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ILUSTRADO
Sábado, 20 de Junho de 2015, 13h:09

MÚSICA

Linha Dura completa 20 anos no Rap

O menino que vendia fruta na rodoviária hoje é a expressão do movimento Hip Hop mato-grossense

BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
Ele é Linha Dura, nome de caminhada do rapper Paulo, que há 20 anos recebeu esse apelido pelo movimento que traçava nas ruas com ações diretas com comunidades da periferia. Parceiro de monstros do Rap brasileiro, como Mano Brown, Lele - Di Função e Dexter, hoje ele é a força motriz da REC – Rede de Empreendedores Comunitários, em Cuiabá, que é uma incubadora sem fins lucrativos com a intenção de gerar sustentabilidade para pessoas que trabalham sua criatividade. Sendo Hard Line em sua essência poética ele movimenta seu estilo toda noite de sábado no “Encontro Hip Hop na REC”, que acontece no bairro São João Del Rey. “Esse apelido vem de um movimento chamado Hard Line (Linha Dura). Foi um batismo que recebi das ruas, na época que estava envolvido em ações diretas. Nessa época lia muito sobre Mariguella, Lamarca, como praticar algumas desobediências civis. E foi numa dessas ações que os parceiros começaram a me chamar de Linha Dura. Aí ficou e levei o nome para o Rap”, conta o artista. Linha Dura anda meio sumido com eventos em Cuiabá, pois além de estar focado nas ações sociais está na produção de seu novo disco. Suas aparições são esporádicas, em acontecimentos comemorativos da cidade, quando o movimento Hip Hop é convidado para entrar em cena. Até pouco tempo o Rap tinha uma conduta mais de protesto e embate e agora rege vários temas e assuntos, sobre mulher, principalmente, de que pouco falava. “Se eu fosse passar a minha licença poética de arte na vida não caberia. É aquela história: tudo posso, mas nem tudo me convém. Querendo ou não tem os limites entre ficção e realidade”, ressalta o rapper. Com o trabalho sempre autoral foi a partir de 1995 que ele iniciou sua carreira no Rap, tendo a necessidade de falar com a “quebrada”, expressão que ele utiliza para citar os moradores de bairros menos abastados da capital mato-grossense. Que é falar para a comunidade da periferia, com a cultura de ouvir o Samba, o Rasqueado, o Rap e não o Rock, de onde Linha Dura começou a cantar, como Paulo, num vocal já “rapiado”, ou melhor, com a pegada do Rap. No Rock ele falava para uma cena restrita, não muito diferente hoje, e então decidiu ir para o Rap. Tanto que tem músicas que o artista mistura o Rap com o Rasqueado, com o Siriri e Cururu, na música “Tchapa e Cruz”. Também engaja no jazz com o Funk James Brown com a música “Lembrei de Você”, além do ritmo erudito, com orquestra pura em “Sentimento Reflexo”, gravado em 2007. Com Sentimento Reflexo, Linha Dura fez show junto com a Orquestra Sinfônica da UFMT, no bairro Pedra 90, em Cuiabá. Antes disso, em 2001, ganhou o prêmio nacional “Abril Pro Rock”, em Sobradinho, Brasília, que lhe rendeu a gravação de seu primeiro CD, com material produzido também em São Paulo, com os produtores Jamaica e W. Jay (ex integrante do grupo SNJ). Mas este fruto nunca foi lançado, por problemas burocráticos com a gravadora. Hoje tem apenas um CD virtual e algumas composições single disponíveis gratuitamente na internet na página de trabalho www.linhadura.tnb.art.br. O rapper já abriu shows e cantou junto com Charlie Brown Júnior, dividindo o mesmo palco com o saudoso Chorão, também Planet Hemp, Racionais, Nega Gisa e MV Bill. Entre os anos de 2012 e 2013 morou em São Paulo, onde caminhou com trabalho alinhado ao Lele- Di Função, que faz parte da família do grupo Racionais, de um bonde de pelo menos 50 integrantes que tem a mesma filosofia, forma de pensar e ver as coisas. Foi um momento importante na carreira de Linha Dura, quando sua visão do Rap foi ampliada e trouxe a expressão “Vida Loka”, criada por Lele e Mano Brow, com quem também conviveu e cantou na cidade da garoa. Ele fez parte do projeto musical “Ritmo da Vida Loka”, realizado em São Paulo, com Di Função. Antes mesmo desta empreitada, em 2004, ele fundou a Cufa – Central única das Favelas, no Mato Grosso, onde desenvolveu inúmeros projetos sociais, festivais de música e oficinas culturais dentro do Complexo Socioeducativo Pomeri. Experiência que desencadeou uma forte liderança com as comunidades de baixa renda e, em 2010, lidera uma ocupação, junto com mais 60 pessoas, e cria o bairro “Villa Todavida”, num pedaço de terra dentro do bairro São João Del Rei. Período em que o rapper se aprofunda nos assuntos de direito a moradia, terra e sua função social e econômica. Agora Linha Dura sobrevive da música, com sua própria infraestrutura prestando serviço de aluguel de equipamento de som, recebendo cachê de apresentação artística junto do DJ Draw, com a confecção e venda de camisetas, também com arte autoral pela marca “Toda Vida Correria Wear”. Mas toda esta atitude não veio por um acaso. Para chegar até onde está Paulo Fagner da Silva Ávila (34), nome de batismo de Paulinho, chamado assim somente pelos familiares, ou em casa, por sua esposa e três filhos (um menino e duas meninas), começou vendendo frutas na rodoviária de Cuiabá, aos 11 anos de idade. “A partir daí nunca mais pedi dinheiro para ninguém e foi só trabalhar. Com frutas criei meu próprio negócio e aos 13 anos já tinha quatro funcionários que vendiam para mim”, lembra Linha Dura. Ali começava a luta, apesar de sua veia artística vir desde os sete anos, quando ganhou seu primeiro trocado fazendo teatro de bonecos com a tia Maria Joana, no Sesc. A música “O Caminho da Resistência”, conta bem sua trajetória, da infância, adolescência, da mãe, dos amigos que morreram e várias “fitas” e começa assim: “Então aqui é minha comunidade Alvorada, essa rua aqui é a Maracajú, a rua de casa, agora até que tá legal, antes o esgoto tava a céu aberto mó embaçado ó. Até que chegou o ano da política aí um político pra conseguir voto arrumou a rua...”. Então suas músicas falam do que leu, ouviu, viu e imaginou. Tem histórias de outras pessoas que compôs junto, como a “Sentimento Reflexo”, que é com o amigo chamado “Fissura”, ex-usuário de pasta base, que conta uma experiência e Linha Dura junto dele compuseram e depois interpretou.

Edição EDIÇÃO 16967




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