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Cuiabá MT, Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 11 de Maio de 2013, 12h:09

A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA

Lebrinha: Desbravando, Construindo e Contribuindo para o futuro de Mato Grosso e Cuiabá

Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá Ilustrado
Sebastião Silvério de Almeida não era cuiabano de nascença. Veio de Jacarezinho, no Paraná, onde nasceu no dia 19 de julho de 1915 tendo chegado a Cuiabá no ano de 1952, quando a cidade ainda “engatinhava”. É consabido que os homens felizes são aqueles que têm que fazer coisas que gostam de fazer. Sebastião Silvério de Almeida tinha que trabalhar e trabalhou muito, com gosto e dedicação. Foi um homem feliz, por isso mesmo. Os leitores, muitos deles, até agora não estão sabendo quem é Sebastião Silvério de Almeida. Vamos facilitar as coisas: o nosso focalizado de hoje é o grande benfeitor cuiabano Lebrinha, aquela figura que mesclava entusiasmo com alegria e bondade. Aventureiro por excelência, formava legião de amigos por onde andava, sempre à procura de sonhos que materializava com muita dedicação e trabalho. Para fazer esta matéria fomos atrás do seu filho Adalberto Lebrinha Carvalho de Almeida, próspero empresário cuiabano e que é o único filho de Sebastião Silvério registrado como Lebrinha. Como é natural nos filhos de antigamente, Adalberto é ardoroso fã de seu saudoso pai Sebastião Silvério e fala sobre ele com grande emoção, admiração e respeito. DC ILUSTRADO: Fale-nos do seu pai, o chefe maior do clã Lebrinha. ADALBERTO: Papai era um aventureiro corajoso que perseguia com garra todos os seus sonhos. Ele pressentia os acontecimentos e chegava na frente. Acho que ele nunca gostou, apenas, de testemunhar os fatos; queria ser protagonista da história, e se você me permite, conseguiu isso em quase todas as suas iniciativas. Foi um líder pelo qual nutrimos, eu e meus irmãos, eterno amor filial. Meu pai foi exemplo de vida e recorremos aos seus ensinamentos para superarmos eventuais momentos de dificuldades. Papai chegou em Cuiabá em 1952 com a finalidade de conhecer as terras que comprou da empresa Cruzeiro do Sul. Já era casado com minha mãe Eliud Carvalho de Almeida, mas a transferência de toda a família somente ocorreu em dezembro de 1955. Com minha mãe Eliud tiveram sete filhos: Gilberto, Edilberto, Roberto, Adalberto Lebrinha, Alberto, Miriam Aparecida e Humberto que é o único cuiabano nato da família. Os demais somos filhos por opção do bem querer, pois, todos amamos Cuiabá de paixão. DC Ilustrado: E o que o Lebrinha fazia no Paraná antes da mudança para Mato Grosso? ADALBERTO: Papai possuía uma empresa de ônibus que explorava o transporte coletivo no norte do Paraná. Uma frota modesta, de cinco ônibus, mas apta para impulsionar o negócio. Nessa época aproximou-se do célebre governador Moisés Lupion, tornaram-se compadres e ele ingressou na política elegendo-se vereador e presidente da Câmara de Jacarezinho. Não se deu bem com a política e, por isso, empreendeu o projeto de mudança a exemplo de centenas de paranaenses que vieram criar o novo Mato Grosso. DC Ilustrado: O sr. se recorda da primeira ocupação de seu pai em terras mato-grossenses? ADALBERTO: Olha Evaldo, o papai sem nunca ter mexido com borracha foi ser Chefe de Seringal nas terras da própria empresa Cruzeiro do Sul, cujo proprietário era o sr. Henrique Bolarigno se não me engano. Depois, com o conhecimento que adquiriu no nortão do estado foi corretor de imóveis e trabalhou como mecânico. A família sempre esteve em primeiro lugar dentre as preocupações dele. Em parceria com o saudoso Prefeito João Batista de Almeida, de Diamantino, o meu pai construiu a estrada até Itanhangá e abriu a gleba Itanhangá,(antiga baiana), hoje transformada em cidade. Vê-se que não só o início foi marcado por muito trabalho. Toda a vida do Lebrinha foi laboriosa e produtiva. DC Ilustrado: