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ILUSTRADO
Domingo, 13 de Setembro de 2009, 01h:30

DESAFIO

Marcelo Bratke leva Villa-Lobos à Europa

Músico brasileiro que trabalha ícone do nosso país pelo mundo chega ao Velho Continente

Daniela Milanese
Agência Estado
Os sentidos do celebrado pianista brasileiro Marcelo Bratke passaram por transformações profundas. Os olhos agora estão salvos por uma cirurgia que lhe trouxe a visão. Os ouvidos foram capturados pelos sons da percussão. Renovado pelas experiências, o artista parte para um novo projeto: difundir a obra de Heitor Villa-Lobos na Europa. O "Villa-Lobos Worldwide", já lançado nos Estados Unidos e no Japão, chega na próxima segunda-feira (14) ao Southbank Centre em Londres, cidade onde mora o músico e que será a primeira do continente a receber a série de concertos para piano solo, previstas ainda neste ano para Berlim, Frankfurt, Bruxelas, Belgrado, entre outras. No repertório, as obras de Ernesto Nazareth e do francês Darius Milhaud ajudam a compor o espetáculo intitulado "Trilogia do Carnaval". Bratke também trabalha em um documentário em inglês para um canal de TV internacional, filmado no Rio de Janeiro, Nova York e Paris, reconstruindo os passos da carreira de Villa-Lobos O projeto ainda abarca a gravação de oito CDs com a obra completa daquele que considera o maior compositor da América Latina - com lançamento em 30 países pela gravadora inglesa Quartz e no Brasil pela Biscoito Fino. A ideia do projeto veio da percepção frustrante de que a música de Villa-Lobos é pouco conhecida no exterior e não está devidamente presente nas salas de concertos internacionais. Com o sucesso já obtido no Carnegie Hall, em Nova York, e no Suntory Hall, em Tóquio, o pianista sabe que o público recebe bem a obra do compositor brasileiro. "A reação é ótima porque o Villa-Lobos traz todo o colorido da diversidade cultural que existe no Brasil", afirmou à Agência Estado. Um ponto em comum une os dois artistas: o gosto pela mistura do erudito com o popular. Enquanto o carioca Villa-Lobos mergulhou pelo País para conhecer o folclore brasileiro, Bratke não se acanha de partir para parcerias aparentemente inusitadas, sempre em busca de novidades e experimentos, dando amplo espaço à criatividade e aos ritmos da música popular. Ele quer o colorido, o vivo, o novo. Foi assim com as cantoras Sandy e Fernanda Takai. "Gosto de fazer parcerias com músicos de outras áreas para quebrar barreiras, explorar outras coisas e me deliciar com outras linguagens musicais." Foi assim também com o Grupo Charanga, do Jardim Miriam, bairro da zona sul de São Paulo, com o Morro da Conceição, no Recife, e com o percussionista Naná Vasconcelos. Toda essa imersão relativamente recente influenciou Bratke. "Minha maneira de tocar Villa-Lobos mudou completamente com o suingue da percussão, é isso que eu quero mostrar." A interpretação do pianista também passou pela revolução do olhar. Ele nasceu com apenas 3% de visão em um olho e 10% no outro. Aprendeu a tocar piano praticamente de ouvido, a partir dos 14 anos. Ler uma partitura era esforço tremendo, um processo lento e doloroso. Melhor então decorar bem rápido. O talento mostrou-se logo evidente, o primeiro concerto veio somente 10 meses após o início do aprendizado e a Juilliard School of Music em Nova York lhe deu as técnicas necessárias para o sucesso mundial. Em 2004, cerca de três meses antes de sua estreia no Carnegie Hall, uma cirurgia realizada nos Estados Unidos permitiu-lhe enxergar. "Abri os olhos e vi uma maçaneta de gaveta, depois um prédio de tijolos, ah, vocês são os tijolos. É como seu eu tivesse reencontrado todos os personagens da minha vida com outra cara." Trechos da entrevista: Grupo Estado - Qual o principal objetivo do "Villa-Lobos Worldwide"? Marcelo Bratke - É divulgar internacionalmente a música de Villa-Lobos. Tive algumas conversas com pessoas muito importantes do meio musical internacional e todos me relataram uma coisa muito frustrante: eles não conhecem a música de Villa-Lobos. Conhecem o nome, mas não estão familiarizados com a música. Ele não é tão presente nas salas de concerto internacionais quanto a gente imagina no Brasil. Grupo Estado - Qual o motivo desse desconhecimento, na sua opinião? Bratke - Villa-Lobos fez muito para promover sua música. Entre 1950 e 1960 regia orquestras americanas e era famoso em Paris. Depois voltou ao Brasil a convite de Getúlio Vargas para implantar a música no ensino infantil. Ele ficou prejudicado, eu acho, pela ligação com o Getúlio, embora não fosse partidário. Agora, acho que os artistas brasileiros não promovem tanto quanto poderiam. É muito mais comum ouvir (o escandinavo Jean) Sibelius porque está mais divulgado. Grupo Estado - Qual é a reação do público do exterior à música de Villa-Lobos? Bratke - A reação é ótima porque o Villa-Lobos traz todo o colorido da diversidade cultural que existe no Brasil. De repente entram ritmos de afoxé, maxixe e samba, mas que se misturam com o politonalismo (uso de várias tonalidades) que ele ouviu do Stravinsky, com certas nuances do pós-impressionismo, com certos elementos do Grupo dos Seis, de (Francis) Poulenc, de Darius Milhaud, de Erik Satie. Tem os sons da natureza. Eu escuto passarinho quando eu ouço, as pessoas dizem que sou louco. Os europeus acham isso muito diferente e exótico porque os compositores da mesma geração não eram tão desprendidos. Grupo Estado - Suas parcerias na repercussão tiveram influência na sua interpretação? Bratke - Sem dúvida. Estou gravando Villa-Lobos em um momento muito maduro porque tive esse contato com os meninos da percussão, com o Alex do Charanga, com o Lucas dos Prazeres, do Morro da Conceição, que é um gênio, com o Naná Vasconcelos. A minha maneira de tocar Villa-Lobos mudou completamente com o suingue da percussão. É isso que eu quero mostrar. Grupo Estado - A cirurgia nos olhos também mudou sua maneira de tocar? Bratke - Sem dúvida, uma coisa muito marcante na minha vida. Para você ter uma ideia, a última vez que tentei ver o número de um cartão de crédito, antes da operação, coloquei tão perto da luz que derreteu. Minha vida era essa, eu não sabia o que era enxergar bem. Quando operei, você não faz ideia da alegria. Abri os olhos e vi uma maçaneta de gaveta, depois um prédio de tijolos, ah, vocês são os tijolos. É como seu eu tivesse reencontrado todos os personagens da minha vida com outra cara. Ver até uma bituca de cigarro no chão é uma coisa maravilhosa. Grupo Estado - Como foi tocar com a Sandy? Bratke - Super legal. Gosto de fazer parcerias com músicos de outras áreas para quebrar barreiras, explorar outras coisas e me deliciar com outras linguagens musicais.

Edição EDIÇÃO 16967




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