A capital do Estado jamais testemunhou tamanha efervescência musical. De uns dois anos para cá o movimento erudito alargou-se de forma decidida. Em grande parte, graças às propostas vitoriosas da Secretaria de Estado de Cultura. Assim, que as correntes do choro, da MPB e do rock mato-grossense obtiveram, no cultivo da música clássica local, um parceiro de excelência. Mais uma prova disso foram os dois concertos de estréia e fundação da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de Mato Grosso. Estivemos na Igreja do Bom Despacho, já um reverenciado templo dos músicos eruditos da cidade. No fim de semana passado, o programa da première demonstrou a capacidade acadêmica do novo grupo orquestral. Ouviu-se na abertura, a Serenata para Cordas (de 1902) do brasileiro Alberto Nepomuceno (Fortaleza, 1864 Rio, 1920). Obra cuja primeira audição em Mato Grosso se deveu, na década de 90, ao laborioso regente Fabrício Carvalho da Sinfônica da UFMT. A Serenata constitui-se numa bela obra de caráter eminentemente nacionalista, cujos temas melódicos foram interpretados com seriedade pela juventude sinfônica do Estado. A notícia destes concertos na mídia regional não alcançou expressiva notoriedade. Vez que o público presente à igreja apenas passou de 60 pessoas por noite de apresentação. No entanto, a imponência do evento artístico de fundação desta Orquestra Sinfônica Jovem tem um significado político deveras presente. Tanto que o tema resulta por interessar até mesmo a Secretaria de Estado de Educação. Pois, o novel organismo de difusão cultural beneficiará a Sociedade Mato-grossense como um todo, trazendo mais estímulo ao processo educacional da nossa mocidade. Por outro lado, a paternidade do conjunto é dúplice. Ela pertence aos maestros Murilo Alves e Prof. Anderson Rocha. Murilo vem se notabilizando como uma das maiores promessas da regência em Cuiabá. Discípulo da Profa. Flávia Vieira, ele empreendeu dinâmica a admirável Orquestra de Sopros do Projeto Ciranda. Pois, no ano de 2006 aquele grupo apresentou-se em performances arrebatadoras. Talvez, por ser íntimo do comando daquela big band de poderosa sonoridade e afinação, ainda tenha ele que dominar suas pernas. Explico: Alves regeu a orquestra sinfônica jovem embalado por um certo swing caracterizado pelo sutil bailado rítmico de seu corpo. Por sua vez, o Prof. Anderson tem demonstrado seu afeto pela ciência da educação musical. Ele conferiu minuciosamente todos os detalhes das obras interpretadas: dedilhados, arcadas, frases, diálogos entre naipes. Olha, sem frescura nenhuma, o cidadão é um professor excepcional! A segunda obra foi composta por dois movimentos do Concerto para violão e orquestra do autor italiano Mauro Giuliani (Bolonha,1781 - Viena, 1829). Este compositor obteve grande relevância para o desenvolvimento da técnica clássica do violão. Sendo o mesmo responsável por uma formidável produção de obras para este instrumento em múltiplas formações camerísticas. O violão solo foi do nosso amigo Leonardo Yule. A inspiração deste performer [= concertista] emana naturalmente de Chapada dos Guimarães onde mantém residência. Yule é nobre representante da tradição ilustrada do violão clássico em Mato Grosso. Segundo o nosso compositor cacerense Guapo, nos primórdios Levino Conceição e Gigo, do Conjunto Serenata, inauguraram uma escola de violonistas da qual Leonardo é legítimo herdeiro. Pena, que no concerto de Giuliani não houve amplificação do violão solo, pois ao longo dos tutti [= todos] da orquestra, o instrumento, na prática era varrido do mapa. Na continuidade deste concerto histórico dos quatro movimentos da Sinfonia n.º 25 de Wolfgang Amadeus Mozart -, o público apreciou o primeiro e o terceiro tempo. Essa obra obteve popularidade com o filme Amadeus de 1984, vez que a abertura da película se dá com o misterioso interstício inauguratório sinfônico. Evidente que, por se tratar de uma orquestra de educandos, devemos anistiar alguns incidentes peculiares ao encetar musical daquele grupo. Espelhadas em poucas e raras passagens ríspidas em seu desenlace para com a técnica interpretativa mozartiana típica: a delicadeza elegante e o colorido tonal em finais de frase. Meu saudoso professor de Direito Constitucional da UFMT, Carlos Antonio de Almeida e Mello, o querido Prof. Carlão, dizia em sua cátedra, que não existe crítica construtiva ou destrutiva. Existe crítica, isto é uma hermenêutica da transformação, da mudança. Dessa forma, chamou-nos a atenção um texto, sem autoria, que apresenta a proposta da orquestra no singelo Programa de Concerto. Ali se diz que aquela sinfônica: É o primeiro fruto de uma árvore especial, de raízes profundas e ramos frondosos, por onde hão de passar aqueles espíritos criativos que terão a música como atividade principal. Ora, francamente, o período acima é dotado de profunda contradição. Vez que, na continuidade do aludido texto, se proclama constituir a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado algo de interesse coletivo. Como pode uma nova instituição educativa estadual querer se concentrar, apenas e tão somente, nos estudantes que optarão em ter a música como atividade principal, ou seja, profissional? O questionamento é procedente, quando nos perguntamos sobre a outra parte da sociedade mato-grossense, que igualmente paga impostos. A qual apenas, em hipótese, poderá ter interesse em aprender música clássica para o seu deleite e formação cultural, sentindo assim o prazer único de tocar um instrumento numa orquestra. Serão estes alunos do Estado cerceados por uma igrejinha epistêmica xiita? Não podemos concordar com uma orquestra privativa para quem somente reza na cartilha profissionalizante. Ao depois, o texto menciona que: as pessoas vão sentindo-se parte de uma sociedade mais justa. Mas peraí! Onde está a Justiça em um brilhante empreendimento que, ideologicamente, demonstra ser sectário e preconceituoso para com estudantes de música que permanecerão amadores? Isto é, aqueles que vão amar a música a vida toda, sem dela tirar proveitos econômicos pessoais e profissionais. E ao final, o antagonismo do texto ainda diz que os jovens estarão: mais preparados para exercerem seus direitos e deveres de forma plena e consciente. Parece manifesto que a inteligência do povo desta terra não pode ser desprezada. Há que se pensar num paradigma educacional público que capte recursos em prol de toda a cidadania. E não apenas, de um grupo de privilegiados porque escolhidos a dedo. Isto é, aqueles que desejam fazer da música sua profissão. Todos os estudantes de MT merecem a chance de conhecer música. Independentemente se vão ou não seguir essa carreira. Daí a importância urgente de fundação da Escola de Música do Estado. Convidamos, respeitosamente, ao debate a nossa eminente Secretaria de Estado de Cultura. Afinal, ela é a instituidora altiva e serena mantenedora desta iniciativa do Estado de Mato Grosso! * Ney Arruda é doutorando pela Universidad de Burgos (Castilla y León - España), músico, professor cuiabano e colaborador do DC Ilustrado (
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