele que já não estava mais ali. Raiva de pensar que agora, por uma obrigação qualquer, iria ter de ser feliz. Dar alegria para os pais. Todos os sonhos passaram a ser ameaçadores, os problemas maiores do que realmente eram. E ela, insignificante filha, segunda filha, filha caçula. Filha que não morreu e tinha, todas as quartas-feiras, que escutar as dores da mãe. Parece que mães parem várias vezes na vida ou pelo menos que a dor do parto retroage umas tantas. Naquela hora já deveria estar na faculdade. Mas esperaria, esperaria a mãe terminar e depois ficaria em dúvida de que olhar dar a ela. Pena - força - melancolia. Olhar nenhum, não olhar na cara dela e sair dizendo que está atrasada para a aula, que come no caminho, que está bem, que tudo está sempre bem com ela. Um dia, quem sabe, iria explodir. Agora a mãe terminava, levantava do chão, ao lado da cama, dava uma última olhada para o quarto pronto, pronto para um filho que não vai voltar. Saia ainda gemendo e sentava na sala, descabelada, com o mesmo roupão. Iria sentar no canto do sofá, ficaria olhando para lugar nenhum. Nem perceberia a filha, estupidamente viva, passando pela sala. Quase mecanicamente perguntaria se ela comeu alguma coisa, bebeu, se estava bem, que horas voltaria. A filha, sem querer, olhou. Com pena, não da mãe jogada num canto do sofá da sala de estar, mas da filha viva. O certo é que o mais cansativo era ter de ser essa filha perfeita, educada, chorar trancada no banheiro, no quarto, em silêncio para não perturbar ninguém. Chegar à aula e sentar no meio da sala. Ficar prestando atenção como se nada tivesse acontecido. Ser assim, morna. Deixar para o lado, o fogo ardendo dentro do peito, as vontades de ir embora. Não deveria fazer bem para o corpo sentir-se assim. Já faz anos da morte, mas parece que foi ontem. Ontem, o telefonema. Ontem, o susto. O frio e ela correndo na rua, já noite, voltando da escola. A mãe rindo, quem sabe o último sorriso daquela forma, a janta simples e o telefonema. O telefonema e ela, filha, teve que envelhecer quantos anos foram necessários. E ela cresceu, em segundos ou minutos, o tempo que lhe valeria a vida inteira. O telefonema e nunca mais conseguiu lembrar o que conversava com a mãe, porque ela ria, porque a mãe ria. O telefonema e a primeira noite totalmente em claro e o desespero da mãe. Um dia essa filha iria colocar esse sentimento para fora. Não no outro dia. O corpo estava na funerária. Que roupa colocar, qualquer uma. Foi com a tia no carro, irmã da mãe. A tia pediu, atenciosa, fica ao lado da sua mãe, cuida dela, ela vai precisar da sua força agora. Uma sala pintada de azul, umas velas, umas coroas de flores e um caixão no meio. A mãe, a mesma mãe que tantas vezes cuidou do seu sono, a mesma que era pra onde correr quando estivesse com medo, a mesma que foi utilizada como ameaça para o irmão, não faz isso ou eu vou contar pra mamãe, estava chorando ao lado do caixão com algumas pessoas em volta. A filha sentou em um canto, deu um frio, começou a tremer, começou a chorar sem querer. Quem será teria inventado velórios? A filha nunca soube se chorou por falta do irmão ou por conta do filho da mãe que morreu.

Edição EDIÇÃO 16967




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