NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Quarta-feira, 09 de Dezembro de 2015, 20h:46

MÚSICA

O ideário cultural de dois violeiros caipiras

Nesta nova passagem por Cuiabá, João Ormond e Paulo Simões festejam a saga e a arte da viola

BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
A viola caipira é um instrumento antigo, chega a ser folclórico, que já passou por várias fases no cenário da música popular brasileira e é motivo do encontro entre os músicos João Ormond e Paulo Simões que, em um breve bate-papo , conversaram com o caderno Ilustrado do Diário de Cuiabá sobre sua arte e suas aspirações. Juntos, também com a viola de cocho do músico e professor de música Habel dy Anjos, sob a regência do maestro Fabrício Carvalho, os dois participam de um verdadeiro encontro poético da música pantaneira, em um show especial com a Orquestra Sinfônica da UFMT e o Coral Universitário, cuja última apresentação acontece nesta quinta, no Teatro Universitário. João Ormond é natural do município de Alto Paraguai, mas cresceu nas cidades de Nortelândia e da vizinha Arenápolis. Começou a tocar na noite cuiabana em 1986, com o violão, e a viola veio em 93. Legítimo da terra, ele migrou para São Paulo há 16 anos a fim de se dedicar a sua carreira divulgando o Pantanal Brasil afora. Enquanto Paulo Simões, também violeiro, vem do vizinho Mato Grosso do Sul mas, na verdade, ele é carioca. Além de violeiro, também é jornalista, cantor, compositor, produtor cultural, criado em Campo Grande, pantaneiro por adoção. Ele começou a compor com 15 anos de idade e tirou carteira de músico em 1970. Foi viver da música quando largou definitivamente o jornalismo, no início dos anos 80. Parceiro de Geraldo Roca em composições como o conhecido “Trem do Pantanal”, entre outros, também estabelece esse vínculo com João Ormond em apresentações pelo Brasil, como neste projeto em Cuiabá chamado “Pantanais”. Segue a conversa com esses dois violeiros: Qual o espaço da viola caipira na música popular brasileira? Continua sendo expressivO? JOÃO ORMOND – Antigamente, a gente tinha a viola como um instrumento folclórico, para as catiras, folias de reis, em todo o Brasil. Ela é um instrumento trazido pelos jesuítas, durante a catequização dos índios pelos portugueses. Com as entradas e bandeiras eles adentraram pelos rios Paraguai, Cuiabá e São Lourenço. Então a viola foi trazida para essas regiões. Depois da corrida do ouro, Mato Grosso ficou isolado do resto do Brasil e aí aparece a viola de cocho. Mesmo neste isolamento existia a lembrança da viola caipira. E hoje a viola caipira está presente nas universidades, em estudos de mestrado e doutorado, migrou do campo, do folclore, para a cidade, e lógico que ela não perdeu suas raízes das festas tradicionais. Na década de 30, Cornélio Pires, do interior de São Paulo, reuniu vários artistas que estavam no campo e nunca se apresentaram profissionalmente para uma caravana conhecida como “Cornélio Pires” e rendeu a gravação de discos que venderam muitas cópias. Então, a viola continua sendo expressiva, porque hoje ela tem múltiplas facetas. Ela está nos cancioneiros, na MPB, no erudito, no jazz e no rock. - Como você se posiciona diante do sertanejo universitário? Essa música ajuda a sufocar a música caipira, de raiz? PAULO SIMÕES - O sertanejo universitário não é capaz de sufocar tendências musicais, Ele ocupa um espaço mercadológico invejável, mas é uma tendência, que chega no auge de sucesso popular, se estabiliza e permanece como umas das opções da música popular, ou desaparece. Hoje o sertanejo universitário domina o mercado e a nossa postura com relação a isso é permanecer numa linha alternativa com um público fiel, porque quem gosta, gosta, e não deixa de gostar. O importante é que você tenha alguma coisa guardada dentro de você depois que sua tendência passar. Os públicos amadurecem e, às vezes, respeitam seus ídolos de antes, Depende do que seus ídolos deram para suas gerações. Eu não quero fazer outra coisa a não ser o meu trabalho, no meu canto, fazendo músicas bem elaboradas, com conteúdo. Não só os violeiros, mas as violas progrediram com a tecnologia, na qualidade de fabricação. Antigamente haviam apenas violas baratas, lá no fundo da loja. Hoje já pode mandar fabricar a sua própria, sem limite de valor, que dependerá do tipo de madeira, do capitador, tarracha para afinação, entre outros. Você pode chamá-las hoje de smart violas No caso, João Ormond, que vem se apresentando por todo o país, Mato Grosso é um mercado atraente para tocar? JOÃO ORMOND - Mato Grosso é um mercado em potencial para o mercado da viola em geral. Na verdade, meu trabalho se torna diferente fora daqui, como em Minas Gerais e São Paulo que tem escolas diferentes da viola. Todos fazem parte do cinturão caipira do Brasil, que inclui, além desses três estados, Goiás e Mato Grosso do Sul. Quais as diferenças e semelhanças culturais que você enxerga entre os dois mato grossos? Não é possível o intercâmbio entre artistas? Quais são os nomes que você conhece daqui, que fazem sucesso em Mato Grosso? PAULO SIMÕES - Mato Grosso era um país dentro de outro país e que se dividiu. Dentre as semelhanças, todos os dois estados gostam dos ritmos fronteiriços, de música caipira, por consequente da viola caipira. Na culinária, os dois gostam do churrasco e da farofa e etecetera. As diferenças tem a ver com a questão de localização estratégica e clima. É possível o intercâmbio, mas não existe ainda em nível de instituições, como deveria acontecer com as mostras de teatro e mostras de cinema, por exemplo. E o que a gente está tentando fazer agora, com este Projeto Pantanais, é chamar a atenção desta necessidade de aumentar o intercâmbio. Eu conheço Vera Capilé e já gravei com ela. Também Nico e Lau, Henrique, Claudinho e Pescuma, Pinetto, Caximir, Vanguart, Guapo, Marcela Mangabeira e Maurício Detoni. As pessoas também tem que emitir suas opiniões e requisitar em manifestações nas redes sociais, pela internet, cobrando dos governantes e instituições essa maior integração.

Edição EDIÇÃO 16967




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL