ILUSTRADO
Sábado, 30 de Novembro de 2013, 12h:59
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
NATANAEL HENRIQUE DE MORAES: PELOS EXEMPLOS O MESTRE SÉRGIO EDUCOU OS FILHOS E GANHOU REPUTAÇÃO
EVALDO DE BARROS
Especial para o Diário de Cuiabá
Houve uma época em que os mestres de obras faziam acontecer na construção civil de Cuiabá. Liam as plantas como se engenheiros fossem e administravam os serviços com grande competência e profissionalismo. Com antecipado pedido de desculpas por não citarmos todos os mestres de obras famosos que tivemos, são aqui mencionados aqueles que vieram à lembrança como Elias Zaviasky, Bento Epifânio, João Crisostomo e Sérgio Henrique de Moraes, o nosso focalizado de hoje. Queridíssimo pelos operários, pelos vizinhos e pelo enorme grupo de amigos, o Mestre Sérgio era presidente perpétuo do subdiretório da União Democrática Nacional - U.D.N. - do Morro da Coronel Neto, antiga rua da Varginha, um lugar entre o centro de Cuiabá e o bairro da Cruz Preta. Aliás, era gostoso morar ali naquele alto que ficava pertinho de tudo e por isso os habitantes do morro da Coronel Neto eram agarrados com aquele pedaço de chão cuiabano. Parafraseando a musiquinha carnavalesca é certo que no íntimo cantavam: daqui não saio, daqui ninguém me tira. Para falar sobre o Mestre Sérgio Henrique de Moraes fomos à procura do seu filho Professor pós-graduado de Educação Física, Natanael Henrique de Moraes, o celebre atleta de futebol Nato que fez vibrar os torcedores no Dutrinha com gols espetaculares e dribles de encher os olhos e provocar aplausos da inflamada torcida. DC ILUSTRADO - Conte-nos professor Nato as lembranças que o senhor tem do seu pai. NATANAEL - Antes de mais nada Evaldo, quero destacar o orgulho que sinto de minhas origens. Vindo de uma família espírita fui criado dentro dos mais rigorosos preceitos de dignidade e honradez e os espíritos que tomaram conta dos corpos físicos de meus pais foram de luz. Não me canso de agradecer diariamente a felicidade que tive em nascer no seio daquela família. Meu pai nasceu na localidade denominada Poço, no município de Santo Antônio de Leverger e como veio criança para Cuiabá, sempre se considerou cuiabano, que veio ao mundo em 13 de dezembro de 1912 e partiu em 18 de fevereiro de 1983. Era afilhado do arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa e estudou no Colégio dos Padres onde aprendeu a jogar futebol e foi goleiro do Dom Bosco que, posteriormente, transformou-se no Clube Esportivo Dom Bosco, o leão da colina iluminada. O mestre Sérgio serviu o Exército no 16º Batalhão de Caçadores e ali foi cabo enfermeiro até deixar a caserna. Casou-se com minha mãe D. Elvina Metelo de Moraes e tiveram oito filhos: Benedito, Natanael, Catarino, Eurly, Ana Maria, Maria Madalena, Emanuel e João Batista. Até agora colheram 22 netos e 18 bisnetos. DC ILUSTRADO - E como o mestre Sérgio se notabilizou na construção civil? NATANAEL - Inicialmente papai foi pedreiro muito requisitado. Como era dotado de um enorme espírito de liderança foi se sobressaindo dentre os colegas até ser alçado à condição de mestre de obras. Meu pai tinha admiradores ilustres como, por exemplo, o ex-governador Garcia Neto, de saudosa memória e o professor Aecim Tocantins que em um dos seus livros faz menção ao nome dele. Primeiro ele trabalhou na Construtora Comércio Ltda. e, depois, foi para a Civeletro até se aposentar após muitos anos de duro trabalho. DC ILUSTRADO - O senhor se recorda de algumas obras onde o mestre Sérgio atuou no comando dos operários? NATANAEL - Lembro-me de algumas, pois foram muitas. Posso citar o Palácio do Comércio, o Palácio Alencastro, a Loja Miraglia, o Hotel Águas Quentes, etc. DC ILUSTRADO - Como era a rotina do mestre Sérgio? NATANAEL - Papai era apaixonado com o que fazia. Dava o máximo de sua capacidade para ver as coisas saírem bem feitas. Ele saia cedo e voltava tarde das