ILUSTRADO
Segunda-feira, 08 de Setembro de 2008, 19h:52
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RELAÇÃO
Livro enfoca Dorival Caymmi e a Bossa Nova
Autora é jornalista e neta de Caymmi. Está no meio do doutorado e vai continuar a se debruçar sobre aspectos da carreira do avô, falecido recentemente
Roberta Pennafort
Agência Estado
Stella Caymmi não gosta de ver o avô ser chamado de "precursor da bossa nova". A palavra conteria a noção reducionista de superação posterior, o que não aconteceu com a obra de Caymmi - responsável por antecipações estéticas que seriam consolidadas pelo "movimento", nascido quando ele já contava 20 anos de carreira e era um consagrado autor de sucessos. O que houve, conforme mostra sua análise, agora saindo em livro, foi uma "tradução" de suas canções a partir dali; ou seja, a bossa nova, e, mais especialmente, as releituras por João Gilberto de seus clássicos trouxeram Caymmi "para o presente". A pesquisadora, que é jornalista e está no meio do doutorado (vai continuar a se debruçar sobre aspectos da carreira do avô), trabalhou com a perspectiva da Estética da Recepção, teoria literária revolucionária da década de 60, na busca de compreender o "lugar" de Caymmi na música popular brasileira. De autoria do historiador alemão Hans Robert Jauss, essa teoria leva em consideração a percepção da obra por seus leitores - no caso de um compositor, seus ouvintes. Cada época, diz Jauss, tem seu horizonte de expectativas; em outras palavras, o conjunto do que se pode esperar em termos artísticos As obras com valor estético, ao contrário das descartáveis (ou "culinárias", como nomeia Jauss), são aquelas que surpreendem, que vão além desse horizonte, trazendo o inesperado. Nessa categoria se enquadra a do compositor baiano. "O pessoal da bossa nova reconheceu a relação estética entre Caymmi, em todas as suas fases, e o que eles faziam. Foi só ali, desde 1938, que se teve um horizonte de expectativa capaz de compreendê-lo em toda a sua dimensão. A partir da bossa nova, Caymmi foi canonizado", explica Stella. "Isso fez com que ele permanecesse. Uma coisa foi Caymmi cantar "Rosa Morena"; outra foi João Gilberto a cantar. Caymmi passou no filtro de João Gilberto, que o atualizou, assim como Chico Buarque fez com Noel e, na minha opinião, Gal fez com Ary Barroso." Para chegar a essas conclusões, Stella analisou jornais antigos, a fim de entender como as canções foram percebidas pelo público em diferentes momentos. Percebeu, por exemplo, que, ao se iniciar a fase dos sambas-canções, inaugurada oficialmente com "Marina" (1947), Caymmi foi chamado de "decadente" por críticos que consideraram que o compositor solar estava sucumbindo ao ambiente esfumaçado das boates. Ela também teve como fonte de material o vasto acervo pessoal do avô, do qual é guardiã (organizou tudo por ocasião da confecção da biografia e se deu ao trabalho de fazer cópias de papéis degradados com o passar das décadas, a fim de preservá-los). A linguagem de "Caymmi e a Bossa Nova" é acadêmica; no entanto, Stella é jornalista, então seu texto é acessível. Caymmi vai fazer no lançamento da obra nesta terça, no lançamento, mas, juntamente com a mulher e a filha, Nana Caymmi, mãe de Stella, ele compareceu à defesa da dissertação que deu origem ao livro, emocionando a banca e a todos os presentes. Nana até cantou "Acalanto". "Foi um acontecimento na PUC. Ele era muito orgulhoso do meu trabalho, e dizia que precisava me consultar quanto à própria vida", lembra Stella Caymmi, cheia de saudade.