ILUSTRADO
Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013, 20h:31
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
D. Elza Maria de Barros Tenuta: O Senadinho faz a sua parte como defensor de nossas reminiscências
EVALDO DE BARROS
Especial para o Diário de Cuiabá
O saudoso Oriente Tenuta Filho que foi farmacêutico e advogado era um ardoroso defensor das coisas nossas. Conhecido pelos íntimos como Nenê ou Tenuta, foi casado durante mais de 40 anos com a também cuiabana Elza Maria de Barros Tenuta e tiveram quatro filhos. Um dos hábitos do Tenuta na sua Farmácia era sentar-se em uma gostosa cadeira de balanço, nas horas vagas, e chamar quem passava pela rua para conversar. Oferecia ao amigo outra cadeira e o meio dedo de prosa tinha início. A conversa devia ser agradável pois, pouco a pouco, aumentava o número de pessoas que vinham curtir um papo com o Oriente Tenuta Filho. Daí, para a formação do Senadinho, foi questão de tempo. Para falar sobre Tenuta, filhos e o Senadinho fomos procurar D. Elza Maria e fizemos com ela a matéria que o leitor verá a seguir. DC ILUSTRADO: Conte-nos, D. Elza, sobre o saudoso Oriente Tenuta Filho D. ELZA: Tenuta nasceu em Cuiabá no dia 24 de julho de 1932 e era filho de Oriente Tenuta e de D. Mariana Ferreira Tenuta. Estudou na Escola Modelo Barão de Melgaço, depois foi para o Colégio Estadual, atual Liceu Cuiabano D. Maria de Arruda Müller, cursou farmácia no Rio de Janeiro e, finalmente, estudou direito na antiga Faculdade de Direito de Cuiabá. DC ILUSTRADO: Já formado e com Farmácia instalada por que razão ele foi estudar Direito? D. ELZA: Olha Evaldo, o Tenuta ficou frustrado com o exercício da profissão de farmacêutico. Ele dizia que estava só vendendo remédio e não fazia as manipulações químicas às quais estava habilitado. Esse desencanto levou-o a estudar Direito porque ele achava que, como advogado, poderia administrar os nossos negócios. No fim acho que deu certo, graças a Deus. DC ILUSTRADO: Quando foi o casamento? D. ELZA: Tenuta e eu nos casamos no dia 07 de fevereiro de 1960, um sábado de carnaval. Ele não queria deixar a Farmácia sem a sua presença e aproveitou o feriado carnavalesco. Minha mãe ficou na administração da Farmácia Tenuta durante a nossa lua de mel. Tivemos dois casais de filhos, todos médicos. Antônio Lucas, oncologista, Maria Cristina, gastro, Maria Inês, pediatra e Luiz Fernando, já falecido, que era oncologista. DC ILUSTRADO: E os netos, D. Elza? D. ELZA: Os meus filhos são todos lindos e solteiros, mas ainda não me deram nenhum neto. Acho que hoje é muita responsabilidade colocar filho neste mundo. Por isso mesmo não os cobro por não terem me dado netos. DC ILUSTRADO: Conte-nos de sua vida. D. ELZA: Sou cuiabana, nasci em 30 de setembro de 1942, filha do empresário atacadista Antônio Lucas de Barros e de D. Mariana Figueiredo de Barros. Depois que fiquei viúva assumi a presidência do Senadinho e fico, de longe, acompanhando as reuniões e, de perto, cuidando dos meus filhos que moram todos comigo. Amo a minha família, tenho centenas de amigos e gosto até mesmo do calor cuiabano. DC ILUSTRADO: A sra. se recorda do início do Senadinho? D. ELZA: A Farmácia Tenuta localizava-se na Praça da República, esquina com a rua Ricardo Franco (rua do meio). Ali o meu saudoso marido Tenuta colocou dois bancos de madeira que ficavam ao lado da cadeira de balanço dele. Entre os atendimentos dos clientes o Tenuta balançava na sua cadeira de palhinha. Paulatinamente os amigos foram chegando e se sentavam nos bancos de madeira. Acho que os primeiros ocupantes desses bancos foram o Dr. Farid Seror e o contador José de Carvalho. O Dr. Farid operava na Santa Casa às primeiras horas do dia, depois fazia a barba no Salão do Miguel e vinha para a Farmácia Tenuta. Logo depois vieram: Gervásio Leite, Orlando Nigro, Aretino de Matos, Rubens de Mendonça, João Maia, Coronel Armando Addor, Lino Maurício da Silva, Milton Corrêa da Costa, Fernando Marques Fontes, Luiz Fernando Barros Tenuta, João Elias Batista da Costa, Renato de Araújo Calhao, Alfredo Miguel Kalix, Lenine de Campos Póvoas, João Bosco de Arruda e Sá, José Sardi de