Meu primeiro contato com o cara foi lendo uma matéria na Revista da Tam comendo a maldita barrinha de cereais servida a bordo. É que tava com fome e me lembrava das refeições de outrora da aviação nacional. Algum tempo depois, dando um devorteio pelos canais da tv por assinatura...Pô! Não é que era ele de novo, tocando num especial do violonista Zé Menezes, acho que na TV Câmara. Pensei: é muita coincidência. Fiquei curioso. O que é o bombardeio da mídia, heim? Fiz uma busca rápida na Internet e mandei vir os dois CDs solo do Nicolas Krassik. Era o francês que comeu a cabeça de pacú, e o efeito foi que jamais quis ir embora do Brasil. Caçuá é o segundo CD do violinista europeu de essência latino-brasileira. Nele, o músico busca, com seu olhar, um retrato fiel do Brasil musical via de várias tendências e estilos. O rapaz de trinta e poucos anos tem formação clássica pelo Conservatório Nacional de Aubervilliers. Também?! Tocar com tanta virtuosidade criando inúmeros trechos de alta dificuldade técnica, só tendo feito o Curso Superior em Música. Porém, o uso dos glissandos [= dedos escorregando pelas notas], é comedido e muito bem dosado somente em compassos de passagem. Sem pieguismos jazzísticos inocentes. Krassik apaixonou-se pela música brasileira ainda na França em seus contatos e festerês com músicos daqui. Porém, essa coisa de som brazuca uma alcunha global, projetinho imposto goela abaixo , ao meu sentir, não cola mesmo. Urgh! Mas o cara tem prodigiosa autoridade na arte do improviso. Seu condimento de escalas cromáticas é o fino da bossa. Sente-se perfeitamente o fraseado com inspiração no swing tipo anos 40, do qual Stephane Grappelli era mestre. Dizem que Nicolas está enfeitiçado pelo Brasil. Ora, aqui consigo vislumbrar reminiscências de um mundo vivido anterior. Esclareço: pela cultura espiritualista universal, é possível que ele tenha tido uma encarnação passada pelas praias cariocas. Vai gostar de samba assim lá na Mangueira! Pois é justamente do Rio de Janeiro que vem alento para suas releituras altamente criativas da literatura clássica do chorinho brasileiro como na obra Murmurando de Fon-Fon, (faixa n.º05). Nicolas neste CD efetua uma apresentação simbiótica de ritmos do samba de roda, expostos no interior do choro que propicia a busca inconsciente da forma rondó, o qual é guia para o choro. O rapaz já tem um currículo invejável, pois tocou com o excelente pianista Michel Petrucciani, Khaled, Zélia Duncan, Beth Carvalho, Marisa Monte e tantos que viraram seus amigos e parceiros. Agora, tá na hora do DVD solo e do songbook do Krassik que também é excelente compositor. O CD Caçuá tem de tudo um bocadinho: baião, maxixe, choro, samba, xaxado. É música de câmara da melhor qualidade com percussionistas da hora, um poderoso violão 07 cordas e vários convidados na flauta, acordeón, bandolim, rabeca. Nem falo de nomes pra vocês ficarem curiosos também. Ritmo pra Krassik é coisa de menino brincando de bola de gude. O cara brinca com escalas de contracanto em fusa e tetrafusa na boa tranqüilidade de quem é amigo do violino. E faz seus exercícios de manutenção todos os dias, mantendo os dedos no lugar afinadamente. O outro CD altamente recomendável é o Na Lapa. Literalmente samba-canção rasgado, com direito a saxofone, bandolim de Hamilton de Holanda, cuíca, o trombone de Zé da Velha, o violão de Yamandú Costa. Todos os dois registros fonográficos são 90% no tempo allegro vivace. Ou seja, as obras são executadas numa velocidade virtuosística extraordinária. A produção está no capricho pela gravadora Rob Digital do RJ que tem interessantíssimas gravações em seu catálogo. Contudo não notei em ambos os CDs qualquer menção ao ano de feitura, o que deixa o consumidor sem o importante dado temporal. Por fim devo chamar a atenção dos empresários do show business de Mato Grosso para o fato de que apresentações do Nicolas Krassik e seu conjunto, certamente trarão casa cheia todos os dias que forem programados. Com certeza, quem gosta da boa música estará lá! SERVIÇO: O QUE É? CDs Caçuá e Na Lapa AUTOR: Nicolas Krassik ONDE: http://www.nicolaskrassik.com/ Ney Arruda é professor universitário, doutorando pela Universidad de Burgos (Espanha), violinista cuiabano e colabora com o DC Ilustrado (
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