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ILUSTRADO
Sexta-feira, 09 de Fevereiro de 2007, 19h:45

FESTIVAL

Filmes brasileiros em Berlim

O evento cinematográfico começou na quinta-feira e terá a participação de quatro filmes brasileiros, pelo menos um com chance de ganhar o Urso de Ouro

Luiz Carlos Merten
Agência Estado – SP
Apesar do frio e da chuva que transformam o Festival de Berlim num evento muito mais de "interiores" do que de badalação externa, a Berlinale não deixa de estender seu tapete vermelho, pelo qual desfilam, muitas vezes desafiando as intempéries, belas mulheres ostentando generosos decotes. Berlim estendeu o tapete para Marion Cotillard e o diretor Olivier Dahan, que inauguraram o evento deste ano com "La Môme - Vie en Rose". Ícone musical da França, Edith Piaf, que os franceses chamavam carinhosamente de "La Môme", cantava aquelas canções dilaceradas que não deixavam de expressar sua complicada vida amorosa. Dalva de Oliveira fez de "Hino ao Amor", um dos grandes êxitos de Piaf, um marco no seu repertório romântico. O amor, primeiro, mas, desde ontem, o Festival de Berlim retoma sua vocação política, exibindo uma seleção de filmes que vai colocar na tela do moderníssimo Palast localizado em Potsdamer Platz - a terra de ninguém onde, no passado não tão distante, se erguia o Muro de Berlim -, o que há de mais representativo no cinema de todo o mundo. Considerado um dos três maiores festivais de cinema do planeta, o de Berlim é o primeiro - Cannes arma seu circo só em maio e Veneza espera pelo fim do verão europeu, no começo de setembro. Até para garantir o interesse midiático, a Berlinale não deixa de prestigiar o cinemão e traz a Berlim astros e estrelas de Hollywood, muitos deles em plena disputa do Oscar, que se realiza no domingo, dia 25. O Festival de Berlim termina uma semana antes, dia 18. O glamour, sim, mas responsável, com predominância de temas humanísticos e/ou políticos, que são radicalizados em eventos paralelos, tão ou até mais prestigiados que a própria competição pelo Urso de Ouro - Fórum, Panorama e a mostra da juventude, generation 14-plus. Para o Brasil, o 57.º Festival de Berlim antecipa-se excepcional, com nada menos de quatro filmes distribuídos pelas diferentes seções do festival. "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, será o candidato brasileiro ao Urso de Ouro, tentando bisar o feito de Central do Brasil, de Walter Salles, que ganhou em 1998. O Panorama abriga dois outros brasileiros - "Deserto Feliz", de Paulo Caldas; e "A Casa de Alice", de Chico Teixeira. Cao Hamburger já disse que está muito feliz e orgulhoso de concorrer em Berlim. Mas acha que sua presença, lá, não é apenas um reconhecimento ao trabalho que sua equipe e ele fizeram com tanto empenho e dedicação - também é um aval para a força positiva que move o cinema brasileiro atual. Como são quatro filmes, ainda falta um - "Antônia", de Tata Amaral, que estreou ontem nos cinemas do País, praticamente colado à exibição em Berlim. Para Tata, Berlim possui um significado todo especial. Foi lá, mostrando "Um Céu de Estrelas", que ela ganhou projeção internacional, iniciando sua trilogia sobre as diferentes etapas da vida da mulher (juventude, maturidade e velhice) - que encerra agora com "Antônia". Para completar, as garotas da Vila Brasilândia vão realizar, a pedido do festival, um show que será transmitido ao vivo pela TV, para toda a Europa. Berlim lembra os 25 anos da morte de Rainer Werner Fassbinder exibindo a versão restaurada de "Berlin Alexanderplatz". E presta outra homenagem - a um autor que tem a sua cara. Do fim dos anos 50 até o fim dos 70, Arthur Penn foi o mais político dos grandes diretores de Hollywood. Penn denunciou desde o interior, os mitos de uma sociedade que só consegue resolver seus conflitos por meio da violência. O fracasso de público de seus filmes nos anos 80 e 90 o transformaram num cineasta maldito. Berlim lhe outorga, agora, o Urso de Ouro especial de carreira. Seria maravilhoso se Dieter Kosslick, o presidente do Festival de Berlim, tivesse conseguido que Clint Eastwood entregasse o troféu a Penn. Clint estará em Berlim para a apresentação de "Cartas de Iwo Jima" na seleção principal, mas já avisou que sua agenda apertada (por causa do Oscar) lhe permitirá participar de apenas dois eventos públicos - a coletiva para a imprensa mundial e a exibição do filme no Palast A seleção que concorre ao Urso de 2007 mistura veteranos como o checo Jiri Menzel, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, nos anos 60, com "Trens Estreitamente Vigiados", a novos e velhos talentos do cinema mundial. Da França vão François Ozon, André Téchiné e Jacques Rivette; da Itália, Saverio Costanzo; dos EUA, Steven Soderbergh e Robert De Niro (cujo filme "O Bom Pastor" é impressionante, ao falar da criação da CIA). China, Coréia e Dinamarca prometem contribuições importantes. E, fora de concurso, a seleção da mostra principal vai exibir "300", de Zach Snyder, com Rodrigo Santoro; "Notas sobre Um Escândalo", de Richard Eyre, com Judi Dench (indicada para o Oscar de melhor atriz) e Cate Blanchett; o já citado "Cartas de Iwo Jima", do xerife Clint; e "The Walker", de Paul Schrader, que este ano terá a atribuição de presidir o júri que vai outorgar o cobiçado Urso Dourado da Berlinale.

Edição EDIÇÃO 16967




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