Figueiredo, Francisco Augusto Falcão, Benedito Scaff Gabriel, Waldo Olavarria Filho, Donato Borges de Figueiredo, dentre outros. DC ILUSTRADO: Nesse tempo essa reunião de amigos ainda não se chamava Senadinho? D. ELZA: Não, o nome Senadinho veio bem depois. O sr. Oriente, pai do Tenuta, foi internado no Hospital Santa Helena e o meu falecido marido, por ser o único filho formado na área médica, decidiu vender a Farmácia para cuidar pessoalmente do pai. No dia 24 de janeiro de 1966 morreu o sr. Oriente Tenuta, que durante muitos anos vendeu gelo de boa qualidade aos cuiabanos, na fábrica que mantinha na Praça Ipiranga. O Tenuta decidiu recolher todas as cadeiras de balanço e as trouxe para casa, aqui na rua Cândido Mariano esquina com a rua Barão de Melgaço. Neste local a confraria ganhou nome, prestígio e o respeito das autoridades e da sociedade cuiabanas. DC ILUSTRADO: A sra. se recorda de quem criou o nome Senadinho? D. ELZA: Foi o contador João Elias Batista Costa, irmão do médico Dr. Afrânio. Já no novo endereço continuaram o Dr. Farid Seror, o sr. José de Carvalho, sr. Fernando Fontes e com eles vieram Benedito Teotino, João Gama, Jari Cuiabano, João Maia, Mário e Milton Mendes, Rubens de Mendonça, general Neto, Bosco de Arruda e Sá, Armando Addor entre outros. As cadeiras eram colocadas na calçada e na área aberta da casa (garagem) e ali ficavam até à noite quando, então, eram recolhidas. No Senadinho todos os problemas são resolvidos e não há brigas entre seus integrantes mesmo reunindo católicos, protestantes e espíritas no mesmo ambiente que é de paz e cordialidade. DC ILUSTRADO: A história do Senadinho é muito bonita e desperta atenções dos jovens e velhos de Cuiabá, pois não? D. ELZA: Realmente, gradualmente o grupo foi se firmando e hoje está formado. Antigamente quem se encarregava de colecionar tudo a respeito do Senadinho era o sr. Fernando Fontes. Hoje é o Dr. Fioravanti Fortunato quem se encarrega de documentar os acontecimentos. Depois da morte do sr. Fernando Fontes a filha dele, Dra. Alice, me presenteou com todos os documentos e fotografias guardados carinhosamente pelo sr. Fernando. No Senadinho Evaldo, sou uma espécie de rainha Elizabeth: reino mas não governo. Eles se reunem na minha casa mas têm total liberdade de ação. Quando o Tenuta morreu fui eu quem pedi a eles para que continuassem com as reuniões aqui. DC ILUSTRADO: O Senadinho, quando convidado, comparece aos acontecimentos? D. ELZA: O governador, hoje Senador Blairo Maggi, sempre ouviu muito os integrantes do Senadinho e os convidava para almoços com frequência. Em um desses almoços o Dr. Farid Seror, convidado para falar em nome do grupo, pronunciou o seguinte discurso: Excelentíssimo Senhor Governador do Estado, Blairo Maggi: O Senadinho, como é carinhosamente chamado, se sente honrado com o convite que nos foi feito para estarmos aqui nesta Casa, hoje, e ao mesmo tempo lisongeados, principalmente por ter partido dessa figura humana, proba e digna que é Vossa Excelência. Somos um grupo de pessoas com formações diversas, basicamente funcionários públicos aposentados, médicos, advogados, fiscais e militares, entre outros, que já contribuíram para o nosso querido Mato Grosso e Brasil, tendo em comum o fato de sermos cuiabanos de nascença ou por adoção desta querida cidade. Porém, é no bate papo do dia a dia, ali no Senadinho, é que encontramos inspiração no bom viver e conviver em Cuiabá. Somos, por assim dizer, uma parte da memória viva desta cidade, ou ainda, como consta em nossa carteirinha: os Defensores das Reminiscências Cuiabanas. Senhor Governador, com certeza Mato Grosso é hoje destaque no cenário nacional quando o assunto é agronegócios. Nosso Estado vem demonstrando para o Brasil que governar é tratar a coisa pública com o devido zelo que ela merece. Não é preciso propagandas publicitárias pois o próprio povo a faz e aí reside a diferença entre o bom governo e aquele que não é. No bom, as coisas realmente acontecem e aparecem, bastando olhar para os lados e para os fatos. Nós, do Senadinho, sentimo-nos orgulhosos por estarmos inseridos neste contexto, pois apesar de estarmos