Essa história de desbravadores é verdadeira ou a turma do Paraná veio só para enricar? ADALBERTO: Sinceramente acho que o nosso Mato Grosso deve muito ao trabalho dos sulistas, os paranaenses à frente. Para você ter uma idéia, o Sebastião Silvério pegou vinte e sete malárias nesse enfrentamento com o sertão bruto. Não bastava ter saúde; era preciso ter coragem. Vou lhe confidenciar uma coisa: se fossemos somar os hectares que o papai abriu a muque, na época de sua transferência para Mato Grosso, ele hoje pegaria prisão perpétua... sorri Adalberto. DC Ilustrado: Alguma experiência com a navegabilidade nos rios do norte? ADALBERTO: Sim, como o papai conhecia todo o nortão de Mato Grosso, como a palma da mão, ele resolveu criar alternativas de transporte por via fluvial. E começou pelo rio Sumidouro, na divisa entre as bacias platina e amazônica, passava pelo rio Corre-água e depois vinha para o rio do Sangue onde então a borracha extraída era embarcada nos caminhões. DC Ilustrado: Outros investimentos no sertão? ADALBERTO: Papai abria frentes diversas para atender o seu espírito aventureiro. Instalou postos de gasolina em Rosário Oeste, Nobres, Posto Gil e Sucuruina (hoje Parecis). Houve uma época em que suas atividades empresariais englobavam Postos, Hotel, Fazenda em Barra do Bugres e revenda de cerveja. DC Ilustrado: Hotel? O Lebrinha explorou o ramo hoteleiro? ADALBERTO: De fato, o papai arrendou dos irmãos Filogônio e Bráulio Ribeiro, o Hotel Alvorada na rua General Valle que inclusive hospedou Pelé e o Santos quando o time paulista esteve em Cuiabá. E tem mais como curiosidade histórica: o sr. Lebrinha construiu, nos fundos do Hotel Alvorada, na rua Miranda Reis, (rua da Caridade), a primeira Estação Rodoviária de Cuiabá. Os ônibus, das mais diversas empresas, partiam e chegavam em Cuiabá dessa improvisada estação rodoviária. Mas não era tão ruim assim: possuía bares, lanchonetes, toaletes e até serviço de alto falante avisando os passageiros da saída e chegada dos coletivos. DC Ilustrado: E a revenda de cerveja? ADALBERTO: Antes da cerveja o meu pai comprou o Armazém Popular, ampliou o negócio num pequeno atacado e, em 1967, transformou a empresa em Distribuidora de Bebidas Lebrinha Ltda. e fez história por vários motivos: primeiro, pela sua duração. Foram 33 anos de muito, mas muito trabalho mesmo, com caminhões, gelo, bebidas etc.; segundo, tornou-se a maior revendedora da cerveja Antarctica no Brasil pois atingia com entregas todo o norte de Mato Grosso; terceiro, trouxe chop para Cuiabá para ser servido nas festas. Esse produto vinha diretamente de Londrina, no Paraná, e era adquirido junto à Londrina Chop. Não é sem uma ponta de orgulho que dizemos que o chop foi trazido a Cuiabá pelo nosso patriarca Lebrinha. Devo esclarecer que durante muito tempo, numa concorrência acirrada, mas respeitosa, papai disputou o mercado de cerveja em Mato Grosso com o saudoso sr. João Pinheiro. O Lebrinha vendia a cerveja Antarctica e o sr. João Pinheiro vendia a Brahma Chop, hoje ambas pertencentes ao grupo Ambev, já sediado em Cuiabá. Antigamente, conforme o povo ensinava, “o sol nascia para todos”, e o premio do sucesso vinha para quem trabalhasse mais e melhor. Os empresários de antigamente possuíam uma ética de não agressão, pois sabiam que brigar não era solução para qualquer problema. DC Ilustrado: Mas existiu, também, a Distribuidora Caçula, de saudosa lembrança. ADALBERTO: A Caçula foi um apêndice da revendedora Lebrinha e foi pilotada exitosamente pelo meu irmão Edilberto. Quando as fábricas chegaram, o Edilberto teve que fechar as portas pois não poderia competir com os fabricantes. DC Ilustrado: E a história da água Lebrinha? ADALBERTO: É longa e muito complicada. Localizada a fonte em Chapada dos Guimarães, foi inaugurada em 1984, e a fonte é denominada Bica das Moças. Essa fonte fica a uma profundidade de 350 metros e é protegia por uma extensa camada de material argilo-siltoso