ILUSTRADO
Sexta-feira, 27 de Junho de 2014, 20h:29
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KAFKA
O mundo atual e a falta de comunicação
Junho marca 90 anos da morte de um dos melhores escritores de todo tempo. Republicamos texto sobre seu mais famoso livro
*Jacir Alfonso Zanatta
Da Reportagem
Um livro capaz de nos tirar o chão. A Metamorfose (Companhia das Letras) de Franz Kafka é sem dúvida nenhuma a mais célebre novela do autor, escrita quando tinha 29 anos. Tido por muitos como pessimista, Kafka é um escritor de primeira grandeza e muitas vezes mais incompreendido do que realmente lido. Nesta obra, o caixeiro viajante Gregor Samsa vai aos poucos perdendo sua capacidade de se comunicar com os seus e acaba por se metamorfosear num inseto. Como não consegue mais exercer comunicação com sua família, vai entrando numa espiral silenciosa até que se fecha no seu próprio mundo sem que ninguém nele consiga entrar e ele não consiga sair. O mundo dito pós-moderno é marcado pela falta de comunicação humana, falta de entendimento entre as pessoas e, por que não dizer?, falta de diálogo. Aquilo que deveria ser o elo entre os seres acaba por se tornar um peso e a comunicação acaba gerando incomunicação. Um olhar rápido sobre o comportamento das pessoas é possível perceber que o ser humano atualmente se atura, mas cada um vive enclausurado em seu próprio mundo. Toda a parafernália tecnológica criada para facilitar a comunicação contribui para que cada um permaneça dentro da própria redoma, criando uma falsa ideia de participação e de comunhão. O livro A metamorfose é um alerta para a falta de diálogo entre as famílias. As pessoas vão se suportando, vivendo, mas na verdade não são capazes de se entenderem. Esta quem sabe seja a grande lição desta obra. Literatura sim, pessimismo não. É um realismo que as pessoas não estão preparadas para aceitar. Também é possível perceber que todos os mecanismos criados para auxiliar na comunicação são, em geral, consolos ou justificativas para aqueles que vivem numa sociedade em que ninguém se comunica de fato e se satisfazem com mecanismos ilusórios. Assim, Gregor não morre porque é um inseto, mas porque, metamorfoseado em barata, já não há comunicação possível entre sua família e ele. E todos os mecanismos criados para que possam se comunicar acabam gerando a total incompreensão e ao afastamento gradativo que vai levá-lo à morte. A comunicação aqui exposta é compreendida como relação privilegiada de consciências humanas. Consciência que Gregor está perdendo. Mas não é Gregor que está perdendo a capacidade de se comunicar, são os membros de sua família que não conseguem mais vê-lo como antes e assim não se compreendem. Percebe-se aqui que a agonia de Gregor se dá por ele não poder transmitir mais nada à sua família, pois agora é uma barata. Assim, a partilha dos sentimentos, das ideias, a comunicação das consciências pelo olhar, pelo amor, a comunicação entre espíritos foi quebrada e ele não consegue mais resgatar essa partilha. Uma obra que mostra que a preocupação de Gregor era apenas fazer tudo para a família esquecer o mais rapidamente possível a desgraça comercial, que havia levado todos a um estado de completa desesperança. Uma reflexão um pouco mais aguçada permite até afirmar que a desesperança é a palavra chave deste livro. Um enredo frio onde a falta de esperança no ser humano leva ao total abandono e ao isolamento. O personagem principal do livro representa a humanidade se debatendo, na tentativa de se fazer entender. Mas revela a agonia daqueles que, isolados, chegam à constatação de que ninguém compreende ninguém e que a vida nada mais é que um emaranhado de afirmações sem sentido, sem compreensão e sem valor. Quem sabe seja por isso que, ao me ver com o livro nas mãos, alguns colegas professores indagaram surpresos: Nossa! Você está mal. No corre-corre do final de ano não é época para se ler Kafka. Mas existe uma época para ler Kafka? É como se fosse uma maldição. Um autor para não ser lido. E que sentido teria ler Kafka na época ideal de se ler Kafka? Mas qual é essa época mesmo? Deveria ter perguntado. Não saberiam me responder. Não entenderam Kafka. Defendo que esta é a época de ler Kafka. Momento de refletir sobre a vida, sobre a forma como as pessoas se comunicam e, acima de tudo, sobre como os seres humanos enfrentam as barreiras comunicacionais que vão sendo criadas no dia-a-dia. Sim, nesta época, Kafka pode significar um alerta para que consigamos acordar, assim como Gregor, de sonhos intranquilos e perceber, enquanto ainda temos tempo, que estamos nos metamorfoseando em seres incapazes de se comunicar uns com os outros. Incapazes de fazer alguma coisa para mudar esta realidade. Adormecidos e sonhando... ou sonhando adormecidos... *Jacir Alfonso Zanatta é psicólogo, jornalista e professor.