na inatividade, somos atentos com tudo o que acontece ao nosso redor. Sem dúvida nenhuma somos formadores de opinião e o bom administrador, com certeza, é bem falado e o mau administrador se não é mal falado, pior, é esquecido. Sem delongas, o Senadinho tem a sua história, e estamos presenciando este exemplo de Governo salários rigorosamente em dia, ausência de perseguições políticas, obras aparecendo, modernização do Estado, a máquina pública a todo vapor, inclusive com destaque para a restauração dos nossos prédios e monumentos históricos com resgate da nossa tão importante memória, sem dúvida é algo que nos enche de sastisfação. Senhor Governador, agradecemos por esta confraternização e temos a certeza que o Senadinho é uma fatia de nossa sociedade cuiabana e como tal fica engrandecida com tudo aquilo de bom que nos acontece em nosso cotidiano. Nosso muito obrigado. Cuiabá, 01/12/2001 DC ILUSTRADO: Como se dá o ingresso no Senadinho? D. ELZA: Duas condições são fundamentais: possuir mais de 60 anos e reputação ilibada. Os demais requisitos ficam por conta daqueles que já integram o grupo. Hoje o Senadinho possui 30 membros e, com a morte do Edmundo Tenuta, está com 29 integrantes. É a seguinte a composição atualizada do Senadinho: Renato Ramos Calhao, Sebastião Zeferino de Paula, Benedito Teotino da Costa Filho, Umberto Mendes de Oliveira, Moacir da Costa e Silva, Fuad Rachid Jaudy, Pedro Carlos Francischini, Alberto Cunha Monteiro, Francisco Alexandre Ferreira Mendes Neto, Armando Alfredo Addor, Frederico Carlos Soares Campos, Luiz Antonio Viudes Calhao, Antonio Lucas de Barros Tenuta, Fioravanti Leopoldo Fortunato, Leopoldo Fioravanti Fortunato, Aecim Tocantins, Benedito Dutra Pimenta, Werner A. Hans Von Kirchenheim, Werner Von Kirchenheim, Paulo de Figueiredo, Marcos F. Von Kirchenheim, Eldivaldir de Figueiredo, Marcondes Pouso Filgueira, Carlos Alberto de Vasconcelos, Rômulo Vandoni, Edgar Sardi de Figueiredo, José Augusto Rodrigues Palma, Renato Miguéis Olavarria e Antonio Manoel Bicudo. Sendo Senadores Honoríficos: Des. José Benedicto de Figueiredo (in memorian), Dr. Luis Alves Corrêa, Cel. Joacyr Sebastião da Silva, Dr. Vasco Roiz Palma Filho (in memorian) e Sen. Blairo Borges Maggi. CONCLUSÃO: D. Elza Maria de Barros Tenuta, viúva de Oriente Tenuta Filho assumiu, com a morte do marido, a presidência de honra do Senadinho. De fino trato, contou-nos que o inesquecível marido não gostava de ser tratado de Nenê, seu apelido de infância. Ela mesma, como esposa, sempre o tratou apenas de Tenuta. Recebendo centenas de visitas D. Elza está feliz com os quatro filhos todos médicos e incentiva o Senadinho sempre que pode. A diferença entre o nosso Senadinho e o de Brasília, é que o de Cuiabá exige mais de 60 anos e conduta ilibada enquanto que o de Brasília exige apenas 35 anos
As famílias Tenuta e Figueiredo Barros têm uma série de serviços prestados a Cuiabá, e a idealização do Senadinho está, com certeza, entre o principal deles. Impressiona-me o número de informações desencontradas sobre o endividamento do estado de Mato Grosso. Alguém está mentindo e outros não estão falando a verdade ou seja: tudo mentira, só mentira, puras mentiras! O progresso, processo desenvolvimentista, obras da copa ou cousas semelhantes não podem servir de álibi para esconder as mazelas da má gestão desembocando no mar de lamas. Este comentário é feito exatamente hoje quando focalizamos aqui o Senadinho. É que se esses senhores de antigamente tivessem não apenas voz mas também poder de veto já teríamos encontrado um referencial para recolocar Mato Grosso nos trilhos de sua história. Não se brinca impunemente com a administração pública. É de mister primário o conhecimento de que os homens passam e o estado permanece. A única certeza que temos nos dias passantes é a quase certeza da impunidade. Ah! diriam os nossos senadores do Senadinho quantas saudades dos tempos de outrora. Ao registrarmos aqui a história do Senadinho formulamos votos aos seus integrantes para que prossigam na luta sugerida pelo saudoso Deputado e jornalista Augusto Mário Vieira: Cuiabanos, façamos alguma coisa por Cuiabá.