O nome dela era Glorinha. Prostituta de ofício. Rondava as ruas do centro de Cuiabá. Buscava clientes da Joaquim Murtinho até a Avenida Getúlio Vargas. Pegava firme no batente. Sem trocadilho. Henrique era palhaço. Profissional do riso de um circo itinerante. Ele se dizia clown. Fazia rir sem esforço. À noite divertia-se nos becos procurando saias onde se enfiar. Glorinha adorava motéis. Só que o meretrício não a levava ao prazer. Uma noite, encontrou um palhaço. O divertimento no circo foi o apogeu de um dia opaco. Henrique encantava as crianças. Conquistava as famílias com a precisão do ritmo de uma bela piada. Mas, o amor não encontrava. Um dia seus olhos encontraram uma morena. No circo instalado no CPA II, encontrou Glorinha. Uns risos, uns beijos, sexo com orgasmo. Os clientes se multiplicavam porque Glorinha tinha um amor. A vida prosseguiu com um romance a embalar. Glorinha sorria, contudo parecia triste. Henrique adornava o corpo da amante com a tinta do seu rosto. Desenhou uma lágrima em sua face. Porque se esqueceu de como retratar um sorriso. O circo iria embora, a vida devia prosseguir. Glorinha soube da notícia. Desespero. Lembrou-se que a prostituta finge felicidade quando está triste. Enganou a si mesma tão bem, que se esqueceu de que o amor um dia acaba. É fogo-fátuo. Como se despedir de Henrique? Henrique não sabia como dar a notícia. Angústia. Recordou-se que o palhaço finge alegria quando está triste. Iludiu-se com tanta convicção, que se esqueceu de que o amor um dia morre. É fogo-fátuo. Como se despedir de Glorinha? O circo fez a última apresentação. Glorinha não compareceu. Henrique combinou encontrá-la na Praça Alencastro. Faltou ao compromisso. Subiu no caminhão e se sentou ao lado da trapezista. Partiu à meia-noite. Glorinha esperou até às duas da manhã. Depois fingiu que um cliente a amava loucamente. *Conto de Wuldson Marcelo que faz parte do seu livro Subterfúgios Urbanos, lançado na última sexta-feira (22)