ILUSTRADO
Segunda-feira, 02 de Julho de 2012, 21h:05
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RESENHA
Equilíbrio como forma de realização humana
Ítalo Calvino um autor completo: profundo e ao mesmo tempo conciso. Em suas obras busca trabalhar temas atuais, que dizem respeito ao homem moderno
Jacir Alfonso Zanatta
Especial para o Diário de Cuiabá
Enfim um autor que se preocupa com os leitores. Um escritor que mexe com o imaginário, nos convida a criar, a viajar e a sonhar. Conseguiu emplacar dois livros entre os cem melhores do século XX. Ítalo Calvino pode ser considerado um autor completo: profundo e ao mesmo tempo conciso. Em suas obras busca trabalhar temas atuais, que dizem respeito ao homem moderno. O livro é produzido com uma construção narrativa fundamentada no contraste. Pode-se dizer que a função social do livro O visconde partido ao meio é divertir. Calvino comenta em uma entrevista concedida em 1983 que quando escreveu este livro, estava interessado no problema do homem contemporâneo, incompleto e alienado. A brincadeira, como sempre acontece nas obras de Calvino, serve de véu para encobrir discussões de temas mais sérios. A ironia converte-se numa forma de convite para que o leitor medite sobre questões importantes da existência humana. A primeira edição de visconde partido ao meio saiu pela editora Einaudi de Turim, em fevereiro de 1952. Na apresentação da obra, Calvino faz o seguinte comentário: todos nos sentimos de algum modo incompletos, todos realizamos uma parte de nós mesmos e não a outra... às vezes as pessoas demasiado programaticamente boas e cheias de boas intenções, são uns chatos terríveis... penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação. Este é um livro que mostra que cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração. Brincando com o leitor, Calvino mostra que todos nós temos uma natureza dupla, que muitas vezes se vê dividido e desarraigado. O autor consegue com maestria chamar a atenção do leitor, prendê-lo do começo ao fim, sem que as pessoas que se disponham a percorrer as páginas do livro percebam o tempo passar. De acordo com Calvino, esperar é próprio do homem e do homem justo, esperar com confiança; do injusto, com medo. Mais do que mostrar a eterna luta entre o bem e o mal, o que está em pauta é a busca de uma integridade que supere as mutilações impostas pela nossa sociedade. Uma obra que consegue mostrar que os obstáculos nos fazem crescer e nos tornam fortes. O livro que descreve o ser humano como aquele que busca a si mesmo. Angustiado, solitário, humano e desumano, mas acima de tudo revela o sentido da busca: o equilíbrio. O livro consegue mostrar para o leitor que a paz só é possível quando se encontra o equilíbrio. O homem luta contra o homem, busca-se no outro e ainda assim, não se reconhece. Percebe-se por meio da obra que bondade demais, assim como maldade demais não agrada e não cativa ninguém. Servem apenas para afastar as pessoas. Um livro que deixa claro que só as pessoas equilibradas conseguem fazer amigos, ter amigos e o que é mais importante: mantê-los. Também é possível ler este opúsculo observando a eterna luta entre o bem e o mal. Mas Calvino vai além. Ele não se preocupa com estas questões. Para ele o que mais importa é a busca da completude, o equilíbrio e a harmonia. A falta destas questões levam as pessoas à angústia, tristeza, dor e à depressão mal do século XXI. Este livreto é uma lição de como as pessoas buscam paz e harmonia em lugares errados. De como somos desconhecidos de nós mesmos. Uma obra que mostra que todos podem ser bons ou maus, mas que cada um só será reconhecido pelos demais por aquilo que mais deixa sobressair, o que mais alimentar. Esta obra permite uma reflexão sobre o mundo pós-moderno, consumista, onde as pessoas se escondem atrás daquilo que possuem ou consomem, quando na verdade estão se escondendo daquilo que são, por vergonha do que se transformaram. Não se reconhecem e não conseguem se encontrar. Atualmente as pessoas vivem correndo atrás de superficialidades e se esquecem de que o verdadeiro sentido da vida, não pode ser comprado, não pode ser consumido. Está na hora das pessoas perceberem que a felicidade e o equilíbrio não estão do lado de fora, nos objetos, mas fazem parte do interior de cada ser humano. SERVIÇO: CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e colabora com o DC Ilustrado