ILUSTRADO
Sábado, 02 de Março de 2013, 11h:09
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RESENHA
Horrores da guerra e insanidades humanas
Causa espanto a forma como o escritor português Lobo Antunes consegue atirar o leitor no meio do redemoinho sem sentido que é uma guerra
Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Alguns livros são tão lúcidos que incomodam, causam desconforto e dor nos leitores. Este é o caso de Os cus de Judas do escritor português António Lobo Antunes, classificado pela crítica como o centésimo melhor livro de literatura do século XX. Cortante, afiado e ácido como a guerra. Assim são construídas as 241 páginas de um dos melhores relatos que já li sobre os horrores da guerra e sobre a insanidade humana perante a morte sem sentido de uma batalha. Antunes consegue mostrar que a guerra é mais do que pequenos pontos coloridos no mapa. Para melhor compreender a linha de raciocínio do escritor, acabei lendo a obra três vezes em menos de um ano e, em todas às vezes, senti o mesmo mal estar causado pela clareza com que Antunes trabalha as ideias. Fiz uma primeira leitura sem me preocupar muito com o conteúdo da obra e com o contexto tratado pelo autor. Buscava saborear, degustar e me extasiar com cada uma das frases construídas de forma proposital para tomar o leitor de assalto. Gastei um bom tempo tentando entender o sorriso enigmático de um Buda de patins. Me perdi imaginando como seria a doce amargura de um anjo bêbado. Tentei, por várias horas, sentir as sílabas de algodão se dissolverem nos meus ouvidos, mas só conseguia escutar vozes de gaze. Depois de algum tempo me dei conta que os vegetais não possuem menopausa e por mais que lutasse não conseguiria compreender o verdadeiro significado de uma menopausa vegetal. Lobo Antunes consegue brincar com as palavras e criar frases que conseguem mexer com o leitor. Uma obra que faz o leitor pensar. Um livro capaz de nos tirar do ostracismo diário. Causa espanto a forma com que Antunes consegue jogar o leitor no meio do redemoinho sem sentido da guerra e ao mesmo tempo trazê-lo de volta à realidade com um pensamento direto, profundo e destruidor de conceitos como o fato de que muitas pessoas jejuam na páscoa a fim de baixar as gorduras do sangue. Uma obra que nos permite ter a visibilidade dos fatos. Nas linhas bem construídas o leitor é jogado de um lugar para outro em frações de segundos. Somos tirados da bestialidade da guerra e transportados para a infância. Com um pouco de sensibilidade somos capazes de sentir o cheiro da primeira chuva batendo na terra seca e nossa alma se turva ao lembrar como é triste a chuva num recreio de colégio ou como a ternura reprimida por muito tempo pode trazer no final o gosto amargo do remorso. Nenhum autor que eu tenha lido consegue com tanta maestria conduzir o leitor por terras tão insólitas e não deixá-lo morrer de fome ou sede. Nas páginas do livro é possível sentir a carne sendo rasgada por um estilhaço e perceber a voz perdida de um náufrago em terra firme. No decorrer da obra conseguimos perceber que a infância não pertence a nenhum de nós e que o silêncio hoje, só é possível carregado de ruído causado pela morte agonizante dos que tombaram nas batalhas insanas que possuem a capacidade de transformar as pessoas em bichos cruéis e estúpidos. Não se assuste, amigo(a) leitor(a) se no decorrer da leitura sentir a melancolia de guindaste ou se a força do relato feito por Antunes obrigar a vista a tropeçar até cair de costas. É apenas o início de uma angústia cremosa que vai te levar até o peso insuportável da própria solidão. Nas entrelinhas da obra temos a tranquila paciência das estátuas quebradas pelo barulho de um resto de rio que teima em agonizar em gargarejos de intestinos. Não é possível ler Os cus de Judas e não se deter alguns minutos, horas e por que não, dias pensando na mais transparente e lúcida descrição do verdadeiro significado da guerra para quem vai e para quem fica. Antunes (2003, p. 122) defende que éramos peixes, percebe, peixes mudos em aquários de pano e de metal, simultaneamente ferozes e mansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos nos caixões da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a bandeira nacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha de identificação na boa no intuito de nos impedir a veleidade de um berro de revolta. Contaminado pelo clima de guerra, Antunes pode ser considerado uma metralhadora aberta. Sua lucidez atinge os políticos. Os verdadeiros causadores da guerra. Vagabundos que ficam sentados no próprio rabo, roubando o povo e a nação para saciar estúpidos desejos de grandeza e ganância. Depois de tudo o que viu e viveu em Angola Antunes (2003, p. 148) explica onde ele mesmo se situa em todo este emaranhado de intrigas: parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstrato e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos de protesto e revolta. O AUTOR António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942 e é hoje, um dos autores mais prestigiados de Portugal. Lobo Antunes é médico psiquiatra e entre 1970 e 1973, fase final da guerra colonial portuguesa, esteve em Angola, tema de vários livros que escreveu. Em 1980 após o lançamento de Memória de Elefante, abandonou a medicina e passou a se dedicar exclusivamente à literatura. *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista em Campo Grande (MS) e colabora com o DC Ilustrado