Durante muito tempo se discutiu a famosa engenharia de tráfego adequada a Cuiabá dos meus amores. Disque fulano de tal, que era não sei o que, vindo lá não sei de onde, traçou o esquema daquele jeitinho. Baixou o facão por ali banda do Barcelos e rasgou um picadão que foi dá lá pra donde o Judas perdeu as botas. Pegaram aquele povo que vivia ali no caminho da perdição do Beco da Lama e soltaram os infelizes lá pra banda daquele barranco vermelho onde escorrega lá vai um. Nesse entrevero aproveitaram para rasgar o beiço das ruas e a barbela de rio. Correram com todos aqueles peixinhos que a gente cevava ali na beira do sarã da ponte. O rio ficou destampado igual vitrine de boutique. Ali no Porto teve gente que empacou e fez até promessa para não deixar a barranca do rio. O povo ali de cima caía na risada quando a coisa passava no horário nobre da TV. Nada como um dia após o outro. A copa pantanal chegou para enquadrar os risonhos e nivelar o público. A marvada veio de cima pra baixo atropelando tudo. Comprou meio mundo só pra sair por ai falando que era coisa boa. Encheu o nariz de folha do povo dizendo que dinheiro não ia faltar. Agora vem dizer com a cara limpa que não tem uma tetémeia pra indenizar o povo. O mandato de desapropriação não perdoa ninguém. Histórias de famílias inteiras vão alisar as lâminas dos tratores e fazer poeira para gente fina ver. Tudo por amor ao peladão das estrelas. Ninguém quer saber se vale à pena ou deixe de valer?! A questão é que a cidade precisa crescer e para isso faz um remanejamento social. Mexe com quem tá quieto. Tira, estica, faz e acontece. A comissão técnica pretende manter um time totalmente ofensivo para aplacar a ira da torcida. O centro-avante é um tal danado para passar melado no beiço do povo. Pela rebarba direita um tal metido a colocar tudo abaixo e pelo lado esquerdo o famoso come quieto. O meio de campo é formado pela equipe levado a breca. Acostumado a rasgar tudo no bico da chuteira. Na zaga tem a dupla de zagueiros dinamite e nitroglicerina, ambos conhecidos pelo alto poder de destruição. Na cozinha, um descendente direto do próprio Jack Estripador. O time foi escalado pelo professor risca faca. No meio dessa cena de sangue o torcedor aguarda para ver o time de pernas de paus que virá pra cá. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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