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Quarta-feira, 12 de Março de 2025, 05h:02

FILMES

O cinema brasileiro precisa ser mais desobediente, diz a montadora Cristina Amaral

Colaboradora de Carlos Reichenbach, editora prioriza filmes radicais e critica 'formatação' de ideias por streamings e editais

DAVI GALANTIER KRASILCHIK
Da Folhapress - São Paulo
A montadora brasileira Cristina Amaral

Ao retornar da noite com um astro dos sonhos, Silmara encara as decepções de voltar à fábrica em que trabalha. A atriz Rosanne Mulholland estampa o sofrimento de uma vida inteira e seus cabelos loiros são lambidos pelo vento, que revela madeixas morenas e sua verdadeira natureza. A paisagem de um bairro operário ocupa a tela gradualmente e a põe como representante de uma classe que sonha superar limites.

Em outro filme, a personagem de Fernanda Vianna dorme na casa da irmã nas ruas de uma São Paulo periférica. Expulsa do campo por tragédias climáticas, ela sonha com as terras que precisou deixar para trás. O cavalo branco de sua infância surge pouco a pouco sobre a tela e sugere um transe típico dos perseguidos por fantasmas do passado.

Da obra final do diretor Carlos Reichenbach, "Falsa Loura", ao longa mais recente da cineasta Juliana Rojas, "Cidade; Campo", essas e outras produções brasileiras passaram pelo mesmo olhar criativo quando chegaram à ilha de edição.

"São os filmes que pedem essas escolhas. Algumas imagens não cumprem todos os sentimentos que queremos transmitir. É daí que surgem as sobreposições. Costumo dizer que não proponho nada, eu apenas acompanho os filmes", afirma Cristina Amaral, de 71 anos.

As fusões, como é conhecido o recurso cinematográfico em que a troca entre duas imagens as mantém juntas por alguns segundos, se tornaram uma de suas marcas registradas.

Com mais de 60 títulos na carreira, a montadora brasileira descobriu sua paixão pela área durante o curso de cinema na ECA-USP, quando foi aluna da professora Maria Dora Mourão, hoje diretora da Cinemateca Brasileira.

Seja pela escolha entre os melhores takes para os planos de uma cena, por estabelecer a extensão ideal de gestos ou expressões do elenco, ou pelo planejamento dos cortes que levam a narrativa adiante, a montagem é um sucessor fundamental das gravações.

É durante essa etapa que o material filmado é organizado em softwares de edição de vídeo, encontra a sua verdadeira ordem —podendo remodelar ideais da direção ou do roteiro— e atinge seu tempo de duração.

"Quando começo um trabalho, peço aos diretores que me mandem todas as informações possíveis e converso muito com eles. É o momento de compreender a cabeça que quer gerar aquele filme. Mas assim que começo a montar, não volto ao roteiro. Não posso estar presa ao passado e ignorar a vida daquele processo", diz Amaral.

Com o turbilhão de transformações e vozes centralizadas num filme, ela diz que o cinema lhe permitiu conhecer lugares onde sequer pisou e cita o iraniano como um dos favoritos.

Sua versatilidade mistura a ficção e o documentário e perpassa diferentes ícones do audiovisual brasileiro, filiados especialmente a movimentos subversivos como o cinema de invenção e derivados —reconhecidos por traduzir a agitação política da época e renegar estratégias comerciais.

Além das colaborações com Reichenbach —expoente dos filmes que determinaram o cenário paulistano—, suas credenciais também incluem o ritmo opressivo de "Serras da Desordem", de Andrea Tonacci, que une a realidade e a criação para falar sobre o massacre da tribo Awá-Guajá.

Outro de seus feitos é a construção paciente do grupo de motoqueiras que protagoniza "Mato Seco em Chamas". Codirigido por Adirley Queirós e Joana Pimenta —que também participaram da montagem—, o filme acompanha uma gangue feminina que tenta controlar sua região ao produzir a própria gasolina.

O encontro entre temas críticos e a linguagem poética se tornou natural e a trajetória da montadora passou a ser pautada pela fuga aos padrões, dentro e fora do Brasil —em 2020, ela recusou um convite da Academia para integrar o corpo de votantes do Oscar.

Ela acredita que jovens cineastas podem partir da mesma rebeldia de grandes mestres. "Eu vejo muito frescor em trabalhar com eles. Estamos sempre buscando algo novo, o que é cada vez mais raro em tempos em que os caminhos surgem todos laceados. Cada filme traz um sonho muito presente."

Distante da disputa pelas salas tradicionais, um de seus últimos trabalhos até o momento foi lançado na Mostra de Tiradentes, no início de 2024. "Eu Também Não Gozei" acompanha a vida de uma mulher que persiste na busca pela identidade do pai de seu bebê e mostra a adaptação da assinatura de Amaral ao registro mais imediato e auxiliado por câmeras de celular.

No mesmo ano, ela também foi homenageada pelo Cabíria Festival, mostra anual que celebra filmes feitos por mulheres, e ganhou uma retrospectiva com alguns de seus trabalhos.

São espaços que se distanciam de regras impostas por mercados como o da publicidade e dos streamings.

"Não deveríamos estar fazendo filmes para arrecadar altas bilheterias. Deveríamos estar pensando em filmes que possam ser lembrados daqui a 100 anos. Eles estão tentando formatar a música, o cinema, a arte. Estão tentando formatar esses milagres", diz ela.

Embora reconheça a importância de políticas como os editais de cultura, que permitem a diversos realizadores brasileiros produzir e distribuir seus projetos, Amaral vê na desobediência um auxílio à criatividade.

"O edital pode acabar engessando e colocando as ideias em uma caixa. É necessário contornar certos aspectos se quisermos preservar nosso olhar. Nossa visão é a única coisa com que podemos melhorar o mundo."

 


Edição EDIÇÃO 16967




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