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ILUSTRADO
Segunda-feira, 10 de Março de 2008, 19h:48

RESENHA

O cinema para além do entretenimento

Grande vencedor do Oscar (2008), filme dos irmãos Coen, finalmente, está disponível aos cuiabanos que apreciam a sétima arte

Lorenzo Falcão
Da Editoria
Os irmãos Ethan e Joel Coen pertencem a um seleto grupo da poderosa indústria cinematográfica americana. Não é de hoje. Estão entre os realizadores da sétima arte que gozam de um raro prestígio. Fazem um cinema autoral, aliado ao sucesso. Certo que esse sucesso é mais no próprio meio de quem atua nessa arte, do que junto ao grande público, embora alguns de seus filmes tenham caído no gosto popular. Os Coen são badalados junto à classe artística. Entre os grandes astros, é quase irrecusável um convite para atuar em seus filmes. Uma aula de cinema é o que costumam oferecer ao público em cada nova obra, e não é diferente em relação a “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que acaba de chegar aos telões cuiabanos, finalmente. O filme levou quatro Oscars, tornando-se o grande vencedor deste ano. Além de levar o maior número de estatuetas, venceu algumas das mais importantes como melhor filme, diretor, ator coadjuvante e roteiro adaptado. Domingo à noite, em busca de um programa cultural e também pra fugir do Fantástico, fui conferir a película para resenhá-la aos leitores deste DC. Conheço praticamente toda a obra dos Coen e sou fã dessa dupla. Neste caso, optei por escrever sobre o título logo após assistir, sem esperar a poeira baixar, sem dar um tempo pra assimilar por completo o conteúdo dos 122 minutos do filme, o que nem sempre é recomendável. E digo logo: não é que eu esperava mais, mas já vi trabalhos superiores dos Coen. Melhor dizendo, vi outros filmes deles que mexeram muito mais comigo, como “Arizona Nunca Mais” e “Barton Fink” (os quais gostaria de rever), e “A Roda da Fortuna”, que revi a poucos dias em minha TV paga. Diria ainda que “Fargo” e “O Homem Que Não Estava Lᔠme agradaram mais. A técnica cinematográfica continua impecável e o estilo dos irmãos também. A narrativa é peculiar e carregada de certa frieza, um distanciamento, eu diria, o que gera um ritmo equilibrado, considerando a força dos personagens que eles criam. O trabalho da fotografia está exuberante, como sempre, explorando com rigor os detalhes e os planos gerais. As imagens que vemos em “Onde os Fracos...” são cheias de significados e requintes. Contam uma história a parte que está para além do roteiro, outro predicado rico nas mãos desses dois. A violência, marca registrada dos filmes de Ethan e Joel (e do mundo contemporâneo também), está presente. Surge escancarada desde o início. O tipo que o ator espanhol Javier Bardem (“Ovos de Ouro” e “Mar Adentro”) interpreta é a própria encarnação do mal. Um matador de aluguel que não poupa ninguém, nem quem o contrata. Sua atuação é tão surpreendente que parece estranho, para não dizer injusto, classificá-lo como ator coadjuvante (categoria em que recebeu o Oscar). A tradução que o título recebeu no Brasil parece ter soado meio estranha, já que o mais correto seria “Este País Não é Para Velhos”. Deixa pra lá e voltemos ao que rola na história, adaptada de um romance de Cormac McCarthy, escritor americano. Sangue, maldade e frieza alimentam Anton Chigurh (Javier Bardem) que, às vezes, decide se vai ou não matar as pessoas, num ‘cara ou coroa’. E ele persegue implacavelmente Llewelyn Moss (Josh Brolin), que se apropriou de uma vultosa bufunfa associada ao narcotráfico. Se o personagem de Javier é o mal, o bem é o contumaz vilão em muitos outros filmes, Tommy Lee Jones, que interpreta Ed Tom Bell, xerife de uma pequena cidade americana, ponto de partida da história. Esse policial experiente surge costurando a ação desenvolvida, mas sempre envolto em abordagens humanísticas e filosóficas. É natural que o espectador, desde o início, passe a ansiar por um confronto entre os dois personagens. Maldito maniqueísmo. Mas, se ele, o confronto, ocorre ou não, não direi aqui. O charme dos filmes dos Coen tem a ver também com a imprevisibilidade, além da sofisticação técnica. As surpresas e o inesperado permeiam as coisas deles. Às vezes uma cena engendra possibilidades diversas, mas o filme não mostra no que deu. Neste “Onde os Fracos...” por exemplo, ao final, cheguei a ouvir uma moça que assistiu-o dizer que queria o seu dinheiro de volta. Acho que ela escolheu o filme errado. O cinema americano produz títulos tão adrenalizados, com tanta ação, que tem vezes que nem dá tempo pra gente pensar direito. Algumas pessoas preferem esse tipo de filme. “Onde os Fracos Não Têm Vez” tem um bocado de ação e um suspense arretado. Mas faz a gente pensar, ainda bem. Falta dizer que o público precisa aprender que em artes como o cinema e a literatura, não é a história contada, em si, o que há de mais especial. A forma como essa história é contada é o mais importante. Filmografia dos Coen Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) Paris, Eu te Amo (2006) Matadores de Velhinhas (2004) O Amor Custa Caro (2003) O Homem que Não Estava Lá (2001) E aí meu Irmão, Cadê Você? (2000) O Grande Lebowski (1999) Fargo (1996) A Roda da Fortuna (1994) Barton Fink (1991) Ajuste Final (1990) Arizona Nunca Mais (1987) Gosto de Sangue (1984) Prêmios e nomeações Ganhou o Oscar de Melhor Diretor, Melhor filme e melhor roteiro adaptado por por "Onde os Fracos Não Têm Vez” (2008) Recebeu uma nomeação ao Oscar, na categoria de Melhor Realizador, por "Fargo" (1996). Ganhou o Oscar de Melhor Argumento Original, por "Fargo" (1996). Recebeu uma nomeação ao Oscar, na categoria de Melhor Argumento Adaptado, por "E aí meu Irmão, Cadê Você?" (2000). Recebeu uma nomeação ao Oscar, na categoria de Melhor Edição, por "Fargo" (1996). Recebeu uma nomeação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Realizador, por "Fargo" (1996). Recebeu uma nomeação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Argumento, por "Fargo" (1996). Ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, por "Barton Fink" (1991). Ganhou três vezes o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes, por "Barton Fink" (1991), "Fargo" (1996) e "O Homem Que Não Estava Lá" (2001). Ganhou o BAFTA de Melhor Realizador, por "Fargo" (1996). Recebeu duas nomeações ao BAFTA, na categoria de Melhor Argumento, por “Fargo” (1996) e "E aí meu Irmão, Cadê Você?" (2000). Recebeu uma nomeação ao BAFTA, na categoria de Melhor Edição, por "Fargo" (1996). Recebeu uma nomeação ao BAFTA, na categoria de Melhor Filme, por "Fargo" (1996). Ganhou o Prémio Bodil de Melhor Filme Americano, por "Fargo" (1996). Recebeu uma nomeação ao César, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por "Fargo" (1996). Ganhou duas vezes o prémio de Melhor Realizador, no Independent Spirit Awards, por "Gosto de Sangue" (1984) e "Fargo" (1996). Recebeu duas nomeações ao prêmio de Melhor Argumento, no Independent Spirit Awards, por "Gosto de Sangue" (1984) e "Fargo" (1996). Ganhou em 1996. Ganhou o Grande Prémio do Júri, no Sundance Film Festival, por "Blood Simple" (1984).

Edição EDIÇÃO 16967




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