obras recolhendo-se ao lar. Era um homem caseiro, incentivava os filhos para que estudassem e cuidava da família com grande zelo e extremado amor. Papai nos impunha uma educação rígida, mas no fundo ele desejava garantir para nós um futuro menos trabalhoso e cansativo que o da sua profissão. DC ILUSTRADO - Somos testemunhas do homem e do profissional que foi o seu pai. Além da construção civil ele tinha outra paixão? NATANAEL - Era o futebol, Evaldo. Botafoguense roxo, papai fundou em Cuiabá o Cruzeiro Esporte Clube que se tornou a grande paixão da vida dele. No Cruzeiro papai era o presidente, o técnico, o massagista e tudo o mais. Aliás, você foi vice-presidente do Cruzeiro e pode testemunhar que nós jogávamos de igual para igual com os grandes times da cidade: Mixto, Operário, Dom Bosco e Atlético. Muitas das vezes surpreendíamos as agremiações tradicionais com exibições que nos garantiam inesperadas vitórias. Até excursões pelo interior do estado o Cruzeiro Esporte Clube realizava e não fazia feio. Acho que marcamos época no futebol cuiabano e inscrevemos o nome do clube na história da antiga Federação Mato-grossense de Desportes. DC ILUSTRADO - Há quem diga que o mestre Sérgio levou água para o morro... NATANAEL - É verdade. O meu pai liderou um grupo de vizinhos que colocou a mão na massa. Eles cavaram uma valeta até a rua da Fé (Comandante Costa) e conseguiram que a antiga EFLA - Empresa de Força, Luz e Água - colocasse os tubos e levasse água para o morro da Coronel Neto. Foi um trabalho duro, recompensado pela alegria de todos os moradores que viram jorrar água nas torneiras de suas casas. O mestre Sérgio não brincava em serviço. Se era preciso fazer, arregaçava as mangas e fazia. Ele se tornou uma pessoa admirável e um orgulho para todos os filhos. DC ILUSTRADO - Fale-nos agora do senhor professor Nato. NATANAEL - Sou o segundo filho do mestre Sérgio e de D. Elvina Metelo de Moraes. Cuiabano de Chapa e cruz, nasci no dia 18 de janeiro de 1942 e minha primeira professora na Escola Modelo Barão de Melgaço foi Elzira Pinto Mocker. Fiz o ginásio no extinto Ginásio Brasil e o científico no antigo Colégio Estadual de Mato Grosso hoje Liceu Cuiabano Professora Maria de Arruda Müller. Em Guaratinguetá conclui o segundo grau e em Ribeirão Preto fiz Faculdade de Educação Física. Eu era atleta de futebol, mas não descuidava dos meus estudos. Sempre tive presente as lições de casa: era profissional da bola, mas precisava garantir o futuro de minha família. A carreira do jogador de futebol é muito curta e ainda hoje pouquíssimos atletas conseguem fazer o pé de meia na profissão. DC ILUSTRADO - O senhor se recorda dos clubes nos quais jogou? NATANAEL - Iniciei no Cruzeiro que foi fundado e dirigido pelo meu pai. Depois fui para o Clube Atlético Mato-grossense, o galo cuiabano e me transferi sucessivamente para o Guaratinguetá, Francano, Uberlândia, Araxá, Botafogo de Ribeirão Preto, Vila Nova de Goiânia e, retornando a Cuiabá, terminei a carreira no Mixto Esporte Clube. DC ILUSTRADO - E as seleções do futebol regional? NATANAEL - Joguei tanto na Seleção Cuiabana como na Seleção Mato-grossense. Acho que era um jogador de boa qualidade com esse currículo, não é verdade? DC ILUSTRADO - Como grande craque o Nato ganhou um bom dinheiro, pois não? NATANAEL - Não posso negar. De fato ganhei algum dinheiro no futebol para manter a família com um padrão de vida razoável. Mas o futebol no meu tempo de atleta não era valorizado como hoje. Se fosse estaria com o meu cavalo na sombra como diz o ditado. Fiz futebol quando o amor à camisa era superior ao interesse financeiro. E o amor ao time não combina com uma gorda conta bancária seja reconhecido e proclamado. DC ILUSTRADO - Geralmente o atleta de futebol tem um companheiro com o qual gosta de jogar. Quais eram os escolhidos pelo Nato? NATANAEL - Gostava muito de fazer parceria com o Paulinho, no