NA HORA
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Cuiabá MT, Domingo, 21 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 30 de Novembro de 2013, 12h:57

CRÔNICA

Grafologia

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
A letra dele mudava sim, conforme o humor. Podia fazer vários tipos de escritas, conforme fosse o horário, conforme estivesse vestido. Num sol da manhã, por buracos de um tipo de tijolo que deixava frestas no enorme corredor, parecia um cenário com bolas de sabão surgidas pelo reflexo dos raios solares saindo dos buracos do tijolo. Nesse cenário ele caminhava com uma garota. Iriam até a biblioteca da universidade, entregar livros que haviam emprestado. A garota, poderia-se dar-te um nome, mas, até agora não se sabe qual, não se sabe mesmo quando a memória torna-se invenção. O que resta é dizer que ela tinha um livro sobre o estudo das maneiras como se escreve. Mudança de letra poderia ser mudança de personalidade. E ele, logo ele, que se considerava tão rígido. Ambos discutem um pouco sobre a letra dele, essa mudança. A garota, ainda insiste, até parece que sua letra muda tanto. E muda mesmo. Você faz de propósito. Não, não sei. Quais livros você emprestou? Insolação: “Digo-lhe com toda a honestidade que não sou nem um pouco como a pessoa que talvez imagine que sou. Nunca me aconteceu nada nem mesmo remotamente parecido com isto, e jamais acontecerá de novo. Devo ter perdido a cabeça. Ou então nós dois tivemos algum tipo de insolação.” E um outro livro de contos de um escritor que eu gosto, chamado Caio: “à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pelos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil “. E eu tentando estudar sua letra. Vamos entregar? Eles entraram na biblioteca, entregaram os livros. Ainda pensaram em comprar um café. Em cidade inferno-quente se toma muito café? Isso é verossímil? É possível, só que não tomaram. Saíram pela porta de vidro e o sol fazia reflexos nos olhos dos dois. Já devia ser hora de voltarem para casa. A garota viu o ônibus dele chegando. Olha lá, seu ônibus que demora muito para passar, o 306. E a garota saiu correndo, gritando para o ônibus parar. Ei, eu não vou embora agora. Ele não queria ir embora naquela hora. Mas, o ônibus demora, depois você reclama e vai embora andando. Eu gosto de andar. Você é esquisito. Eu gosto mesmo de andar. Vive mudando a letra e na hora em que vou fazer uma gentileza de parar o ônibus, não vai embora? Por que isso? Por que eu não quero ir ainda e vou depois que você for. Eu já estou indo. Então, depois que você for, eu vou. Por que isso? Você vai pegar o seu coletivo aqui ou na avenida? No ponto de lá. Então, vou até lá contigo. Por que isso? Eu gosto mesmo, mesmo, de andar. Vão caminhando em um sol de quase-meio-dia. Não se dá mais para falar em reflexos nos olhos, mas em gotas de suor. No meio do caminho havia um bosque, ou era uma vez um floresta, e há um esforço de quem escreve este conto que você lê, para fazer parecer que é escrito por uma jovem, uma adolescente, ou uma estudante universitária. Então, insiste no bosque. No meio do caminho, como um oásis ( há um esforço para ser vulgar) e os dois sentam-se em um banco de madeira, embaixo de uma árvore. Conversam sobre o cabelo, como deveriam cortar o cabelo: com estilete deixa mais grosso. Não é com vidro, que fica? O quê? Mais grosso. Sim, é, acho que vidro deixa mais grosso, corta com estilete então, vai cortar como? Não sei, acho que da mesma forma, mudar o cabelo não me agrada. Você deveria fazer a sobrancelha. Pra quê? Sei lá, quer que eu faça agora? Não. Deixa eu fazer? Não. Eu tenho pinça com a ponta dourada na bolsa. Não. Por favor, vamos ver como fica, se ficar legal? Não, mesmo. Acho que garotos não fazem a sobrancelha. Vai, deita no meu colo e eu tiro, nem dói. Ele deitou no colo da garota, ainda fazia muito sol, ela começou a tirar os pêlos perto dos olhos dele. E, talvez, ele tivesse prestado atenção que respiravam próximos um do outro e que fazia muito calor. A garota poderia suar e poderia pingar nele o suor. Ela tinha cheiro de baunilha, ou livro novo. Ele não sabia ao certo, mas era um bom cheiro. Ele pensou que esse tipo de troca, de suor de outra em sua pela, não era o que estava interessado em ter nesse mundo. Para. Doeu? Sim. Mas, agora preciso terminar. Depois. Você vai embora assim? Sim. Com uma parte apenas feita? Qual o problema? E no bosque do meio do caminho apareceu um rapaz (extremamente vulgar) do tipo bonito, do tipo que as mulheres gostam de olhar, do tipo barba por fazer. Era conhecido dela e este diz oi, dá beijos e pergunta: atrapalho vocês? Os dois se olham e dizem: como assim? Sei lá, vocês estavam aqui namorando, eu atrapalho? Não. Não. Não somos namorados. É não somos, somos amigos. É somos amigos, estávamos conversando. O rapaz bonito riu, disse que só não queria atrapalhar, viu que eles estavam juntos, Ele deitado com a cabeça no colo da outra e que, enfim, pensou o quê qualquer um pensaria. Depois o bonito foi embora, antes convidou para uma peça de teatro em que seria uma espécie de rei grego, desceria girando em lençóis, era um experimento, haveriam performances. Os dois resolveram sair do bosque que já era hora de voltarem para os seus lugares. Foram em silêncio, com os braços cruzados sobre o peito, até perto do ponto, quando a garota, que com uma das mãos segurava um cordão da mochila dele, disse: seu ônibus novamente, o 306, mas agora não vou chamar. Tudo bem se eu perdê-lo, não estou com pressa. Nem eu. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16967




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