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ILUSTRADO
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008, 21h:16

EXPOSIÇÃO

Dignidade ao lixo

Depois de quatro anos sem expor, Márcio Aurélio apresenta novos trabalhos mostrando que valeu a pena ficar na moita este tempo

Cláudio de Oliveira
Da Reportagem
Ser surpreendido normalmente é prazeroso. Estamos tão acostumados aos nossos ícones da arte e aos nossos símbolos impressos nos quadros que muitas vezes esquecemos o quão amplo poder ser a pesquisa em suportes e meios artísticos. Quatro anos dentro da concha foram mais do que suficientes para lapidar a pérola de um trabalho que sem dúvida, como disse a crítica, Aline Figueiredo: “dá dignidade ao lixo”. Márcio Aurélio, muito conhecido por suas paisagens e tons de cores extraordinários que reproduzem o Cerrado mato-grossense passou os últimos quatros anos pelo menos longe das exposições, segundo ele próprio, pesquisando formas e suportes, com uma idéia fixa de aproveitar, ou melhor, trabalhar com o lixo. “Alguns amigos me desmotivaram dizendo que aquilo não durava, que não era legal, que deveria tomar cuidado, mas eu me perguntava e daí...se não durar ao menos me deu prazer...” Márcio fala sem parar, até atender o telefone e mostrar o quanto é tímido de fato. Visitamos o artista no processo de montagem da exposição no Museu do Rio. Márcio tem todos os prêmios do Salão Jovem Arte e já expôs pelo Brasil afora e também em Washington e Nova York. Segundo Aurélio a idéia inicial era fazer a exposição a céu aberto, primeiramente foi cogitado a Praça do Porto, porque ele gostaria que as pessoas vissem o trabalho e a praça é onde o povo está, afirma o artista. Contudo o privilégio coube mesmo ao Museu do Rio. As obras surpreendem pela plasticidade, o aproveitamento do lixo com o auxílio do fogo dá um acabamento perfeito, uma textura nobre que entorpece. E pensar quantos sacos de lixo foram retirados das ruas e ao invés de ir para o Pantanal estão agora habitando a “Bacia de Luz”, obra do artista que mistura os sacos de lixos com recortes de garrafa pet. Não imagine que vai encontrar aquele artesanato ingênuo que pessoas comuns como eu e você podemos fazer para passar o tempo. Os banners em polietileno recebem um tratamento especial para confecção de verdadeiras obras de arte. As telas já não cabiam mais o artista, ele ficou maior que o suporte e transcendeu o retângulo limitado apoiado pelo cavalete. Os detalhes mostram o trabalho perfeccionista do Márcio que acredita estar atingindo o ápice no aproveitamento e na técnica agora empregada. “É uma pena que o dinheiro acabou, espero que eles liberem mais para que eu possa continuar pesquisando” almeja Aurélio. As latas de tinta de 20 litros sobrepostas, pintadas e envernizadas mais parecem totens sincréticos que misturam influências orientais, egípcias, indígenas e uma imaginação artística livre. As formas geométricas lembram mesmo os motivos indígenas, mas a apropriação pós-moderna do lixo confere à mesma esta atualidade. O museu estava sendo tomado de banners, latas e bancos que irão encantar os visitantes nos próximos vinte dias pelo menos. A exposição é resultado de um projeto apoiado pela Secretaria Estadual de Cultura que apesar de liberar pouquíssimo dinheiro e ainda cortar a verba prevista serviu, segundo o Aurélio, para dar o entusiasmo final antes da exposição. A abertura é hoje, no Museu do Rio às 20 horas com o artista Júlio Carcará que fará uma performance para abrilhantar ainda mais a noite cuiabana. “São trinta anos vivendo da arte. Trinta anos sem fazer outra coisa, sofrendo” segundo o artista que emenda, ao ouvir que o sofrimento é uma etapa para a evolução, “nós, seres humanos nascemos para ser felizes. Esta idéia é muito cristã, tô fora”. Quando questionado porque tanto tempo fora de circulação, ele diz que é só acabar esta exposição e com certeza me recolho à minha concha. Provavelmente para lapidar uma nova pérola.

Edição EDIÇÃO 16967




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