Botafogo de Ribeirão Preto. Ele era muito veloz e recebia e passava bolas em profundidade. No Mixto apreciava o belo futebol do Filinto e no Atlético o companheiro de jogadas era o Báicere. DC ILUSTRADO - E a sua família professor Nato. NATANAEL - Estou muito bem casado com D. Maria Emília de Moraes desde 21 de maio de 1963. Temos cinco filhos: Shirley, Sandra, Sérgio Neto, Sidney e Anderson que foi adotado com muito amor. Já colhemos sete netos e conseguimos estruturar uma família unida e bonita que é a nossa maior riqueza. DC ILUSTRADO - O senhor implantou a educação física em Cuiabá não é verdade? NATANAEL - Não é verdade. Antes de mim estiveram trabalhando os Professores Benedito de Carvalho, May do Couto, Ady Matos, Polzin, dentre outros. O que aconteceu foi que eu e o professor Expedito, se não me engano, fomos os primeiros professores formados em Faculdade de Educação Física. É claro que introduzimos algumas novidades na área por força da nossa formação superior. Isso fez alguma diferença, mas não nos dá o direito de menosprezarmos os trabalhos daqueles que nos antecederam. DC ILUSTRADO - E hoje, o professor Nato pendurou literalmente as chuteiras? NATANAEL - Olha Evaldo, fomos colegas de escola. Como você, estou aposentado. Estou inativo no Instituto Federal de Educação (antiga Escola Técnica) e na Universidade Federal de Mato Grosso. Essa história de melhor idade é estória. Quando os janeiros pesam as pernas balançam. Faço algumas coisinhas em casa, mas não dá mais para me fazer de forte. Na pratica a teoria é outra. Não estou cansado, mas o professor de antigamente ficou no passado. Estou naquela base: Faça o que eu mando; não faça o que eu faço. Agora estou cuidando dos netos. E olha que isso dá trabalho. Um trabalho maravilhoso! DC ILUSTRADO - Na sua opinião quais foram os melhores jogadores de futebol de Cuiabá? NATANAEL - Pedindo perdão aos demais craques escolho o Uirton (irmão do Uir Castilho), Leônidas e Portela. Esses três jogariam em qualquer time do Brasil. Aliás, o Leônidas jogou fora de Cuiabá e não fez feio. DC ILUSTRADO - Cuiabá hoje é melhor que antigamente? NATANAEL - O progresso foi muito bom, mas antigamente tínhamos mais segurança. Como recordar é viver tenho saudades de antigamente, mas o progresso é uma necessidade para a evolução do povo. DC ILUSTRADO - Qual a maior alegria? O senhor tem alguma mágoa. NATANAEL - A minha maior alegria é ser filho do mestre Sérgio e de D. Elvina que me criaram com caráter e dignidade. Agradeço todos os dias por me ajudarem nesta reencarnação. Minha maior mágoa foi a diretoria do Araxá não ter liberado o meu passe para o Clube Atlético Mineiro depois de estar tudo acertado. Ao impedirem a minha transferência para um clube maior destruíram, com certeza, a minha carreira futebolística. CONCLUSÃO Já radialista da Radio A Voz do Oeste e acompanhando o consagrado Ivo de Almeida nas transmissões esportivas fui chamado pelo mestre Sérgio para ser vice-presidente do Cruzeiro. Nessa ocasião estreitei o meu relacionamento com a bonita família do famoso construtor mestre Sérgio Henrique de Moraes e, claro, aumentou a minha admiração por todos daquela agradável casa do morro da Coronel Neto. O mestre Sérgio foi excelente arbitro de futebol e tinha o belo hábito de descobrir terrenos devolutos e indicá-los aos vulneráveis para que ali construíssem suas moradas. Era um serviço de solidariedade humana que ele prestava com grande prazer. Hoje, ao homenagear nesta coluna o mestre Sérgio e seu filho Natanael Henrique de Moraes estou apenas fazendo justiça a duas figuras que muito fizeram por Cuiabá. Nato foi ídolo de várias torcidas. É vascaíno de coração enquanto o mestre Sérgio era botafoguense. Foi um prazer imenso reviver acontecimentos dos tempos idos e vividos que não voltam mais e reinscreve-los nas páginas da nossa história contemporânea porque a cidade vive dos que vivem e viveram nela.