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Cuiabá MT, Domingo, 21 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Quarta-feira, 04 de Março de 2009, 20h:30

PERSONAGEM

Cuiabano das antigas

Luiz Alves Corrêa, médico, cuiabano radicado no Rio, de passagem por aqui, trocou idéias com a reportagem

Claudio de Oliveira
Da redação
Não é sempre que a vida nos apresenta a oportunidade de falar com pessoas que realmente tem algo a acrescentar. Essas pessoas, normalmente, tem mais experiência de vida. Dr. Luiz Alves Corrêa é sem dúvida uma destas pessoas. Médico, cuiabano, nascido em março de 1921, formou-se no Rio de Janeiro e retornou a Cuiabá por volta de 1945. Suas lembranças aguçam a imaginação e estimulam a reflexão. Seus causos e lembranças inclusive já ganharam as páginas dos livros “Casos Lembrados, Casos Contados”. Há textos seus em duas coletâneas diferentes. As coletâneas foram uma iniciativa da escritora Inês de Oliveira Martins e contemplou autores na dita terceira idade. O médico está em Cuiabá até domingo próximo. Dr. Corrêa veio para reinaugurar uma nova ala da Santa Casa que recebeu o seu nome. A agradável conversa se deu no Hotel Mato Grosso onde ele está hospedado com a esposa Josefá. O assunto foi basicamente a história, um dos seus temas preferidos. Dr. Luiz se diverte ao dizer que as pessoas olham para Cuiabá hoje, especialmente alguns migrantes, e acreditam que inventaram Cuiabá. Ele citou uma frase de Rudyard Kipling (Mogli): “O chacal nasce na seca, e quando vem a chuva diz que nunca viu tanta chuva” (risos). Quando foi fazer o curso de medicina na Faculdade Nacional da Praia Vermelha (RJ) no final da década de 30, ele levou sete dias para chegar através de uma logística intermodal de transporte, barco, trem e carro. O seu retorno foi mais fácil, apenas um dia a bordo de um avião da Panair. Na época do descobrimento, século XVIII, a vila Real Bom Jesus de Cuyabá era uma das cidades mais populosas do Brasil e este processo de expansão e progresso sempre existiu em Cuiabá segundo o Dr. Luiz. Olhar para Cuiabá hoje e acreditar que começou ontem é um grave engano. Dizer que Cuiabá hoje é a mesma de dez ou quinze anos atrás também. O processo é contínuo e permanente, mesmo com a velocidade ampliada pela internet e pela informática como temos hoje, argumentou Dr. Luiz. Aliás, esta é outra faceta interessante. Ele me indicou um blog e disse ser usuário da internet, desconfiado que os jovens de hoje não percebam o mistério que é, teclar com um amigo, que responde prontamente, mesmo estando em Portugal sem o nosso conhecimento. Ao mesmo tempo Corrêa acredita que os migrantes que para cá vieram deveriam se integrar mais à sociedade cuiabana. Por que continuam acreditando que são do Paraná, São Paulo ou Santa Catarina quando estudaram e ganharam a vida toda aqui? Talvez esta percepção seja ainda um apego às raízes, à identidade, a necessidade de territorialização. Quando observamos os jovens com amigos na França, Canadá, Rússia e outros tantos países e vemos a fluência deles no inglês e o compartilhamento da cultura global, nos perguntamos: até onde está identidade fixa, com território e fronteira ainda tem espaço no mundo atual? Dr. Luiz circula pela Varanda Cuiabana(blog), estuda a história e tem muitos casos a nos contar. Esperamos poder revê-lo, e ouvi-lo mais e mais. O privilégio de conhecer o RJ nas décadas de 30/40, a cidade de Brasília na década de 60 e Cuiabá por toda a vida é realmente uma experiência única, especialmente, quando a esta vivência, acrescentamos o ofício de salvar vidas.

Edição EDIÇÃO 16967




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