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ILUSTRADO
Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010, 21h:12

LIVRO

Lobão e o retorno ao ofício 1°, a música

Tirem as crianças de perto e "viaje" com esse narrador personagem, ícone do rock nacional, que revela seus dramas, exageros e controvérsias com eloquência e ritmo e sem arrependimento

Roberta Pennafort
Agência Estado
Era um daqueles sábados de azul desconcertante no Rio. A entrevista com Lobão seria numa livraria em Ipanema, bairro pelo qual ele circulou a vida toda. Mas o cantor carioca preferiu transferi-la para um hotel no Flamengo. Queria ficar mais próximo do aeroporto Santos Dumont, de onde decolaria para a cidade onde decidiu envelhecer: São Paulo. Aos 53 anos, o momento, em que está saindo da MTV e se voltando exclusivamente à música, seu ofício primeiro, é considerado pelo próprio "um rito de passagem". O marco: o lançamento da autobiografia "50 Anos a Mil", em que narra não só suas quase quatro décadas de vida profissional - iniciada aos 17 anos ao lado de Lulu Santos e Ritchie, na banda Vímana -, mas também os anos que forjaram sua personalidade, quando aprendeu a rir de si mesmo. O jornalista Claudio Tognolli coassina a capa, estampada por um Lobão mais grisalho e magro do que a imagem fixada no imaginário brasileiro. A primeira pessoa, no entanto, é do roqueiro: "Eu não tava a fim de escrever. Mas quando fiz o prólogo, não parei mais, e escrevi 900 páginas. Logo percebi que se essa história fosse contada por outra pessoa, seria trágica. Chega às raias da inverossimilhança", conta o músico, ou melhor, o multiartista - assim se reconhece -, embora por vezes seja tachado de "decadente" e "recalcado". Compositor de sucessos cantados há quase 30 anos, dos hinos "Me Chama" e "Rádio Blá" às criações mais recentes, baterista desde criança, toca guitarra e violão, e bem. É um sobrevivente, e está disposto para mais 50 anos - acredita que "o melhor ainda está por vir". Menino, superou uma nefrose, doença que fez com que a mãe guardasse em casa o acanhado Joãoluizinho, o Xurupito, e fizesse dele alvo de chacota. Mais tarde, seria diagnosticado como um "epiléptico light". Artista de apelo jovem, cultuado talvez igualmente pelo talento e pela porra-louquice, viveu os excessos das drogas dos anos 80 (principalmente cocaína, mas também heroína), só que conseguiu colocar a cabeça para fora. Acabou padecendo da dor de se tornar órfão dos grandes amigos, que morreram em plena atividade criativa (Júlio Barroso, Cazuza). A "vida louca, bandida" o jogou na prisão e na bancarrota, por conta dos gastos com advogados. A relação visceral com a música, a religiosidade (carola na infância, depois espírita), a briga pela distribuição independente de seu trabalho, as desavenças no meio artístico, as vaias do Rock in Rio - tudo é contado no livro de forma quase sempre jocosa. Tirem as crianças de perto e "viaje" com esse narrador personagem, um ícone do rock nacional, que revela seus dramas, exageros e controvérsias com eloquência e ritmo, e sem arrependimentos. SERVIÇO: LIVRO: 50 Anos a Mil AUTORES: Lobão e Claudio Tognolli EDITORA: Nova Fronteira (600 páginas) QUANTO: R$ 59,90)

Edição EDIÇÃO 16967




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