e arenoso fino, mantendo-se protegida por um filtro natural. Depois de captada, a água passa por um sistema de tubulação de inox que possui filtros capazes de eliminar qualquer resíduo sólido, deixando a água pronta para o consumo. Visando a conservação do local, a mata onde está localizada a nascente foi totalmente reflorestada. Levamos 10 anos, mais ou menos, para a obtenção do respectivo registro. É que o nosso pedido coincidiu com as mudanças do DNPN – Departamento Nacional de Produtos Minerais -, e CPRM – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais -, do Rio de Janeiro para Brasília. Tivemos que pedir até mesmo a ajuda do General Dilermando Gomes Monteiro, que é tio da minha mulher, para agilizar a transferência desses órgãos. DC Ilustrado: A história do Lebrinha merece a publicação de um belo livro, pois não Adalberto? ADALBERTO: Então vai lá o furo de reportagem: estou escrevendo um livro sobre a Cuiabá de antigamente, o papai e a nossa família. O tema é fascinante e espero conseguir uma narração que corresponda com a fidelidade dos acontecimentos. DC Ilustrado: Dizem, todos que conheceram Lebrinha, que ele era “mão aberta”. ADALBERTO: Papai sempre gostou de ajudar as pessoas que recorriam a ele. Talvez por isso sempre tinha bons retornos de suas iniciativas. Mas ele também gostava de fazer filantropias. Por exemplos: reuniu alguns amigos, fez algumas quermeses e ajudou a construir a Igreja Mãe dos Homens, na Praça Santos Dumont. Doou o terreno e ajudou com os companheiros a construir a sede do Rotary Clube de Cuiabá Bosque. Doou à Prefeitura o terreno onde foi construída a Policlínica da Vila Santa Isabel. No dia da inauguração, como o Prefeito colocou na policlínica o nome dele, ele pediu: falta colocar ao lado de Sebastião Silvério a palavra Lebrinha, pois é esse o meu verdadeiro nome. E foi acrescentado o Lebrinha!... DC Ilustrado: Com tantos bons serviços e com uma vida exemplar faltaram as homenagens? ADALBERTO: Acho que não. Papai recebeu o título de cidadão cuiabano. Ganhou do Rotary a homenagem de Rotaryano do século XX e recebeu, também, o título de Cidadão Mato-grossense. A propósito, por ocasião do recebimento da cidadania mato-grossense, na mesma sessão da Assembléia Legislativa o sr. André Maggi, pai do senador Blairo Maggi, também foi contemplado com o título. O senador, então governador, disse ao papai: “fale você, Lebrinha, em nome dos agraciados”. E o Sebastião Silvério levantou-se para discursar e disse, inicialmente: ”Eu sou tão antigo que sou do tempo em que lebre falava”. Foi só risada da plateia. DC Ilustrado: Fale-nos do sr. Adalberto. ADALBERTO: Estou bem e sabendo administrar dá para tocar a vida. Sou casado com a Regina Rondon de Almeida, temos dois filhos maravilhosos: Stella, formada em Direito e gastronomia e Daniel, cineasta com vários cursos em sua área. Nesse quesito a nossa tarefa está completa. Dos amigos de infância e juventude recordo-me do saudoso Dante, Floriano, Geraldo Prado, Silvio Hans, Daisy e Elizabete Herane, Mira Biancardini, Nelson, Cervantes Caposossi... Desde criança sempre fui muito unido com o meu irmão Roberto e nos tornamos sócios em muitos empreendimentos. Ultimamente, como a concorrência com água mineral está muito forte, deixei a Água Lebrinha apenas com o Roberto e ficou mais fácil para ele dirigir a empresa sozinho. Conclusão: Sebastião Silvério de Almeida, o saudoso Lebrinha, faleceu em Cuiabá aos 89 anos, em 1985. Trabalhou tanto e ajudou tanto as pessoas e entidades que se tornou pessoa querida em toda Cuiabá e Mato Grosso. Aventureiro audacioso e empreendedor perspicaz, deixou um legado imperecível à bonita família que construiu com a esposa, guerreira e amiga Eliud. Mato Grosso no geral e Cuiabá, especialmente, têm uma dívida de gratidão com Sebastião Silvério de Almeida Lebrinha que estamos proclamando hoje com esta homenagem.

Edição EDIÇÃO 16956




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